Censura alemã a filmes norte-americanos contou com apoio de Hollywood

Mais do que documentar o funcionamento dos estúdios na Segunda Guerra Mundial, obra do escritor Ben Urwand examina o poder da ganância.

A palavra colaboração pode ter vários sentidos. Tanto designa, por exemplo, um trabalho conjunto em condições iguais, como a vergonhosa submissão de um país que disfarça a derrota militar propondo-se a colaborar com o vencedor:caso da França de Vichy durante a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945).

A colaboração entre os empresários de Hollywood e o governo nazi entre 1933 e a entrada dos EUA na Segunda Guerra não é mais honrosa do que a de Vichy. Pelo contrário, a julgar pela documentação que o pesquisador Ben Urwand reuniu e interpretou em "O Pacto entre Hollywood e o Nazismo", publicado pela editora Leya [também está à venda em Portugal].

A palavra "colaboração", inscrita no título original ["The Collaboration: Hollywood's Pact With Hitler"], desapareceu na edição brasileira e deu lugar ao eloquente subtítulo "como o cinema americano colaborou com a Alemanha de Hitler".

O que vem no interior do livro não contradiz a afirmação. Apenas esclarece que a censura alemã aos filmes americanos começa alguns anos antes, mais precisamente em 1930, com a reação ao que os alemães viam como conteúdo antialemão de certas produções, como "A Oeste nada de novo" e "Anjos do Inferno". Se até ali o sentimento nacional prevalecia, as milícias nazis já agiam de forma tradicional e ainda atual, promovendo tumultos nos cinemas que exibiam esses filmes.

Com a ascensão do nazismo ao poder, os métodos mudam, mas Hollywood, não. A Alemanha é o país de onde vêm as melhores receitas para seus filmes, tirando os EUA. E, com a notável exceção de Carl Laemmle, dono da Universal, e em parte da Warner, Hollywood inicia um período de estreita colaboração com o novo regime.

Ressalte-se: com raras exceções, os magnatas de Hollywood eram judeus e sabiam perfeitamente que o nazismo tinha os judeus na conta de inimigos do regime (junto com ciganos e, claro, comunistas).

Fred Zinnemann, para não ir longe, deixou a Alemanha assim que os nazis se instalaram no poder. Laemmle não só tirou os seus familiares do país de imediato como financiou a fuga de centenas de judeus para os EUA. É o único gesto de altivez hollywoodiano no meio de um quadro deplorável.

Os nazis, a começar por Hitler, gostavam do cinema americano. Queriam mesmo imitá-lo.

Necessitavam desses filmes para entreter as suas plateias. No entanto, é nesse momento que ganha relevo a figura de Georg Gysling, cônsul alemão em Los Angeles e encarregado de vetar roteiros, atores, personagens e diretores judeus, além de negociar cortes com os produtores e com a própria censura americana.

As tentativas de fazer filmes antinazis foram abortadas, todas, até ao início da guerra. E Urwand nota que, durante esse período, não existe sombra de personagem judeu no cinema americano. Quando Chaplin se dispôs a fazer "O Grande Ditador", relatórios constantes eram enviados ao governo alemão pelo seu cônsul. E mesmo Chaplin pensou em colocar na gaveta a sua demolidora sátira do hitlerismo.

Em 1939, apenas a Warner lançou o seu "Confissões de um Espião Nazi", apesar da oposição de outros estúdios (mas com a aprovação pessoal do presidente Roosevelt - ah, a velha ladainha de que o cinema americano é independente de ação estatal...). Entretanto, Fox, Metro, Paramount continuavam a colaborar com a Alemanha nazi, de onde United, Warner e Universal estavam banidas.

Para não ir longe, quando Lubitsch lançou "Ser ou Não Ser", comédia vigorosamente antinazi, com distribuição da United Artists, enfrentou críticas ferozes nos próprios EUA (outra lenda: a de que estúdios não influenciam a crítica nos EUA). Foi com o tempo que o filme se tornou um clássico.

Voz praticamente isolada neste contexto, o escritor e jornalista Ben Hecht bateu-se como pôde desde 1939 para que fossem divulgadas as atrocidades nazis contra os judeus.

A partir de notícias na imprensa da época, já sabia da morte de 2 milhões de judeus em 1942. O Holocausto em plena marcha continuava a passar em branco para embaixadores (como Joseph Kennedy), para o Departamento de Estado e até para a maior dos grandes estúdios de cinema americanos, como a poderosa MGM de Louis B. Mayer, cujo célebre leão rosnava bem baixo diante das atrocidades hitleristas.

Ben Urwand produziu um livro fartamente documentado não apenas sobre o funcionamento dos estúdios de cinema como, sobretudo, a forma como a ganância afeta o juízo de homens que em outras circunstâncias são considerados notáveis, mas também capazes de se desinteressarem, por dinheiro, da sorte de milhões de seres humanos.

Este texto foi originalmente publicado no jornal Folha de São Paulo a 31 de dezembro de 2019

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