Da "múmia" ao "drácula": os códigos na lista de subornos

Lista de 200 políticos que receberam dinheiro da Odebrecht abala política do país. No Parlamento, ameaças. Nas ruas, tumultos

A Operação Lava-Jato está a investigar donativos de campanha e a separá-los entre legais e ilegais na lista de 200 nomes de políticos, pertencentes a 24 partidos, ligados ao governo e à oposição, que os investigadores encontraram na casa de um quadro da Odebrecht, construtora cujo presidente, Marcelo Odebrecht, está preso e aceitou realizar delação premiada. Enquanto a imprensa se delicia com os nomes de código de alguns dos beneficiados, estes apressam-se a dizer que no caso deles as doações estão dentro da legalidade.

Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, ambos do PMBD, infiel aliado do PT no governo, são chamados de "caranguejo" e "atleta", respetivamente. Cássio Cunha Lima, líder parlamentar do PSDB, é o "poeta", Humberto Costa, homólogo do PT, o "drácula", Jaques Wagner (PT), que era até à posse suspensa de Lula da Silva o ministro da casa civil, o "passivo", Randolfe Rodrigues, do Rede de Marina Silva, o "múmia", Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro pelo PMDB, o "nervosinho", entre muitas outras.

Aécio Neves, líder do PSDB e candidato derrotado por Dilma Rousseff em 2014, Geraldo Alckmin, governador de São Paulo e presidenciável tucano, José Sarney, antigo presidente afeto ao PMDB, são alguns dos envolvidos na planilha da Odebrecht. Nessa planilha, há uma coluna, totalizando 33 milhões de reais [cerca de oito milhões de euros] que se acredita corresponda a doações legais. Já uma coluna que soma 39 milhões [mais de nove milhões de euros] pode ter sido paga por baixo da mesa.

Sérgio Moro pediu sigilo da lista de nomes, o que motivou críticas de observadores próximos ao PT, depois de o juiz de Curitiba que lidera a Lava-Jato, ter permitido a divulgação de escutas telefónicas de Lula da Silva com Dilma e outras personalidades.

Lula que alertou, em comício com aliados, para o dinheiro que a Lava-Jato custou ao país. "A Lava-Jato diz que vai recuperar milhões, tudo bem; mas e quanto já deu de prejuízo à economia deste país?", perguntou.

Sobre a suspensão da sua posse como ministro, desdramatizou. "Quando eu saí da Paulista [nas manifestações de dia 18] cheguei em casa pronto para beber um whisky com a Marisa [a sua mulher] mas aí já era mais ministro de novo. O Gilmar [Mendes, juiz do Supremo] suspendeu a posse e agora viajou para Portugal. Mas eu não preciso de ser ministro para ajudar." "Pode ser a última coisa que eu faça na vida mas vou ajudar a Dilma a governar o país!"

"O problema deste país é o ódio, eles acham que por usar verde e amarelo são mais brasileiros do que nós", continuou. Horas depois, o pré-candidato às presidenciais de 2018 Jair Bolsonaro afirmou no Parlamento que "quem não votar pela saída daquela corrupta e impostora vai ter problemas para sair do Congresso", frase considerada "fascista" pelo deputado do PT Carlos Zarattini. Na véspera, houve pela terceira noite consecutiva tumultos entre estudantes pró e contra o governo em escolas e faculdades de São Paulo.

Por isso, para Lula, a política é prioritária em relação à economia. "A economia resolvemos amanhã ou depois, evitar o golpe tem de ser hoje, deem-nos seis meses de paciência para provarmos que este país pode voltar a ser o país da alegria e da esperança."

Dados do desemprego assinalam que os 9,5% do trimestre que terminou em janeiro é o pior registo desde há quatro anos. A inflação de março, porém, registou diminuição maior do que o previsto, alavancada pela queda nos preços dos produtos alimentares e da energia, traduzindo-se no menor registo desde 2012, consequência, segundo os analistas, da recessão.

* São Paulo

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