Coletes amarelos: "Não somos extremistas, somos trabalhadores, estamos fartos"

É o 18.º fim de semana de manifestações contra o presidente Emmanuel Macron. Há muita polícia, bombeiros, muitas lojas encerradas, com painéis a tapar montras, e restaurantes fechados, constatou a reportagem do DN.

Manifestantes do movimento "coletes amarelos" franceses entraram este sábado em confronto com a polícia de choque junto ao Arco do Triunfo, em Paris, no início do seu 18.º fim de semana de manifestações contra o presidente Emmanuel Macron.

Vieram de toda a França "para mostrar" a sua força e acusam Macron de estar a levar a cabo uma farsa, pedindo a dissolução da Assembleia Nacional, porque dizem que é a única forma do presidente sair. Há muita polícia, bombeiros, muitas lojas encerradas, com painéis a protegerem montras e fachadas, e restaurantes fechados, constatou a reportagem do DN.

Apesar de o número de manifestantes ter diminuído nos últimos fins de semana, os organizadores esperam que os seus mais recentes protestos possam dar nova vida ao movimento que decorre desde há quatro meses contra um presidente visto como favorecedor da classe de elite.

Frank Alain, 51 anos, operário fabril de Gard, a 24 kms de Nimes, no sul de França, veio pela primeira vez manifestar-se em Paris. Ao DN diz que tem 31 anos de descontos e ganha "pouco mais do que o salário mínimo", que Macron subiu para cerca de 1300 euros, em janeiro, depois do início dos protestos.

Este operário, e mais três amigos vieram de carro, para se manifestarem na capital, depois de semanas de protestos na sua cidade, recusa a imagem de extremistas que se tem colado ao movimento. "Viemos porque precisamos de mostrar a nossa força." E acrescenta: "Não somos extremistas, somos trabalhadores, estamos fartos de ser prejudicados e da repressão."

As ações marcam o fim de um debate nacional de dois meses que Macron organizou para responder às preocupações dos manifestantes. Os manifestantes classificam o debate como vazio e consideram-no uma jogada de campanha do presidente a pensar nas eleições para o Parlamento Europeu, em maio.

Para Frank Alain, o debate serviu apenas para Macron "tentar ganhar tempo" e "de certa forma, calá-los". Também Amandine Castt, 37 anos, animadora pedagógica, com um vencimento de 750 euros mensais por um trabalho a meio tempo, e Brigitte Guillet, 59 anos, reformada, alinham pela mesma bitola.

Viajaram de Vendée, em Nantes, a cinco horas de carro. "Os debates foram ridículos, foi uma maneira de nos tentar calar." Na lista de exigências dos "coletes amarelos", Amandine e Brigitte afirmam que querem dissolver a Assembleia Nacional. "Estamos fartas de ser mal pagas."

As gémeas Guerrot, Fufy e Samy, de 57 anos, que vivem em Paris, têm marcado presença aos sábados nos protestos. Samy, deficiente motora, vive com uma pensão de invalidez. Fify é enfermeira de bloco operatório e queixa-se que foi penalizada por ser solteira e não ter filhos e que lhe retiraram "mil euros em taxas", ganhando agora "dois mil euros". "Vivo em Paris e as rendas são caras e a minha não diminuiu quando me tiraram os mil euros", desabafa ao DN. As despesas também aumentaram. "Até aí vivia bem, agora sou pobre", atira.

Manifestantes entraram em confronto com a polícia em Paris

Os manifestantes lançaram bombas de fumo, petardos e outros objetos contra os agentes ao longo da avenida dos Campos Elísios - cenário de repetidos tumultos, que os manifestantes rebatizaram de "avenida dos coletes amarelos" - e começaram a bater nas janelas de uma carrinha da polícia, enquanto outros ergueram barricadas

O dispositivo da polícia de choque recuou, assim como um canhão de água, com os manifestantes a pontapear a lateral do grande camião. Mais tarde, gás lacrimogéneo e o canhão de água foram usados pelas autoridades numa rua lateral para tentar afastar os manifestantes agrupados entre duas lojas. Num bairro próximo, onde um outro grupo de protesto se reuniu, foi visto um veículo em chamas por um jornalista da AP.

A polícia de Paris disse à agência AFP que 31 pessoas foram detidas até às 10.30 locais (9.30 em Lisboa). Preparando-se para um potencial aumento do número de manifestantes e de violência, a capital francesa distribuiu mais polícias do que nos fins de semana anteriores. A polícia fechou várias ruas, impediu o acesso à praça da Étoile, onde está o Arco do Triunfo, e espalhou-se pela margem direita do rio Sena.

Grupos de "coletes amarelos" representando professores, desempregados e sindicatos estavam entre os que organizaram dezenas de manifestações e marchas na capital e por toda a França. Ao DN, os manifestantes ouvidos notaram que contam ficar por ali mais tempo do que o habitual. Por norma, as manifestações têm dispersado pelas 17.00 (mais uma hora do que em Lisboa).

Os "coletes amarelos" protestam contra os altos impostos e contra as políticas de Macron, que consideram estar a proteger as grandes empresas. No seu apelo online para os protestos deste sábado, os organizadores afirmam pretender que o dia sirva como um "ultimato" ao "Governo e aos poderosos".

Cerca de 5 000 homens e seis veículos blindados das autoridades policiais estão mobilizados para a capital, onde também estão previstas várias outras manifestações, em particular uma "Marcha do Século" para o clima.

Protestos de "coletes amarelos" também estavam agendados para a província de Bordeaux (sudoeste), para Lyon (centro-leste) e Montpellier (sul).

* - em Paris

[notícia atualizada às 13,00 com reportagem do DN nas ruas de Paris]

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