Como a AfD passou de partido de universitários a partido populista

Em menos de três anos, projecto surgido como eurocético adotou uma orientação de extrema-direita.

Foi fundado em abril de 2013 como um partido que defendia o fim do euro e de contornos populistas, mas apoiado maioritariamente em setores da classe média, dos meios universitários, empresários, economistas e jornalistas, além de ex-quadros dos conservadores da CDU e dos liberais do FDP.

Uma das principais críticas que dirigia ao governo de Berlim era o apoio destes aos resgates financeiros a países como a Grécia e Portugal. Daí o nome Alternativa para a Alemanha (Alternativ für Deutschland, AfD). Defendia a permanência da Alemanha na UE, mas opunha-se a uma maior integração. A origem e perfil dos seus quadros traduzia uma imagem de partido das elites, com mais de dois terços dos seus membros a serem detentores de doutoramentos, sendo a maioria do sexo masculino. A AfD chegou a ser designado como o "partido dos professores universitários".

O seu primeiro líder, Bernd Lucke, considerado um moderado, acabará por se afastar em 2015, depois de ter perdido a liderança do partido em congresso, acusando a AfD de ter entrado numa deriva xenofóbica. Ao mesmo tempo, a popularidade do partido cresce, afirmando-se eleitoralmente em 2014, ao recolher cerca de 10% nas eleições estaduais na Saxónia. Neste mesmo ano, elegeu sete deputados para o Parlamento Europeu.

Um sinal de como o partido mudou no espaço de três anos é dado pelo facto de apenas dois daqueles eurodeputados serem ainda hoje continuarem membros da AfD.

Com a liderança de Frauke Petry, a AfD acentua a linha populista, anti-imigração e anti-islâmica, afirmando-se num documento aprovado no congresso de 2016 que "o islão não faz parte da cultura alemã". Opôs-se, naturalmente, à política de porta aberta da chanceler Merkel aos refugiados sírios.

Um discurso de caráter nacionalista, presente desde o início, torna-se também mais presente , com um dos seus fundadores e atual dirigente, Alexander Gauland, a afirmar durante a campanha que os alemães deviam ter orgulho naquilo que os seus soldados fizeram na I e na II guerras mundiais. Para Gauland, se "os franceses estão, com razão, orgulhosos do seu imperador [Napoleão] e os britânicos de Nelson e Churchill, nós temos o direito de ter orgulho nos feitos dos nossos soldados" naqueles dois conflitos. Gauland incluiu, contudo, o nome de Claus von Stauffenberg, responsável pela tentativa frustrada de derrubar Hitler em julho de 1944, entre aqueles em quem os alemães se deviam orgulhar.

As posições ideológicas da AfD continuaram a orientar-se cada vez mais por um alinhamento com posições populistas de extrema-direita. Ainda em 2016, a AfD assina uma aliança política com o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ, inequivocamente de extrema-direita).

Em 2017, a AfD escolhe Gauland, no passado membro da CDU de Angela Merkel, como candidato às legislativas de ontem. Ao mesmo tempo, é escolhida Alice Weidel como co-dirigente do partido, considerada uma moderada. Mas o essencial do seu programa, mantendo os temas iniciais, assenta em tópicos clássicos entre os partidos de extrema-direita, como a negação às alterações climáticas, a oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por aquelas. Na linha daquilo que a Frente Nacional sustenta, advoga o fim das sanções à Rússia por causa da anexação da Crimeia. O desenvolvimento mais recente é o aparecimento do antissemitismo nas intervenções de alguns líderes.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG