Da Casa Branca ao forte McHenry: os polémicos cenários da convenção republicana

A pandemia transformou os encontros partidários e libertou os intervenientes para discursos longe dos delegados. Donald Trump discursa na quinta-feira à noite a partir do relvado da Casa Branca, mas chegou a pensar fazê-lo desde Gettysburg.

Donald Trump, que na segunda-feira viu a convenção republicana confirmar a sua candidatura a um segundo mandato presidencial, aceitará a nomeação esta quinta-feira à noite (madrugada de sexta-feira em Lisboa) com um discurso a partir do Relvado Sul da Casa Branca.

Os críticos dizem que é mais uma prova de como está a diluir as linhas entre o presidente e o candidato e a fazer uso das agências governamentais com fins partidários.

Trump, que ao longo da convenção já apareceu em várias salas da residência oficial dos presidentes dos EUA, não é o único que discursou desde a Casa Branca. A primeira-dama, Melania Trump, fê-lo também na terça-feira, a partir de um renovado Jardim das Rosas.

Mas a convenção escolheu ainda outros cenários polémicos, como o forte McHenry, palco do discurso do vice-presidente Mike Pence nesta quarta-feira à noite e até Jerusalém, na intervenção do chefe da diplomacia Mike Pompeo.

Trump: Relvado Sul da Casa Branca

Os republicanos tinham inicialmente pensado em fazer o discurso de aceitação de Trump em Charlotte, na Carolina do Norte, onde se está a realizar a convenção, mas os planos chocaram com a decisão do governador, o democrata Roy Cooper, de que era necessário manter o distanciamento social no evento, por causa do coronavírus.

Trump, que queria uma plateia, alterou então o discurso para Jacksonville, na Florida, mas o aumento de casos nesse estado estragou novamente os planos ao presidente, que começou então a pensar em alternativas.

Uma delas foi usar o campo de batalha de Gettysburg, na Pensilvânia, palco de um dos mais famosos discursos políticos dos EUA. O discurso de Gettysburg foi proferido pelo presidente Abraham Lincoln a 19 de novembro de 1863, quatro meses após a vitória que foi decisiva para a Guerra Civil. Era a cerimónia de dedicação do cemitério: "Que estes mortos não tenham morrido em vão, que esta nação, sob Deus, terá um novo nascimento em liberdade, e que o governo do povo, pelo povo, para o povo não perecerá da Terra", disse.

A escolha final acabou contudo por recair no Relvado Sul da Casa Branca, que na prática dá para as traseiras (visto a morada da residência oficial ser a Avenida da Pensilvânia). É lá que aterra o helicóptero presidencial, o Marine One, e se realizam eventos como a Corrida aos Ovos da Páscoa.

A escolha é polémica porque a Casa Branca será assim usada para um evento partidário e as leis federais impedem qualquer funcionário -- à exceção do próprio presidente e do vice-presidente -- de usar a sua posição para se envolver em atividades políticas. Os críticos dizem que é uma violação das regras de ética, se não da parte de Trump, dos funcionários que são responsáveis por organizar o evento.

A campanha de Trump responde que os eventos da convenção serão organizados pelo Comité Nacional do Partido e que qualquer funcionário do governo que participe o fará sempre ao abrigo da lei -- que no passado a Casa Branca de Trump já ignorou.

Um argumento usado para fazer o discurso ali passa por questões de segurança, sendo que haverá convidados presentes para ouvir Trump.

Durante a convenção, Trump também já apareceu na East Room (sala Este) a falar com trabalhadores da linha da frente da batalha contra o covid-19 e também da Sala de Receções Diplomática, com seis reféns que ajudou a trazer para casa do Irão, Síria e Venezuela. Também perdoou um antigo condenado por roubo de bancos, que trabalha num programa de reinserção de prisioneiros.

Melania: Jardim das Rosas

A primeira-dama discursou na segunda noite da convenção republicana a partir de um renovado Jardim das Rosas, que não agradou a todos os norte-americanos.

Desenhado por Bunny Mellon em 1961 durante a administração de John F. Kennedy, depois de o presidente e a primeira-dama Jacqueline Kennedy terem ficado impressionados com o que tinham visto numa viagem à Europa, o jardim perdeu algumas árvores (que serão replantadas noutro lugar) e ganhou caminhos que permitem o acesso a pessoas com dificuldades motoras. As flores coloridas, entre as quais túlipas, deram lugar a rosas brancas e de cor pastel.

Contudo, as acusações que circulam nas redes sociais de que a primeira-dama tinha arrancado as árvores do tempo de Kennedy e até destruído rosas que já estavam no local desde que tinham sido plantadas pela primeira-dama Ellen Wilson, em 1913, a primeira a criar o Jardim das Rosas substituindo o jardim colonial criado por Edith Roosevelt, são falsas. As árvores não eram as originais, nem as flores aguentam tanto tempo.

O local foi o palco do discurso de Melania, com os democratas a questionar novamente o uso da Casa Branca para um evento partidário.

Mike Pence: forte McHenry

O vice-presidente norte-americano escolheu outro local polémico para o seu discurso: o forte McHenry, que é um monumento nacional no porto de Baltimore (Maryland) gerido pelo Serviço Nacional de Parques.

Em 1814, o forte construído em 1798 foi palco do bombardeamento das forças britânicas contra os revolucionários norte-americanos. Um evento que inspirou o poema de Francis Scott Key que se tornaria mais tarde no hino dos EUA (The Star-Spangled Banner).

O cantor Trace Adkins cantou o hino a capella durante o evento.

Durante a instalação do palco para o discurso de Pence, que foi esta quarta-feira à noite, uma empilhadora terá danificado ligeiramente um dos caminhos.

O uso de um parque nacional para um discurso político foi criticado pela Coligação para a Proteção dos Parques Nacionais dos EUA, preocupados com a apropriação do espaço.

Mike Pompeo: Jerusalém

O secretário de Estado norte-americano estava bem longe dos EUA quando discursou na convenção republicana e esse é precisamente o problema: estava num telhado, com a cidade velha de Jerusalém como pao de fundo.

Os democratas no Senado já lançaram um inquérito para saber se Mike Pence violou a lei federal -- que estabelece uma distinção clara entre política nacional e diplomacia -- ao discursar desde Jerusalém (discurso foi gravado durante a visita).

A ideia é que o secretário de Estado representa, no estrangeiro, toda o país e ao participar num evento partidário pôs isso em causa. A equipa de Pompeo alegou que o discurso foi feito no seu tempo pessoal e que pelo menos quatro advogados terão lido o discurso com antecedência para garantir que não havia qualquer violação das regras.

Além disso, as próprias regras do Departamento de Estado indicam que os responsáveis não podem falar a favor ou contra determinado candidato. Todos estão até proibidos de assistir à qualquer convenção, exceto se tiverem tido a sua nomeação confirmada pelo Senado (como é o caso de Pompeo).

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