Como é o amor em Ghouta? Uma artista síria desenhou-o

Os desenhos retratam pessoas reais que vivem na Síria e o impacto que a guerra tem nos seus relacionamentos. "Eles (os moradores de Ghouta) continuam a viver o seu quotidiano, continuam a apaixonar-se e tentam proteger as pessoas que amam"

Uma artista síria que vive atualmente em Beirute, no Líbano, publicou nas redes sociais uma série de ilustrações sobre a realidade em Ghouta oriental, onde os bombardeamentos já mataram mais de mil civis, incluindo 240 crianças, desde a escalada de violência que teve início em fevereiro. Dima Nachawi tem recolhido testemunhos sobre como as famílias que vivem no enclave rebelde têm tentado seguir com as suas vidas, ou melhor, como o amor tem prevalecido sobre a guerra.

O projeto chama-se "O amor é..." e tem sido partilhado pela artista nas redes sociais. Cada imagem mostra um casal e, a uma primeira vista, as cenas retratadas poderiam passar-se em qualquer parte do mundo, mas são os detalhes que contam a história de Ghouta: há abraços no meio de bombardeamentos e um homem a tentar que o gerador funcione e que há sinal de Internet para a mulher poder jogar online, algo que ela adora fazer.

A situação na terra natal de Nachawi é um tema constante nos trabalhos da artista. Os desenhos retratam pessoas reais que vivem na Síria e o impacto que a guerra tem nos seus relacionamentos. Apesar de serem casais reais, o anonimato tem sido preservado e só são revelados alguns detalhes sobre as pessoas que Dima Nachawi desenha.

"Eles (os moradores de Ghouta) continuam a viver o seu quotidiano, continuam a apaixonar-se e tentam proteger as pessoas que amam", disse Dima Nachawi à BBC.

No entanto, apesar de querer ilustrar o amor no meio da tragédia, o projeto não tem sido fácil para a ilustradora.

"Foi muito difícil de realizar, especialmente (o desenho) sobre uma mulher que morreu", diz, referindo-se à imagem em que um homem abraça uma mulher durante um bombardeamento. Apesar do companheiro a ter tentado proteger, ela acabou por morrer vítima dos ferimentos causados por estilhaços de vidros.

"Estava preocupada com o resultado da ilustração, mas ao mesmo tempo foi algo muito pesado para mim", disse a artista. "É muito difícil ilustrar algo que não tem um final feliz", acrescentou.

"Mas ao mesmo tempo sou grata por ter tido a oportunidade de refletir sobre as vidas de outros sírios: aqueles que sobrevivem, que amam, que não são vítimas; são pessoas que agem", sublinha Dima Nachawi. "É isso que eu quero retratar com as minhas ilustrações."

A artista critica ainda a forma como os media internacionais retratam o povo sírio. "Somos estereotipados como refugiados ou vítimas do conflito", afirma. "Eu prefiro conversar com as pessoas [na Síria] para tentar entender como elas estão a tentar prosseguir com as suas vidas."

Apesar de considerar ser "muito difícil" acompanhar o conflito à distância, a sua arte quer mostrar um outro lado do seu povo ao mundo. "Estou a contribuir para espalhar uma mensagem, para contar às pessoas algo que elas ignoram sobre a Síria", diz.

"Sei que talvez não consiga provocar um impacto massivo na situação atual, mas as minhas ilustrações preservam algo para a memória coletiva, para que a próxima geração possa saber o que aconteceu", resume a artista.

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