Com a voz morna de Cabo Verde

Celina Pereira nasceu há quase 73 anos na ilha da Boavista, filha de famílias numerosas. Um dos 12 irmãos do pai era o revolucionário Aristides Pereira, que, em 1956, fundou com Amílcar Cabral o PAIGC e que viria a ser o primeiro presidente da república do país, permanecendo no cargo entre 1975 e 1991

Todas as noites tremia e chorava de frio. Celina tinha acabado o liceu em Cabo Verde, na ilha de São Vicente, quando veio para Viseu, para a Escola do Magistério Primário. O corpo estava ainda demasiado habituado ao calor para lidar com as temperaturas outonais do interior do país. Estávamos em 1963. O choque que sentiu ao chegar foi apenas térmico, não cultural. "A língua e a música facilitaram muito a integração", explica Celina Pereira, que ainda não cantava profissionalmente, mas que já não conseguia passar sem a morna na voz.

Em Viseu, nunca se considerou olhada de lado por ser africana. "Talvez por, infelizmente, ter este tom de pele deslavado, nunca senti que fosse preta", sublinha Celina. Em 1965 regressou a Cabo Verde onde deu aulas. Mas, em 1970, voltou a fazer as malas, agora para Lisboa. Conseguiu emprego na TAP como hospedeira de terra e ficaria na companhia aérea portuguesa até se reformar, em 1998. Pelo meio foi fazendo carreira na música e gravando discos, como Estória, Estória... No Arquipélago das Maravilhas, em 1990, ou Harpejos e Gorjeios, em 1998. O primeiro single foi editado em 1979 pela editora do cantor Bana, a Discos Monte Cara. A dedicação à música e à cultura valeu-lhe, em 2003, a medalha de mérito do grau de comendadora, que recebeu das mãos do então Presidente da República Jorge Sampaio.

Celina Pereira nasceu há quase 73 anos na ilha da Boavista, filha de famílias numerosas. Um dos 12 irmãos do pai era o revolucionário Aristides Pereira, que, em 1956, fundou com Amílcar Cabral o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e que viria a ser o primeiro presidente da república do país, permanecendo no cargo entre 1975 e 1991. "Em Portugal, com o 25 de Abril, passei de sobrinha do terrorista a sobrinha do presidente", conta Celina, entre gargalhadas.

Quando tinha 6 anos, deixou a Boavista e mudou-se com a família para São Vicente. Era a única ilha onde havia liceu e os pais queriam que a irmã mais velha continuasse os estudos. Já na época, Celina navegava entre duas línguas. "Com o meu pai era obrigatório falar em português. Com a minha mãe, que era mais liberal, falava-se em crioulo. O português também era uma questão de estatuto. Lembro-me que a minha mãe, quando ia ao mercado e queria ser atendida mais depressa, dirigia-se às mulheres em português", recorda. No liceu sentia-se o regime de Salazar. Era proibido falar crioulo e a geografia que se aprendia era a de Portugal Continental. "Ainda hoje sei de cor a lengalenga do rio Minho, que "nasce nos montes Cantábricos em Espanha, tem a sua foz em Caminha e passa por Melgaço, Monção e Valença." Mas ninguém me ensinou das ribeiras de São Nicolau, de Santo Antão ou de Santiago. Costumo dizer que de mim própria ninguém me ensinou nada", relata Celina.

Foi em casa que começou a descobrir o canto. O pai tinha o rádio sempre ligado na Emissora Nacional e Celina e a mãe iam cantando por cima das canções: Amália, marchas populares, Hermínia Silva, Maria de Fátima Bravo. As mornas não passavam na telefonia, mas também se trauteavam em casa.

Quando veio para Lisboa, em 1970, Celina sentiu o choque cultural que não sentira em Viseu. Na metrópole-capital, que à partida deveria ser mais cosmopolita do que a pequena cidade do interior, sentiu na cor da pele os preconceitos étnicos. "No aeroporto tive várias demonstrações de racismo por parte do público, algumas bastante desagradáveis, com passageiros que não queriam pagar o excesso de bagagem ou a penalidade para a mudança de uma reserva", explica.

O 25 de abril foi, também para ela, uma época de grande libertação: "Era o prenúncio da independência das colónias. Vivi tudo com uma grande euforia e assumi completamente a minha africanidade". A rir e com ajuda de gestos, diz que andava "com um cabelo afro deste tamanho" e que era insultada no cinema pelos espectadores que ficavam sentados atrás de si. "Foi uma fase de assunção da identidade e de gritar bem alto que queríamos funaná, batuque, colá e outras expressões musicais de Cabo Verde que eram proibidas pelo governo colonial", continua Celina.

Apesar dos muitos pontos de contacto entre os dois países, sendo a língua o principal, a cantora sentiu e ainda sente as diferenças entre as pessoas: "Ao chegar a Portugal achei as pessoas muito tristes, vestidas de preto e de olhos postos no chão. Em Cabo Verde as pessoas riem-se alto e tocam-se muito mais".

Apesar dos anos que já leva em Portugal, não tem dúvidas sobre a sua nacionalidade. "Sou cabo-verdiana. Tenho muito Cabo Verde dentro de mim para conseguir sentir-me portuguesa". Gosta da gastronomia de cá e de lá, mas faz uma queixa: "Não gosto que digam que a cachupa é feijoada. Podem ser primas e virem ambas desta coisa da mestiçagem, de estar tudo misturado, mas a cachupa é 90% milho. Os feijões estão lá para enfeitar".

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