Caso do porteiro agrava crise entre Bolsonaro e governador do Rio de Janeiro

Presidente da República acusa Wilson Witzel de ser responsável, com intuito político, pela fuga de informação sobre a execução de Marielle Franco. Considerado outrora um ultra-bolsonarista, o governante carioca é pré-candidato assumido ao Planalto em 2022.

Jair Bolsonaro respondeu às suspeitas sobre envolvimento no assassinato de Marielle Franco que o atingiram ao longo de quarta-feira acusando de "fuga de informação" com "interesse político" Wilson Witzel, o governador do Rio de Janeiro. Para o presidente do Brasil, a divulgação do depoimento do porteiro do condomínio que o implicava na execução da vereadora carioca e do motorista Anderson Gomes foi resultado do cálculo eleitoral do seu ex-aliado e agora novo inimigo - ambos estão na corrida, à direita, ao Palácio do Planalto, em 2022.

"No meu entender, é uso político por parte do governador Witzel que agiu, no meu entender, criminosamente. Não só conduzindo para onde queria o inquérito, bem como tendo acesso a um processo que tramitava em segredo de justiça. No meu entender, um ato criminoso do governador do Rio de Janeiro que tem ambições políticas. Mas como não tem competência para aparecer no Brasil, acaba atacando o atual presidente da República", disse Bolsonaro.

Segundo consta das investigações do assassinato de Marielle, o porteiro do condomínio onde Bolsonaro e um dos supostos autores materiais do crime moram, autorizou a entrada no local do outro alegado autor material por ordem do então deputado e hoje presidente da República.

Registos da Câmara dos Deputados provam, entretanto, que nesse dia Bolsonaro estava em Brasília. E as promotoras do ministério público encarregadas do caso, entretanto, disseram que esse depoimento do porteiro é considerado falso, tendo em conta provas periciais. Uma das promotoras, no entanto, é bolsonarista militante, revelou ontem o ​​​​​​site The Intercept Brasil, com fotografias dela com camisas alusivas ao político durante a campanha, o que acrescenta novos contornos ao caso.

"Nos surpreende que a polícia civil e o delegado que está fazendo o inquérito ignorem isso e inventem um depoimento, no meu entender, por ordem e determinação do senhor governador Witzel para tentar prejudicar-me", continuou Bolsonaro.

"Já conversei com o ministro da Justiça [Sergio Moro]. Nós vamos tomar as providências, logicamente passando pela procuradoria-geral da república para que sejam investigadas essas pessoas que fizeram com que em depoimentos constassem afirmações que apenas atrapalhavam o processo e visavam incriminar o atual presidente da República do Brasil".

Witzel respondeu. "Se houve fuga de informação, certamente não foi da minha parte", afirmou. O governador disse que Bolsonaro aparentava estar "descontrolado" e que "num momento em que ele está numa viagem, não está talvez no seu estado normal". O presidente visitava a Arábia Saudita naquele momento.

"Infelizmente eu recebi com muita tristeza essas levianas acusações. Espero que o presidente reflita", acrescentou. Para Witzel, assim como Bolsonaro pediu desculpas ao Supremo Tribunal Federal por causa de um vídeo em que acusava a corte de agir como hiena, deveria pedir "desculpas ao povo do Rio de Janeiro".

No Twitter, o governador, que é juiz de profissão, reforçou: "Jamais vazei qualquer tipo de informação, nem como juiz, nem como governador".

Para alimentar as suas suspeitas, Bolsonaro falou sobre um encontro recente com Witzel. "No dia 9 de outubro, às 21 horas, eu estava no Clube Naval do Rio de Janeiro quando o governador Witzel chegou para mim e disse: o processo está no Supremo", contou. "Que processo? O que eu tenho a ver? E o Witzel disse que o porteiro citou meu nome. Ele sabia do processo que estava em segredo de Justiça", disse.

Witzel não negou ter mantido essa conversa.

O governador foi eleito há um ano de forma surpreendente na senda do bolsonarismo com o discurso "bandido bom é bandido morto" e "a polícia tem de mirar a cabecinha do bandido e fogo". Em agosto, após um sniper abater um sequestrador de autocarro, fez-se filmar a festejar a morte do criminoso como se o seu clube de futebol acabasse de marcar um golo.

Entretanto, faz campanha declarada para o Planalto em 2022. A revista Época divulgou uma imagem que o governador do Rio gosta de partilhar com os amigos nos grupos de Whatsapp de que faz parte: trata-se de uma montagem do próprio com a faixa presidencial ao peito. Witzel é tão veemente na sua intenção que despertou irritação no ex-aliado Flávio Bolsonaro, filho do presidente. O senador suspeito de corrupção retirou o apoio do seu partido, o PSL, ao governador, militante do também ultra-conservador PSC.

Bolsonaro, por seu lado, depois de se ter afirmado disposto a cumprir apenas um mandato, dá, desde maio, pistas de que pretende se recandidatar. "Se tiver uma boa reforma política eu posso até jogar fora a possibilidade de reeleição; agora, se não tiver uma boa reforma política e se o povo quiser, estamos aí para continuar mais quatro anos", disse o presidente da República durante o evento evangélico Marcha por Jesus, enquanto imitava disparar uma metralhadora com as mãos.

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