Chipre recusa facilitar adesão turca por causa da crise migratória

Nicósia argumenta com presença militar da Turquia no Norte da ilha cipriota para não desbloquear veto.

Chipre não vai retirar o veto a alguns dos capítulos das negociações de adesão da Turquia à União Europeia (UE), comprometendo assim planos de alguns dirigentes europeus e, em particular da chanceler alemã Angela Merkel, que sugeriram a aceleração dessas negociações em troca de maior envolvimento do governo de Ancara na solução da atual crise migratória.

Na origem da atitude do governo cipriota está o conflito que levou, em 1974, à divisão da ilha em duas partes: uma, sob administração de Nicósia, a República de Chipre, outra, a República Turca do Norte de Chipre, apenas reconhecida por Ancara, que aqui mantém forte presença militar.

O ministro dos Negócios Estrangeiros cipriota, Ioannis Kasoulides explicou a posição do seu governo: "As razões [que determinaram o bloqueio das negociações] continuam a existir; por isso, não é possível darmos o nosso consentimento" à sugestão de que, por um lado, a Turquia teria acesso a um importante apoio financeiro da UE - três mil milhões de euros. E, por outro, receberia garantias da simplificação ou do fim dos vistos para o espaço europeu a partir de julho de 2016.

A Turquia formalizou o pedido de adesão em 1987, iniciando negociações formais em 2005. Até hoje, dos 35 capítulos do processo foram abertos 14 e apenas um foi fechado. Seis, relacionados com livre circulação, direito, liberdades e garantias assim como defesa e segurança, política externa e questões culturais, estão bloqueados pelo veto cipriota. Nicósia bloqueia também o relativo às a questões energéticas em retaliação pelas tentativas turcas de bloquear a exploração cipriota de um vasto campo de gás natural na região, recordava ontem a Reuters.

Do lado da UE, diferentes relatórios, a começar pelos de acompanhamento da Comissão Europeia, notavam deficiências relevantes em matérias de direitos humanos e um excesso de "supervisão do Estado" na área dos direitos, liberdades e garantias.

A proposta da UE surgiu num momento em que a Alemanha está a enfrentar sérias dificuldades para alojar em condições mais de um milhão de refugiados que se espera que este ano entrem no país (ver texto pág. ao lado). Ao mesmo tempo, mais de 500 mil migrantes ilegais passaram as fronteiras externas da UE, com a esmagadora maioria a entrar por Itália e Grécia. Terminando as suas viagens, não poucas vezes, em trágicas perdas de vidas humanas, com as embarcações em que viajam a afundarem-se ao largo do Mar Mediterrâneo e das águas junto às costas gregas e turcas.

Além de sérios problemas nas condições de acolhimento dos refugiados, após um momento de adesão inicial da generalidade da população que se refletiu nas sondagens, estas têm vindo a mostrar nas últimas semanas um contínuo desgaste da chanceler Merkel, com a queda dos índices de aprovação. Em paralelo, os aliados bávaros da CDU de Merkel, a CSU, têm aumentado o tom das críticas à política de acolhimento seguida pelo governo de Berlim. O líder da CSU e do governo regional da Baviera, Horst Seehofer, classificou-a recentemente como "um erro". E duas importantes figuras da CSU, Gerda Hasselfeldt e Stephan Mayer, tornaram claro ao Die Welt que, para este partido, a adesão turca à UE "não está na agenda". E no partido de Merkel há quem, como o deputada Christian von Stetten, advogue, em contraponto à livre entrada de refugiados, o "reforço das fronteiras", segundo declarações ao mesmo diário alemão citadas pela Reuters.

A popularidade de Merkel, ainda que acima dos 50%, está no nível mais baixo desde 2001, isto é, pouco depois de assumir a liderança da CDU. Merkel tornou-se a primeira mulher a dirigir o governo federal em novembro de 2005.

Se as condições da UE parecem excessivas para Chipre, Ancara considera-as insuficientes. Com legislativas antecipadas a 1 de novembro e em risco de não recuperar a maioria absoluta perdida em junho, o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, do AKP (no poder), exigiu ontem mais do que as propostas da UE. Para Davutoglu, as verbas a disponibilizar por Bruxelas terão de ir muito além dos três mil milhões de euros, pois este montante estava já destinado à Turquia enquanto país candidato à adesão. "Estamos a falar de novos recursos", que Davutoglu defendeu serem fixados "numa base anual", pois as "exigências podem aumentar". E de qualquer forma, o líder turco recusa a ideia de uma "readmissão automática" no país de todos os que não forem considerados candidatos ao estatuto de refugiado no espaço da UE. "Que ninguém espere que a Turquia se vá transformar no país que alberga todos os migrantes, como se fosse num campo de concentração".

Num desenvolvimento ligado ao atentado de Ancara que causou 102 mortos no dia 10 durante uma manifestação da comunidade curda, as autoridades turcas revelaram o nome de um dos suicidas, Yunus Emre Alagoz. O seu irmão foi o responsável por um outro ataque, também contra a comunidade curda, em julho na cidade de Suruc, junto à fronteira com a Síria.

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