Cristina Kirchner joga futuro presidencial na eleição para senadora

Mesmo perdendo para o candidato de Macri, a ex-presidente será eleita. Mas dimensão da derrota tem implicações para 2019.

Para o presidente argentino, Maurício Macri, as legislativas de hoje são uma forma de consolidar o apoio às mudanças económicas que empreendeu desde que chegou à Casa Rosada, em 2015. Para a ex-presidente Cristina Kirchner, que aos 64 anos é candidata a senadora pela província de Buenos Aires, são um teste para saber se terá hipóteses de voltar ao poder em 2019. Mas também uma forma de evitar uma eventual detenção, caso seja considerada culpada em qualquer dos processos em que está envolvida.

Nas eleições de hoje renova-se quase metade da Câmara dos Deputados (127 em 257) e um terço do Senado (24 em 72), sendo uma oportunidade para a coligação de centro-direita de Macri melhorar a sua posição. Atualmente, o Cambiemos tem apenas 87 deputados e 15 senadores, conseguindo governar mediante alianças pontuais. De acordo com as sondagens, o presidente deverá sair fortalecido da ida às urnas - mesmo não alcançando uma maioria, deverá ter o apoio político para acentuar a abertura económica e fazer as reformas fiscal e laboral de que precisa.

Depois da recessão de 2% em 2016, a economia argentina está a crescer e o PIB poderá subir 3% em 2017. Mas isso ainda não teve um impacto no bolso dos argentinos, que, pelo contrário, passaram a pagar mais eletricidade e luz após Macri ter eliminado os subsídios a estes setores, assim como mais pela água e combustíveis, e perderam 29% do poder de compra entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016. O principal problema é mesmo a inflação, que deverá chegar aos 22%, assim como o aumento da dívida, que está nos 58,6% do PIB.

"É preciso refletir, argentinos. Ainda estamos a tempo de pôr um limite. Não deixemos que estas políticas continuem a avançar e a endividar o nosso país", defendeu Kirchner num ato de campanha no estádio do Racing. A ex-presidente, que esteve no poder entre 2007 e 2015, criou a coligação de centro-esquerda Unidade Cidadã quando saiu da Casa Rosada e é candidata a senadora pela província de Buenos Aires - região que rodeia a capital (distrito autónomo) onde vivem 40% dos eleitores.

Nas primárias de agosto, o Cambiemos de Macri conseguiu impor-se em todo o território, exceto na província de Buenos Aires. Mas a vitória de Kirchner foi mais escassa do que o pensado e as sondagens apontam agora para uma eventual derrota - mesmo ficando em segundo será eleita porque há três lugares em jogo. A imprensa argentina alega que a ex-presidente se prepara para falar em fraude eleitoral, caso não ganhe. O tamanho da vitória do candidato de Macri, Esteban Bullrich (ex-ministro da Educação), será determinante.

Envolvida em vários processos judiciais, sendo até suspeita de ser a alegada chefe de uma associação criminosa que cobrava subornos em troca da adjudicação de obras públicas, Kirchner foi acusada de se candidatar para se proteger de uma eventual ordem de detenção. Os processos continuam a decorrer, mas mesmo se for condenada não poderá cumprir a pena - veja-se o ex-presidente Carlos Menem, que aos 87 anos se recandidata a senador por La Rioja. Menem foi condenado a sete anos de prisão por contrabando de armas para a Croácia e o Equador durante o seu mandato (1989-1999), violando um embargo internacional. A ex-presidente nega qualquer crime, dizendo-se vítima de perseguição judicial por parte do governo de Macri, com o objetivo de minar o seu eventual regresso ao poder em 2019.

"Se Macri tivesse de eleger agora mesmo um candidato para enfrentar nas próximas presidenciais de 2019, optaria sem dúvida por Cristina, porque considera que venceria sem a mínima dificuldade", escreveu contudo o jornalista Luis Majul, no La Nación. Em causa está o facto de a base de apoio de Kirchner rondar os 35%, mas haver cerca de 60% que a rejeitam após 12 anos de kirchnerismo (antes de Cristina, foi o seu marido, o falecido Néstor Kirchner, que esteve quatro anos no poder).

Uma derrota pesada da ex-presidente abriria ainda mais a divisão dentro do peronismo - a corrente fundada pelo general Juan Domingo Perón, que morreu em 1974 depois de vencer as presidenciais ao fim de 18 anos no exílio. Atualmente, o peronismo que ainda representa 60% dos votos está dividido entre Kirchner (centro-esquerda) e uma ala mais centrista, representada pelo deputado Sérgio Massa. Uma eventual derrota da ex-presidente poderia levar ao aparecimento de novos nomes dentro do peronismo tendo em vista as eleições de 2019, que não gerem tanta rejeição como a ex-presidente e tornem mais complicada a reeleição de Macri.

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