Comunidade de Madrid com governo à andaluza: Isabel Díaz Ayuso eleita presidente

Região da capital espanhola vai ter um governo de coligação entre PP e Ciudadanos, tendo tido o apoio da extrema-direita do Vox para a investidura.

Isabel Díaz Ayuso, do Partido Popular, foi esta quarta-feira eleita presidente da Comunidade de Madrid com os votos favoráveis do Ciudadanos, com quem chegou a acordo para uma coligação de governo, e do partido de extrema-direita do Vox. Madrid terá assim um governo à andaluza.

O acordo que a nível nacional não tem sido possível à esquerda, tornou-se realidade com a direita na comunidade de Madrid -- tal como antes se tinha tornado realidade na Andaluzia. Díaz Ayuso teve 68 votos a favor (a maioria é 67), que correspondem aos 30 do PP, aos 26 do Ciudadanos e aos 12 do Vox. Teve 64 votos contra. O PSOE, liderado por Ángel Gabilondo foi o mais votado nas eleições a 26 de maio, elegendo 37 representantes, mas sem maioria para governar.

No debate de investidura, Ayuso disse que cumprirá totalmente o pacto com o Vox, que recuou na exigência de reforma das leis LGBTI, na redução do número de pastas ministeriais regionais, assim como na repatriação de menores emigrantes não acompanhados ou passar aos países de origem dos migrantes as eventuais faturas com os serviços de saúde.

As propostas do Vox que vão em frente passam por obrigar os centros educativos que recebem fundos públicos a detalhar os temas das aulas, para que os pais possam decidir quando os filhos devem ficar em casa se derem matérias que vão contra a sua religião ou crença; a promoção da natalidade com a criação da pasta da Família ou defender que "é preciso combater o machismo, mas não os homens".

O porta-voz do Mais Madrid, Íñigo Errejón (ex-Podemos), disse no debate que vai nascer um "governo chantageado pelo Vox, ameaçado pela corrupção e com mais passado que futuro". Díaz Ayuso trabalhou com as ex-presidentes da Comunidade de Madrid, Esperanza Aguirre e Cristina Cifuentes, que estão a ser investigadas pelo financiamento ilegal do PP em Maddrid.

Errejón falou ainda de um governo que "nasce débil", tendo no passado dito que não agunetará até ao final do mandato. Ela, por sua vez, acusou-o de ser "o maior traidor da política espanhola", lembrando que virou as costas ao Podemos de Pablo Iglesias.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...