Catalães sem El Gordo e à espera de diálogo entre Puigdemont e Rajoy

O sorteio da lotaria de Natal não é suficiente para desviar as atenções do rescaldo eleitoral. Ex-presidente da Generalitat convida primeiro-ministro espanhol para um encontro em qualquer país europeu, exceto Espanha, e chefe do governo responde que fora da Constituição e da lei não há diálogo possível

O cantar cadenciado das crianças do Colégio de San Ildefonso, no sorteio da lotaria de Natal, escapa do interior do bar Bocatini, junto à Praça da Universidade, em Barcelona, cada vez que se abre a porta. No interior, as atenções dividem-se entre o televisor sintonizado na TVE, à espera para ver para onde vão os 400 mil euros de cada décimo do El Gordo, e os jornais do dia, com a análise dos resultados eleitorais. Vanessa diz que está feliz, não com o sorteio (ainda não lhe calhou nada) mas com o que as urnas ditaram, apesar de confessar que teve momentos de pânico quando viu o Ciudadanos a ganhar força. "No final, os independentistas conseguiram a maioria, e isso não pode ser ignorado", conta, defendendo que o governo espanhol de Mariano Rajoy não pode continuar a evitar o diálogo com Carles Puigdemont.

"O governo de Espanha quer oferecer toda a sua colaboração e vontade de diálogo construtivo, aberto e realista, dentro da lei e da Constituição, ao governo que se construa na Catalunha para resolver os problemas dos catalães", afirmou o primeiro-ministro espanhol numa conferência de imprensa em Madrid. Mas, questionado diretamente sobre o convite de Puigdemont para dialogarem num qualquer país da Europa, exceto Espanha, lembrou que com quem terá de dialogar é com quem ganhou as eleições, que foi Inés Arrimadas. Noutra resposta admitiu que dialogará com quem for eleito presidente da Generalitat, investido dentro da legalidade.

O Ciudadanos foi o mais votado e conseguiu 37 deputados, mas os três partidos independentistas mantiveram a maioria absoluta, conquistando no total 70 deputados, pelo que Arrimadas não será presidente da Generalitat.

"Miiiiil eeeeurooosss", ouve-se Aya repetir na televisão, horas antes de Rajoy falar, prolongando o valor dos prémios mais pequenos da lotaria e cantando-os como se fossem o El Gordo - que sairia mais tarde ao número 71198 e longe da Catalunha. Na pausa do trabalho, Vanessa queixa-se precisamente da falta de diálogo do primeiro-ministro, defendendo que se o governo de Madrid tivesse aceitado falar há muitos anos não teria havido um aumento do independentismo. Queixa-se do dinheiro que a Catalunha dá para o resto de Espanha e dos cortes que isso implica na saúde, área em que trabalha. Apoiante da ERC defende que Puigdemont deve ser presidente.

Num banco no Passeig de Gràcia, onde ainda bate o sol matinal, José lê o El Periódico. Nasceu em Granada e veio com os pais da Andaluzia quando só tinha 8 meses. Hoje, já reformado, queixa-se do mesmo que Vanessa. E lembra que se nos últimos anos tivesse havido abertura para renegociar a relação económica com Espanha, a Catalunha não estaria nesta situação. "Agora que o discurso está tão extremado, é independência ou nada", conta, dizendo que para ele o presidente também deve ser Puigdemont. "Mas se fosse eu, não voltava à Catalunha sem garantias de que não ia para a prisão."

Desde Bruxelas, onde se autoexilou para evitar a justiça espanhola, o ex-presidente da Generalitat e candidato do Junts per Catalunya (JxCAT, 34 deputados) não parece estar a pensar num regresso para breve. Puigdemont propôs a Rajoy um encontro fora de Espanha, onde há um mandado de captura pendente. "Só peço que nos oiça", afirmou, acreditando que não está a pedir nada impossível. "Temos o direito de restituir o que o governo espanhol alterou abruptamente", acrescentou, numa referência à decisão de acionar o artigo 155.º da Constituição e antecipar as eleições. Rajoy disse que o 155.º se aplicou como se devia, reiterando a intenção de o levantar quando houver um governo catalão. E afastou qualquer hipótese de antecipar eleições em Espanha, dado desaire do Partido Popular (três deputados).

A ERC, que nas sondagens surgia como a favorita entre os independentistas mas acabou por ficar atrás do JxCAT com 32 deputados, aposta num governo de concertação que também inclua a Candidatura de Unidade Popular (CUP), que elegeu apenas quatro. Marta Rovira, a número dois do partido de Oriol Junqueras (um dos detidos por organizar o referendo e declarar unilateralmente a independência), diz que "Rajoy tem de negociar com Junqueras e Puigdemont, pondo fim ao 155.º". E que o primeiro-ministro "não pode continuar a esconder-se por detrás dos juízes e procuradores". Bastará a abstenção da CUP para investir um independentista, com o cabeça-de-lista deste partido, Carlos Riera, a dizer que só está disposto a apoiar um presidente se o programa político estiver baseado na construção da República.

Inés Arrimadas, a vencedora das eleições autonómicas, pediu "muita calma" aos catalães, dizendo-se preparada e com força enquanto os independentistas "estão numa posição muito débil", por ter visto reduzido o número de deputados e a percentagem de votos (menos 0,3% em relação a 2015). A candidata do Ciudadanos disse em conferência de imprensa ter "dúvidas" de que seja possível um novo acordo de Puigdemont com a ERC. A campanha do Junts per Catalunya respondeu rapidamente, dizendo que a vitória é dos três partidos independentistas, pelo que "não tenho dúvida de que nos entenderemos".

Estas eleições não serviram para acalmar as preocupações de Maria José. Atrás do balcão de uma tasca no bairro de Eixample, que prefere que não seja identificada, explica que já teve de despedir funcionários por causa da situação económica, temendo que esta se deteriore agora ainda mais com a nova maioria independentista. "A política é um tema complicado", admite, explicando que ali próximo é a sede do Partido Democrata Europeu da Catalunha, de Puigdemont, e que nunca se sabe se o cliente se inclina mais para um lado ou para o outro. "E não quero perder mais."

Galega, mas desde os 6 anos na Catalunha, conta que preferia voltar para casa, farta da situação incómoda que se vive aqui. "Se não és independentista chamam-te fascista", queixa-se. O marido, que se divide entre a cozinha e o serviço na esplanada, vem de fora com novidades da lotaria, cujo sorteio está a ser seguido num dos televisores. Parte do terceiro prémio foi vendido no centro comercial Diagonal Mar, em Barcelona. Cada um dos décimos vale 50 mil euros. Maria José só lamenta não ter uma das cautelas com o 06914 nas mãos.

*Enviada especial a Barcelona

Exclusivos