"Coronavírus ajudou Netanyahu a criar governo de aliança"

Entrevista a Giulia Daniele, investigadora do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, oradora esta quinta-feira às 18.00 no webinar Médio Oriente em Tempo de Covid-19. Participam também Nuno Lemos Pires (CEI-ISCTE/Academia Militar) e Daniel Pinéu (AUC). A moderação é de Francisca Saraiva (IDN). O evento faz parte de um ciclo organizado pelo ISCTE e o IDN e apoiado pelo DN. Aberto ao público (inscreva-se aqui).

Israelitas e palestinianos estiveram juntos na resposta à Covid?

A pandemia não transformou as relações entre israelitas e palestinianos, de facto a situação tornou-se ainda pior. A ocupação militar israelita dos territórios palestinianos continuou e continua a gerar assimetrias entre os ocupantes - os israelitas - e os ocupados - os palestinianos.

A propagação do surto em Israel, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza foi muito diferente, dependendo das várias situações políticas, económicas, sociais e culturais. Obviamente havia um interesse comum, isso foi a contenção do surto, mas não houve nenhuma política comum nem acordos para enfrentar a crise numa maneira conjunta. Se, por um lado, é verdade que tanto os governantes palestinianos (na Cisjordânia e na Faixa de Gaza) quanto os governantes israelitas decidiram impor o confinamento, do outro lado os contextos têm sido muito diferentes.

Na Faixa de Gaza, esta situação fortaleceu ainda mais o status quo, desde que normalmente ninguém pode entrar nem sair da Faixa após do bloqueio que começou no junho de 2007, e onde há uma falta crónica de medicamentos essenciais, de energia e de água.

Em Israel, o coronavirus ajudou Benjamin Netanyahu a criar um governo de aliança com o seu principal desafiante, Benny Gantz, para o interesse nacional e a luta contra a expansão do surto. Mas, na verdade, mais do que um governo de emergência nacional, o novo governo Netanyahu-Gantz parece o governo "da anexação" desde que o primeiro ponto na agenda será a anexação de uma parte consistente da Cisjordânia e do Vale do Jordão.

Nas comunidades judias ultraortodoxas chegaram a dar-se surtos tidos como evitáveis. O comportamento à margem desses grupos, nesta como noutras situações, ameaça a coesão da sociedade israelita?

Em geral, a sociedade israelita é muito heterogénea. Há uma forte e grande primeira divisão em termos políticos, económicos, sociais e culturais entre os judeus askenazis (originários da Europa Central e de Leste) e os judeus mizrahim (originários dos países árabes e islâmicos), seguida por outras divisões entre comunidades de judeus, como por exemplo os judeus etíopes e os judeus ultraortodoxos. Não é possível falar duma sociedade, dum povo israelita homogéneo desde que existem todas essas fragmentações e as tensões internas são muito comuns.

Em particular, no contexto de covid-19, as comunidades judias ultraortodoxas tomaram muitas poucas medidas impostas pelo governo de Telavive. Nos bairros ultraortodoxos mais densamente povoados, como em Jerusalém, a vida continuou de maneira normal, continuaram as celebrações religiosas onde agrupamentos de numerosas pessoas não levaram em conta o confinamento nem o distanciamento social. Isso causou um grande número de casos positivos e de mortes dentro dessas comunidades. Nesses meses acontecerem também confrontos muito violentos entre eles e a polícia, imagens que lembram outros eventos semelhantes, como per exemplo a retirada unilateral dos colonos ultraortodoxos da Faixa de Gaza em 2005.

Houve notícias de envolvimento da Mossad na procura de material médico. Um sinal de que em termos de segurança nacional, até por motivos sanitários, Israel defende-se com todas as armas ao seu dispor?

Não é uma novidade o uso dos serviços secretos israelitas em diferentes crises e situações de emergência. E assim parece que aconteceu dessa vez também. O chefe da Mossad, Yossi Cohen, acabou de tornar-se um herói nacional, uma figura central na luta contra a pandemia. Não apenas médicos e enfermeiros mas muitos outros atores como empreiteiros de defesa, engenheiros, cientistas foram usados pelo governo israelita numa luta para a defesa nacional. Uma das principais consequências foi tornar esta crise, e em particular a resposta política a esta crise, em termos de guerra, e, ainda mais, de securitização como lente de análise das políticas usadas contra a propagação do surto. Tudo isso tem repercussões nas dinâmicas políticas e socio-económicas internas em Israel, e em primeiro lugar pode ser discriminatório contra as minorias, começando com os palestinianos cidadãos de Israel que representam o 20% da população do estado judeu. Já considerados cidadãos de segunda classe, nos últimos meses foram depreciados por serem principais transmissores do surto, e portanto marcados como ameaça à saúde e à vida dos judeus israelitas.

Em algum momento a incerteza política em Israel afetou a capacidade de resposta do Estado à pandemia?

A luta contra o coronavirus representou a razão oficial da criação da aliança entre Benjamin Netanyahu e Benny Gantz, mas na verdade desde o início este objetivo foi sempre mais importante para Gantz do que para Netanyahu. Ao contrário, a atenção do Netanyahu voltou-se para os seus problemas judicias e, no específico, para evitar o processo que foi adiado por anos. Com as novas preocupações relacionadas à covid-19, os problemas com a justiça do Netanyahu entraram em segundo plano e permitiram mudar o foco do discurso público e dos media. Ainda mais que isso, neste momento o que é mais importante para o novo governo é uma "oportunidade histórica" (como a definiu o próprio Netanyahu) para completar a anexação de uma significativa parte da Cisjordânia - através a construção de mais 7000 novos colonatos na área entre Belém e Hebron, no sul da Cisjordânia, com a seguinte expulsão dos habitantes e a impossibilidade de continuidade territorial para os palestinianos. Como já estabelecido no chamado "plano do século" pelo presidente norte-americano Donald Trump, o objetivo israelita seria expandir-se nos territórios palestinianos a fim de controlar mais de 60% da Cisjordânia e deixar à autoridade nacional palestiniana apenas o 40% do território, através um programa de anexação unilateral já a partir do 1 de julho deste ano.

Economia dinâmica mas muito dependente das relações com o mundo extra-Médio Oriente, como vai Israel recuperar da atual situação?

Benjamin Netanyahu sabe muito bem que a economia deverá voltar a andar, a partir duma situação já bastante difícil e instável. De facto, a economia israelita tem muitas falhas, e em primeiro lugar, o que mais deve preocupar é a fraqueza do sistema welfare, e das grandes assimetrias que existem tanto entre as classes sociais quanto entre as diferentes grupos étnicos e comunidades. Sinais muito preocupantes, por exemplo, são a falta de investimentos no sistema sanitário público e a percentagem do desemprego que está a aumentar mês após mês. A pandemia tornou esta realidade ainda pior. Os dois atores mais afetados serão, como já em outras crises do passado, as comunidades mais marginalizadas, ou seja os palestinianos cidadãos de Israel e os mizrahim que ocupam as classes sociais mais desfavorecidas da sociedade israelita. A pobreza em Israel, embora seja um tema ainda pouco conhecido no debate público no estrangeiro, será um dos fatores mais críticos em que os próximos governos terão que investir.

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