Covid-19. Maior produtor mundial de carne de porco forçado a encerrar fábrica

Uma fábrica de processamento de carne de porco no Dakota do Sul tornou-se um dos principais focos de covid-19 nos EUA, com mais de 600 casos. Refugiados de todo o mundo trabalham na fábrica e temem pelo futuro. "O vírus não é pior do que a guerra e a fome."

O contágio começou a ser detetado em março na unidade de Sioux Falls, no Dakota do Sul, da Smithfield, a maior produtora mundial de carne porco processada em que esta fábrica é responsável pelo abastecimento de 5% do mercado norte-americano. Agora, está fechada com mais de 640 casos confirmados ligados à empresa que tem 3700 trabalhadores, na sua maioria imigrantes. A Smithfield tornou-se no principal epicentro da epidemia no estado e mesmo na maior fonte única de contágio nos Estados Unidos, com 644 casos, acima do porta-aviões USS Theodore Roosevelt, com 615. Mas não foi fácil determinar o seu encerramento.

Paul TenHaken, autarca de Sioux Falls, 42 anos, disse que foi difícil convencer o maior produtor mundial de carne suína a encerrar uma das suas maiores fábricas. "Fechar uma fábrica como esta tem um impacto muito grande no fornecimento de alimentos. Portanto, não tomamos a decisão de ânimo leve", contou à NPR, a rádio pública norte-americana.

Os casos positivos foram crescendo, sem estar comprovado que este matadouro seja o local inicial de contágio. Mas o distanciamento social é difícil nas linhas de produção e o contágio foi ganhando proporções enormes, alastrando à comunidade.

A administração da Smithfield resistiu até ao limite, mesmo com os protestos dos sindicatos, e quis encerrar apenas por três dias na quinta-feira da semana passada. A governadora do Dakota do Sul, Kristi Noem, agiu depois e no domingo forçou o encerramento durante, pelo menos, 14 dias, quando já era claro que a unidade industrial era uma grande concentração de casos de covid-19. Foi uma carta do autarca TenHaken à governadora que desencadeou o processo de encerramento temporário por duas semanas, quando o presidente da Câmara percebeu que os casos já eram na ordem das centenas.

A maioria dos funcionários é originária de diferentes países. Falam-se 26 línguas na fábrica e, conta o The New York Times, muitos trabalhadores estão ansiosos por voltar ao trabalho. Temem ficar sem rendimentos, apesar de a empresa garantir que irá pagar parte dos salários durante as duas semanas. "É muito menos do que a maioria podia ganhar com as horas extras que fazem de forma rotineira, com turnos duplos em seis e até sete dias da semana", relata o diário de Nova Iorque.

"Mal posso esperar para voltar ao trabalho pela simples razão de que essa é a única coisa que sustenta a minha família", disse Achut Deng, uma refugiada sudanesa, com três filhos, que em seis anos trabalhou como operadora recebendo 12,75 dólares por hora e subiu com uma mudança de turno para 18,70 dólares/hora. "Sinto muito por todos e por mim mesmo com o vírus, mas sinto-me melhor se voltar ao trabalho."

Muitos dos trabalhadores chegaram de países africanos ou da América Central, como El Salvador. E dizem que o "vírus não é pior do que a guerra, a violência, não ter nada para comer".

Impacto nos supermercados e na agricultura

A empresa alertou que o encerramento pode trazer consequências graves. "Este encerramento, conjugado com o fecho de outras unidades similares do nosso setor, empurra o país perigosamente para perto do limite em termos de oferta de carne", disse Ken Sullivan, CEO da Smithfield, em comunicado. "É impossível manter os nossos supermercados com stocks se os nossos frigoríficos não estiverem a funcionar."

Vários grandes matadouros americanos fecharam devido à pandemia de coronavírus e deixam os agricultores sem saber o que fazer com os seus animais e os consumidores provavelmente a enfrentar uma seleção limitada de carnes mas os especialistas afastam o cenário de ruturas.

"Apenas teremos consumidores a enfrentar menos opções do que estão acostumados", disse à AFP Dawn Thilmany, professora de agro-indústria da Universidade Estadual do Colorado. "Podem ter que escolher um conjunto diferente de coisas, digamos um assado em vez de um bife de costela, porque nem tudo estará disponível".

No pior cenário, "veremos escassez regional ou intermitente de produtos à base de carne", acrescentou. Thilmany disse que vê reservas suficientes no setor, observando que "alguns distribuidores têm um stock bastante bom de carne congelada".

Outras instalações fechadas incluem uma fábrica de carne de porco da Tyson Foods no Iowa e dois matadouros de gado da JBS na Pensilvânia e no Colorado.

"Esta situação está a mudar diariamente", disse Julie Anna Potts, presidente do Instituto Norte-Americano de Carnes. "Algumas instalações estão fechadas, outras apenas temporariamente. Há fábricas que estão a executar menos turnos ou diminuíram a produção".

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG