Com ou sem Trump, em Washington DC a América é grande

Washington vive em torno do Capitólio. É aqui que democratas e republicanos decidem o futuro da nação. Republicanos como David Valadao e democratas como Jim Costa, representantes da Califórnia e empenhados na reforma da imigração. Em ano de intercalares, este é o assunto que ameaça encerrar o governo, com Trump a insistir no muro com o México em troca de um acordo para os dreamers. Um ano após a sua posse, tudo mudou. Da política externa à forma de fazer lóbi. Mas na capital a América prova que esteja quem estiver na Casa Branca é grande, do poder militar às universidades de topo

Fato cinzento e gravata vermelha, Rand Paul conversa num canto da sala com um Ted Cruz de camisa azul a chamar as atenções para a gravata amarela. Do lado oposto ao escolhido pelos senadores do Kentucky e do Texas, rivais na corrida à nomeação republicana para as presidenciais americanas de 2016, Elizabeth Warren, do Massachusetts, cochicha ao ouvido de Bernie Sanders, o senador do Vermont e principal rival de Hillary Clinton na corrida democrata. Pelo meio, os outros senadores vão entrando e saindo, aperto de mão aqui, palmada nas costas acolá. Sentado na mesa do presidente do Senado, papel que assume temporariamente neste dia, Marco Rubio, o senador da Florida que também disputou a nomeação que acabaria por ir para Donald Trump, está atento aos votos, parecendo flutuar acima do caos que enche a sala e que, visto das galerias, mais parece um bailado.

Em discussão está o FISA, um programa federal que permite gravar as comunicações de cidadãos não americanos no estrangeiro sem mandato judicial. Durante mais de uma hora uns senadores defenderam o seu prolongamento e outros a sua revisão. Mais de duas horas após o início da sessão e depois de cada lado fazer lóbi junto dos dois senadores que faltavam, o libertário Paul continuava ser um dos resistentes na sala. O resultado foram 60 votos a favor e 38 contra o prolongamento da lei.

Antes de debaterem a cibervigilância, a sessão começou com o líder da maioria republicana, Mitch McConnell, a falar do DACA, o programa criado pelo presidente democrata Barack Obama e que garante a mais de 800 mil filhos de imigrantes ilegais que entraram nos EUA quando eram menores o direito de residência e trabalho. De pé diante da secretária, com todas as suas palavras tecladas por uma das funcionárias que se vão revezando de dez em dez minutos, o senador do Kentucky sublinha a necessidade de chegar a um acordo que resolva "o nosso sistema de imigração" e mostra-se certo de que os senadores de ambos os partidos vão "evitar uma crise". A resposta vem do líder da minoria, Chuck Schumer, que sublinha que, se há um impasse, "a culpa é do presidente Trump", lembrando que, dias antes, num encontro com senadores na Casa Branca, este rejeitou a proposta levada e ainda "se referiu aos países africanos e das Caraíbas de forma depreciativa"- palavras que não refletem "a dignidade do seu cargo".

É assim, com opiniões vindas até Washington através dos representantes eleitos pelos 50 estados dos EUA, que se faz a democracia americana no Congresso. A sua casa é o Capitólio, cuja ala norte abriga o Senado, onde cada estado tem dois representantes. Na ala sul, do outro lado da enorme cúpula de ferro, fica a Câmara dos Representantes, onde cada estado tem representação proporcional à população - num total de 435 eleitos.

A imigração é o assunto quente do momento e promete marcar o início do segundo ano de mandato de Trump. Há um ano, o milionário descia a estreita escada, com alcatifa azul e corrimão de metal, que leva do coração do Capitólio até à varanda onde tomaria posse, com a mão sobre a Bíblia. Agora tem até membros do seu partido a criticar as suas palavras duras em relação aos imigrantes e os democratas a ameaçar encerrar o governo (o chamado shutdown) se não houver um acordo no DACA.

Paixão pela imigração no Congresso
A reforma da imigração é um dos assuntos que mais tocam David Valadao. O congressista republicano representa o 21.º distrito da Califórnia e em ano de eleições intercalares este filho de imigrantes portugueses da ilha Terceira, no Açores, admite que os seus eleitores têm várias preocupações, do custo de vida à saúde, da educação à água, mas "a imigração é aquela a que dediquei mais tempo". Sentado no seu gabinete no Longworth House Office Building, um enorme edifício ao lado do Capitólio, Valadao sublinha que o DACA é apenas um aspeto do problema e o que os EUA precisam é de "garantir um sistema de imigração que funciona". Mas se afirma que vai "fazer tudo o que for possível a favor dos imigrantes", não vai ao ponto de admitir que o seu voto leve ao encerramento do governo.

Neto de açorianos é também Jim Costa. O congressista do 16.º distrito da Califórnia tem gabinete no Rayburn, o edifício ao lado e também ele ligado ao Capitólio por uma rede de túneis e até por um minicomboio que ajuda congressistas e senadores a chegar mais rapidamente às suas câmaras quando são chamados a votar. Todos são visitáveis. Mas se for hora de votação, nem pensar em dar uma volta no comboio. "Exclusivo para os representantes!", deixa claro o polícia do Capitólio.

Também Costa acredita que é possível chegar a acordo sobre o DACA "nos próximos dias". Num gabinete onde não faltam fotografias - com um António Guterres então primeiro-ministro e longe de imaginar que havia de chegar a secretário-geral da ONU, com os pais na Casa Branca ou com o presidente Barack Obama -, Costa lembra como na Califórnia as infraestruturas são essenciais. E concorda com Valadao na questão da água, mas tal como o colega republicano admite que a imigração é um assunto que o "apaixona". Convencido de que o muro com o México "é uma fantasia do presidente Trump que ele gosta de manter", admite, no entanto, que "há coisas a melhorar na segurança dos EUA". E se encerrar o governo não lhe agrada, prolongar o financiamento até 16 de fevereiro também não lhe parece uma solução.

Neste momento estima-se haver mais de 11 milhões de imigrantes ilegais nos EUA. São muitos os que procuram o sonho americano (o american dream, que dá o nome aos dreamers, os jovens abrangidos pelo DACA) arriscando por vezes a vida para entrar na América. Um país de imigrantes, que se reflete numa sociedade multicultural e diversa em que os hispânicos - 17,8% dos mais de 325 milhões de americanos - são hoje a maior minoria, à frente dos negros - 13,3% - e dos asiáticos - 5,7%. Isto segundo os dados oficiais do census americano.

Unidos pelas origens portuguesas, talvez isso explique a sintonia entre Valadao, de 40 anos, e Costa, de 65. Em ano de eleições, ambos sabem que a economia é uma questão essencial para os seus eleitores. Em 2016, um dos argumentos que levaram a classe média a votar Trump foi não sentirem o crescimento daquela que é a primeira economia mundial no seu dia-a-dia. Hoje, o desemprego continua a baixar - está nos 4,1% -, a economia cresceu 2,5% em 2017 (neste ano espera-se o mesmo valor) e os empregos continuam a aumentar. Uma realidade que vem de trás mas que permite a Trump ficar com o crédito e tuitar "JOBS! JOBS! JOBS!" Mesmo assim, Valadao sente que no seu distrito "é difícil dizer se as coisas melhoraram. Olhando para os preços, uns estão mais altos, outros mais baixos". E se o republicano admite que "as pessoas têm hoje mais oportunidades", afirma que isso ainda vai melhorar com a reforma dos impostos aprovada no final do ano. "As pessoas vão sentir a diferença ao fim do mês", garante.

Mais difícil foi revogar o Obamacare, a reforma de Obama que veio dar seguro de saúde a mais 20 milhões de americanos. Cavalo de batalha de Trump e dos republicanos, chumbou no Senado, com o voto de um republicano, o senador John McCain. Valadao garante que é "frustrante" não arranjar uma "solução melhor", enquanto Costa afirma que o programa tem agora "mais apoio popular".

Analisar o poder a partir de Georgetown
Pode parecer que a eleição de Trump foi ontem, mas em Washington já só se pensa nas intercalares de novembro - em que todos os 435 congressistas e um terço do Senado vão a votos. Uma oportunidade para os democratas recuperarem o controlo de pelo menos uma das câmaras, ganhando nova força para travar as políticas da Casa Branca.
Professora em Georgetown desde 2005, Lynn Ross trabalhou durante 15 anos no governo federal. Especializada no ramo executivo, a académica explica que o facto de nos últimos meses as coisas não terem mudado assim tanto nos EUA "é a prova de que as instituições americanas funcionam".

A retórica, essa, é que mudou e muito. Sentada no seu gabinete no Old North, por trás do Healy Hall, o edifício principal da universidade que espanta quem passa o portão com a imponência do seu estilo neomedieval, Ross admite que no Congresso muitos ainda estão a aprender a lidar com o novo estilo da presidência - "e acho que estão a ter dificuldades".
Em ano de eleições e com um presidente cuja taxa de aprovação anda nos 37%, Ross acredita que vai acontecer o que acontece tradicionalmente: o partido do presidente vai perder lugares. "No Senado são sobretudo democratas que vão a votos em novembro, portanto é pouco provável que os republicanos percam a maioria", admite. Mas nem na Câmara, onde as contas parecem mais favoráveis aos democratas, a professora se arrisca a apostar na mudança.

E se novembro parece ainda longe, na América mal um presidente é eleito já se está a pensar em quem lhe irá suceder. Por isso as presidenciais de 2020 estão na agenda. E se Trump irá com certeza disputar um segundo mandato, do lado democrata os nomes proliferam sem um candidato óbvio. "Eu acho que se apostarem na ala liberal do partido - Elizabeth Warren ou Bernie Sanders - vão falhar. O que precisamos é de alguém que faça a ponte entre estes polos que se parecem afastar cada vez mais", explica Lynn Ross. Admite que Joe Biden, o vice-presidente de Obama, seria "perfeito", mas a idade - teria 78 anos quando tomasse posse - pode ser um problema. O que a académica gostava mesmo de ver era alguém desafiar Trump do lado republicano. Quanto a uma destituição (o impeachment) do presidente, Ross não acredita que aconteça. Nem lhe parece uma perspetiva agradável, uma vez que deixaria o vice-presidente Mike Pence na presidência - e "a última coisa de que precisamos é de um ideólogo" na Casa Branca.

Na universidade, o último ano trouxe "alguns sustos", sobretudo em relação aos dreamers que ali estudam. Mas num país que tem cinco ou seis universidades no top 10 das melhores do mundo, esta é uma área em que lidera. E a América continua a atrair estudantes. Georgetown tem-nos de 130 países. Ross admite que nos últimos meses temeu que, devido à má imagem de Trump, alguns fossem procurar outros países. E confessa que gosta de ouvir quando lhe dizem que, sejam as universidades, Hollywood (mesmo com as alegações de assédio sexual) ou os gigantes tecnológicos como a Google, o Facebook ou a Microsoft, "a América é grande independentemente de quem está na Casa Branca".

A fazer lóbi pelo ambiente

Quem teve de se adaptar a esta nova dinâmica foi David Beaudreau. Fundador da DCLRS, uma empresa de lóbi bipartidária que atua em áreas como a energia, o ambiente e a agricultura, o democrata - trabalhou na campanha de Obama em 2012- sabe que para servir bem os clientes tem de construir uma relação de confiança com o congressista ou o senador do seu estado. E admite que nos últimos meses "muitos republicanos têm medo de se comprometer e que o presidente os desminta". Com Trump a retirar os EUA do acordo de Paris sobre o Clima, Beaudreau está convencido de que nos próximos anos "vai haver muito mais apoios para as indústrias do petróleo e do gás", lembrando que já autorizaram a exploração petrolífera em zonas protegidas do Alasca. Natural da Pensilvânia, o lobista sabe como a promessa de Trump de reabrir as minas de carvão pesou para ele ganhar aquele estado em 2016. E admite que as energias alternativas estão cada vez mais dependentes do investimento privado. Mas mesmo assim "Trump pode tuitar e dizer o que quiser, não me parece que a administração possa deixar de ver as alterações climáticas como um problema".

Se Beaudreau faz lóbi, Trey Johnston não pode fazê-lo. Mas o responsável por dois programas bipartidários na Universidade George Washington, um sobre saúde da comunidade LGBT e outro de apoio aos hispânicos, sabe como é importante ter contactos no Congresso. Sentado num Starbucks da K Street, o antigo bolseiro Fullbright explica que é preciso ter cuidado para não se deixar distrair pela forma como Trump diz as coisas e estar atento às "consequências do que ele faz". Preocupado por a questão de o DACA estar a afetar "o bem-estar emocional" de muitos jovens, garante que muitas vezes o seu papel é alertar para os perigos que estas pessoas correm. "Alguns estudantes querem sair e protestar. Temos de os avisar que podem ser detidos." No caso da comunidade LGBT o programa ajuda sobretudo nos cuidados de saúde.

Johnston ainda se lembra da indignação em julho quando Trump tuitou que ia proibir os transexuais nas Forças Armadas. A decisão está bloqueada pelos tribunais, mas alguns direitos, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, legalizado em 2015 por decisão do Supremo Tribunal, podem ficar em risco se Trump nomear mais juízes (já nomeou Neil Gorsuch) para a mais alta instância judicial do país, cujas decisões moldam a sociedade. Ora os 84 anos de Ruth Bader Ginsburg e os 81 de Anthony Kennedy deixam adivinhar que talvez possa ainda apontar mais dois nomes para um cargo vitalício, fazendo o Supremo pender para o lado conservador.

Uma cidade chamada Pentágono

Vinte e três mil funcionários, mais de cem mil visitantes por ano, uma área de 613 mil metros quadrados, mais de 28 quilómetros de corredores. São números que impressionam. Quase tanto como as fardas cheias de medalhas dos militares que recebem quem entra pela primeira vez no Pentágono. Nesta verdadeira cidade, que acolhe todos os ramos das Forças Armadas americanas, além de ser sede do Departamento de Defesa, respira-se orgulho em servir o país que continua a ser, de longe, a maior potência militar do mundo.

"Quem faz um bom trabalho pode ter a sorte de vir parar aqui ao Pentágono", explica Simone Griffin. Natural do Louisiana, esta afro-americana altíssima - ou não exigisse a Guarda Cerimonial da Marinha americana que os seus membros tenham no mínimo 1,75 metros - entrou há um ano e meio para as Forças Armadas e é com sentido de humor que vai mostrando os cantos à casa que a recebeu em Washington DC.

"Aqui temos médico, dentista, ginásio, lojas", continua a enumerar com um sorriso. Mas a boa disposição dá depressa lugar a um tom sério quando chega ao memorial às vítimas do 11 de Setembro. Foram 184 as pessoas que aqui morreram em 2001, 125 no edifício e 59 que seguiam a bordo do avião desviado pelos terroristas. Os seus nomes estão gravados em pedras negras e Simone explica que o facto de aquela ala estar em obras na altura pode ter evitado mais vítimas. Ora obras foi o que foi preciso fazer depois, mas hoje quem olha para o edifício já nada vê do ponto de impacto.
Começado a construir no condado de Arlington, Virgínia, do outro lado do rio Potomac, precisamente a 11 de setembro de 1941, a entrada dos EUA na II Guerra Mundial após o ataque a Pearl Harbor em dezembro acelerou tudo e o Pentágono ficou pronto em 16 meses. Nos corredores, há hoje imagens dos homens e mulheres que fazem dos EUA a maior potência militar mundial, com um orçamento da Defesa quase três vezes maior do que o da China (611 mil milhões de dólares contra os 215 mil milhões dos chineses).

Da guerra da Coreia ao percurso militar do presidente Dwight Eisenhower passando por modelos de aviões e drones, as paredes do Pentágono contam a história militar da América.
Fascinado, Jeff nem diz nada. O rapaz de 9 anos, óculos de massa escura, sweat azul e calças caqui veio da Florida com os pais. E não quiseram perder o Pentágono. "Queremos que ele perceba o valor dos homens e mulheres que se sacrificam pela América", explica o pai, Jim.

No mundo pelo ex-porta-voz de Hillary

Sentado a uma mesa do Blackfinn, um pub cujo menu propõe tacos de peixe e frango à Buffalo, P.J. Crowley olha para o tablet enquanto tecla no telemóvel. Porta-voz do Departamento de Estado de 2009 a 2011, serviu às ordens de Hillary Clinton. É com a experiência de quem esteve na administração que admite que muito mudou no último ano na política externa americana. Reconhece que o presidente Trump se tem mantido fiel às suas promessas: desde construir o muro a tirar os EUA dos acordos comerciais. Reverteu isso sim - e bem, segundo Crowley - a decisão de Obama de retirar do Afeganistão e vai manter tropas na Síria, onde a luta contra o Estado Islâmico parece muito perto do fim.

Convencido de que um conflito militar com a Coreia do Norte é pouco provável, Crowley confessa contudo que o risco de tal acontecer é hoje mais elevado do que há um ano. O ex-secretário de Estado adjunto para os Assuntos Públicos admite que esta administração enfrenta um desafio diferente - uma Coreia do Norte com verdadeira capacidade nuclear. E dá-lhe crédito por ter voltado a dar atenção a este problema. Mas lamenta que Trump use uma retórica que coloca em risco a segurança e que tenha posto na China o ónus de resolver o problema, dando mais destaque e poder a Pequim. O especialista alerta ainda que sair do acordo sobre o nuclear iraniano pode conduzir Teerão para a mesma via que Pyongyang.

Com a convicção de que os acordos multilaterais são maus para os EUA, Trump não hesitou em retirar da Parceria TransPacífico, do Acordo de Paris, ameaçando sair do acordo com o Irão e renegociando o NAFTA, o acordo de comércio livre com o México e o Canadá. Crowley acredita que a América vai acabar por ficar no NAFTA sob pena de "ser empurrada para um canto". Mas os acordos comerciais não foram a única política de Obama que Trump desfez. Também em relação a Cuba, a aproximação histórica da anterior administração a Havana está em risco.

A mudança mais significativa, garante Crowley, prende-se, no entanto, com a relação com os aliados europeus. "É a pior relação das últimas três décadas", diz o autor do livro Red Line - American Foreign Policy in a Time of Fractured Politics. Sublinhando os problemas da própria Europa - brexit, tensões entre Ocidente e Oriente -, o ex-porta-voz que agora dá aulas na Universidade George Washington dá razão a Trump na insistência em pedir que os europeus gastem mais em defesa. E lembra os ataques do Estado Islâmico em França, na Bélgica, no Reino Unido ou em Espanha. Mas confessa que a atitude do presidente americano "tornou a cooperação mais difícil". Pelo menos entre líderes, mesmo se vê o presidente francês Emmanuel Macron a tentar fazer o papel de "encantador de Trump".

Em termos de relação pessoal, a campanha de 2016 deixava adivinhar uma aproximação ao russo Vladimir Putin, com trocas de elogios. Mas a investigação às alegadas ingerências de Moscovo nas presidenciais americanas, que já levaram ao afastamento de membros da Administração, veio minar essa hipótese. Crowley lembra que os últimos presidentes, de Bush filho a Obama, procuraram aproximar-se de Putin, mas acabaram por ver os esforços frustrados. E recorda que "as áreas de interesse comum estão a diminuir e os interesses divergentes a crescer. E isso vai continuar nesta administração e na próxima, seja ela qual for".

Mas o momento mais marcante da política externa de Trump talvez tenha sido reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Crowley confessa-se "surpreendido" por o presidente continuar a dizer que depois disso um acordo de paz entre israelitas e palestinianos ainda é possível. "Se formos otimistas podemos dizer que o processo de paz está em coma. Se formos pessimistas diremos que está moribundo!", afirma. E a decisão de Trump não ajudou."Se ele tivesse dito que reconhecia Jerusalém Ocidental como capital de Israel e Jerusalém Oriental como a capital de um futuro Estado palestiniano, podia estar a confrontar os dois lados com uma realidade. Mas não foi isso que ele disse", recorda.

A rádio que dá voz à América

Corredores labirínticos, com secretárias divididas por cores - azul, verde, laranja. "Aqui é o serviço do Zimbabwe, ali o da Somália, estes são os persas, ali os franceses", vai explicando Mayra Fernandes. Nascida em Angola, trabalha desde novembro de 2013 na Voz da América (VOA, na sigla em inglês) e confessa que se chegou a perder pela sucessão de salas, estúdios e corredores intermináveis. "Uma vez cheguei atrasada a uma formação. Se fosse em Portugal [onde estudou na Universidade da Beira Baixa e trabalhou no semanário Tal&Qual] diziam para entrar e me sentar. Aqui, mandaram-me sair e voltar na próxima. Nunca mais me atrasei", lembra a rir.

Mayra trabalha no serviço em português da VOA, onde além de produzir notícias gere as ferramentas digitais, como o Facebook e o WhatsApp, de forma a fazer chegar a mensagem às audiências nos países africanos de expressão portuguesa. Chegadas ao fundo da sala, onde se sentam os seis jornalistas do serviço em português, Mayra apresenta a chefe, Ana Guedes. Esta vai logo avisando que em termos de política americana é "muito tendenciosa". Mas depressa explica que na verdade, no seu dia-a-dia de trabalho pouco ou nada mudou no último ano, exceto terem "um presidente difícil" que divide os media entre "a Fox and friends e as fake news".

Com Trump chegou a era da comunicação direta. Via Twitter. "O problema é que tipo de comunicação. Extremamente impulsivo." Em termos de jornalismo, Ana admite que isso tornou mais difícil falar com membros da administração ou do Partido Republicano. Mayra concorda: "Do que não estávamos à espera era de que o presidente definisse de forma tão vincada os meios pelos quais os jornalistas agora obtêm as informações." Perante este cenário, ser a Voz da América para o mundo passa também por mostrar que a América é muito mais do que a política. "Pode ser a música, podem ser histórias interessantes de pessoas que contemos", explica.

E se para os grandes media privados, como The New York Times ou The Washington Post, Trump até tem sido benéfico, aumentando o interesse na cobertura noticiosa da sua administração, Ana Guedes garante que para a VOA não é assim. A emissora americana, financiada por fundo públicos e que emite em mais de 40 línguas, está ameaçada por um novo shutdown. Mayra ainda se lembra de ter tido de esperar para entrar para a VOA até o bloqueio do governo instaurado em 2013 pelos republicanos estar resolvido.

Enviada especial a Washington DC

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