Cerco saudita ao Qatar ameaça equilíbrios no Golfo

O impasse no conflito abriu uma oportunidade ao aumento da influência do Irão e da Turquia na área

A Arábia Saudita mostra-se decidida a prolongar indefinidamente o boicote, o Qatar resiste ao isolamento e recusa-se a ceder às condições impostas pelos seus vizinhos. O bloqueio imposto há um ano ao Qatar pelos seus vizinhos e parceiros do Golfo ameaça arrastar a região para uma crise sem solução à vista.

A situação arrasta-se desde o início de junho do ano passado quando a Arábia Saudita, seguida pelos Emirados Árabes Unidos, pelo Bahrein e pelo Egito, impôs um bloqueio terrestre, aéreo e marítimo total ao Qatar em punição pelo alegado apoio de Doha ao terrorismo. As fronteiras terrestres e marítimas com o Qatar foram encerradas, as ligações aéreas suspensas, os cidadãos qatari expulsos, os laços diplomáticos com Doha suspensos. Já o escritório do canal televisivo Al-Jazeera em Riade foi encerrado.

A Arábia Saudita aponta o dedo ao acolhimento prestado em Doha a figuras gradas do Hamas e dos Irmãos Muçulmanos, à presença de uma representação dos talibã na cidade e ao alegado apoio do Qatar a outras organizações terroristas.

O Qatar rejeitou repetidamente as acusações considerando-as "infundamentadas" e denunciou a campanha dos seus vizinhos como uma tentativa de violação da soberania qatari e de impor uma custódia sobre o país. Doha reconheceu o apoio a organizações como os Irmãos Muçulmanos e a grupos que combatem o regime de Bashar al-Assad na Síria (que contam também com o auxílio da Arábia Saudita), mas negou as ligações à Al-Qaeda ou ao autoproclamado Estado Islâmico.

A Arábia Saudita aponta o dedo ao acolhimento prestado em Doha a figuras gradas do Hamas e dos Irmãos Muçulmanos

A 22 de junho os quatro países deram dez dias ao Qatar para cumprir uma lista de 13 exigências, reduzidas depois a seis grandes princípios - entre elas encerrar a Al-Jazeera, fechar a base militar turca em Doha e cortar relações com o Irão. O Qatar rejeitou a lista considerando-a "irrealista" e "impraticável".

Os esforços de mediação de Oman e do Koweit, dois países que não aderiram ao boicote, não conseguiram quaisquer resultados. Os próprios apelos dos Estados Unidos a uma rápida solução da crise de nada serviram. O Qatar alberga a maior base militar americana no Médio Oriente, Al-Udeid, e o então secretário de Estado norte-americano Rex Tillerson fez ainda algumas tentativas de mediação. Os observadores sublinharam ao mesmo tempo o facto de o boicote ao Qatar ter sido lançado pouco depois da visita do presidente americano Donald Trump a Riade.

Rivalidades regionais

Os diferendos entre Riade e Doha têm razões fundas. A questão mais espinhosa é a das relações do Qatar com o Irão, o grande rival xiita da Arábia Saudita, com que partilha o maior campo de gás natural do mundo.

A Al-Jazeera é outro ponto de discórdia. Alguns peritos consideram mesmo que, na sequência do abalo provocado pela Primavera Árabe de 2011, regimes como a Arábia Saudita ou dos Emirados viram na cadeia televisiva do Qatar uma ameaça.

Os países do Golfo liderados pela Arábia Saudita notaram ainda o apoio dado por Qatar ao antigo presidente egípcio Mohamed Morsi, ele próprio membro da Irmandade Muçulmana.

Em 2014 a Arábia Saudita e os EAU chegaram a retirar por um breve período os seus embaixadores de Doha num claro aviso ao vizinho "dissidente".

Desafio à posição saudita

Os peritos apontam por outro lado o dedo à condição geopolítica do Qatar, que coloca o pequeno país do Golfo numa situação de elevada dependência, mas que lhe confere ao mesmo tempo alguma margem de manobra. Nesta perspetiva, a Arábia Saudita veria no Qatar um ator global emergente nas áreas da energia, finanças e investimento e um desafio potencial à posição da Arábia Saudita como elemento dominante na área. Alguns analistas tendem assim a ver no bloqueio imposto ao Qatar uma manobra de Riade para punir as "dissidências" de Doha.

Ao cabo de um ano de bloqueio pelos seus vizinhos, a economia do Qatar parece ter resistido sem sobressaltos de maior. O Qatar é o maior exportador mundial de LNG (gás natural liquefeito) e continua a aumentar a produção. A crise não parece ter arrefecido o interesse dos investidores nem afetado o andamento da construção dos estádios para o Mundial de futebol de 2022. No entanto, a situação levou Doha a procurar novas rotas comerciais e apoios adicionais à sua economia. Doha desenvolveu os laços económicos e políticos com Omã e o Koweit e, sobretudo, com potências regionais como o Irão e a Turquia - o que aumentou ainda mais o divórcio com os seus vizinhos.

Ao cabo de um ano de bloqueio pelos seus vizinhos, a economia do Qatar parece ter resistido sem sobressaltos de maior

Os apelos ao diálogo de vários países europeus, da Índia, do Paquistão, da Eritreia ou de Israel, e sobretudo dos Estados Unidos, de pouco têm valido. Mike Pompeo, o sucessor de Tillerson à cabeça da diplomacia norte-americana, repetiu apelos a que se encontrasse uma saída, e no início deste ano Donald Trump chegou a intervir pessoalmente na questão quando se avistou com o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman e o dirigente qatari xeque Tamim bin Hamad al-Thani, mas sem conseguir romper o impasse.

As posições têm-se por isso mantido irredutíveis. O Bahrein defendeu mesmo a suspensão do Qatar do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) e, em abril, correram rumores de que a Arábia Saudita estaria a projetar a construção de um canal ao longo da sua fronteira com o Qatar, que transformaria virtualmente a península qatari numa ilha.

Novos atores

O bloqueio ao Qatar ameaça pôr em causa todo o quadro geopolítico da região. O Conselho de Cooperação do Golfo atravessa uma crise sem precedentes - os analistas falam de um divórcio profundo e de uma verdadeira "guerra fria" entre os países do Golfo. As dúvidas quanto à política dos Estados Unidos, elemento-chave na arquitetura regional, sob a liderança errática de Donald Trump e a aparente indefinição de Washington perante a crise do Qatar, agravam ainda os fatores de incerteza na área.

A sombra do Irão marca presença em toda a crise. O Irão está no terreno na Síria, tem uma posição forte no Líbano, goza de uma importante influência no Iraque e apoia os houthis no conflito do Iémen em que a Arábia Saudita e os EAU estão diretamente empenhados. Tudo isso representa um desafio para Riade, ao mesmo tempo que a pressão dos Estados Unidos e de Israel sobre o Irão aumenta a tensão na área.

Abdullah al-Shayji, professor da Universidade do Koweit, observa que as tensões dentro do CCG estão a agravar os fatores de instabilidade na região oferecendo a países como o Irão, a Turquia e Israel uma ocasião de expandirem a sua influência.

Ancara e Doha concluíram dois acordos que permitem a instalação de tropas turcas no Qatar e que entregam a peritos turcos o treino da gendarmerie do Qatar e o presidente turco Recep Tayyip Erdogan condenou as sanções impostas pelos vizinhos ao Qatar e garantiu que a Turquia "vai continuar a desenvolver os laços" com o país.

O diferendo entre a Arábia Saudita e seus aliados e o Qatar ameaça mesmo assumir expressão militar. Tanto Doha como Riade mostram interesse no sistema de defesa antiaérea russo S-400 - apesar das duas partes cortejarem o crucial apoio americano, e o próprio monarca saudita, Salman bin Abdulaziz al-Saud, terá mesmo ameaçado recorrer à força caso o Qatar adquira o sistema.

Exclusivos

Premium

Liderança

Jill Ader: "As mulheres são mais propensas a minimizarem-se"

Jill Ader é a nova chairwoman da Egon Zehnder, a primeira mulher no cargo e a única numa grande empresa de busca de talentos e recursos. Tem, por isso, um ponto de vista extraordinário sobre o mundo - líderes, negócios, política e mulheres. Esteve em Portugal para um evento da companhia. E mostrou-o.