Carmena e Colau: um ano depois muita mudança e algumas falhas

Falta de experiência é a maior crítica à juíza que assumiu a Câmara de Madrid. Já a antiga ativista que preside a Câmara de Barcelona tornou-se a referência da esquerda catalã.

O ano de 2015 trouxe grandes mudanças políticas em Espanha nomeadamente nas principais cidades. E ninguém melhor do que Manuela Carmena em Madrid e Ada Colau em Barcelona para representar a chamada nova política. Amanhã faz um ano que chegaram à presidência da Câmara das duas principais cidade espanholas, onde enfrentaram grandes desafios.

Foi sem ter ganho as eleições que a juíza Manuela Carmena se converteu em alcaldesa de Madrid e pôs fim a mais de duas décadas de monopólio do Partido Popular na capital. Já Ada Colau, com um conhecido passado como ativista, irrompeu no poder barcelonês, tradicionalmente de esquerda. O que aconteceu este ano? Estiveram à altura do cargo? Madrilenos e barceloneses gostam das suas autarcas?

Manuela Carmena

"Gerir Madrid é muito mais complexo do que gerir alguns ministérios, conta com um orçamento muito elevado", lembra Marta Bellver, jornalista de El Mundo que acompanha diariamente a informação política local de Madrid. O lado mais positivo deste primeiro ano foi abalar muitas inércias do PP depois de tantos anos no poder. "A alternância é boa e a equipa de Carmena tratou de marcar a diferença com o executivo anterior." Mas o lado mais negativo "foi a inexperiência da equipa, com muitas pessoas que nunca estiveram na política ou só na oposição e não no governo". Inexperiência que foi evidente "com a polémica da memória histórica".

Manuela Carmena foi a candidata de Ahora Madrid e apresentou-se com um programa eleitoral que ela própria definiu como "um conjunto de sugestões". "Era um programa de difícil aplicação, feito em condições especiais e provavelmente não imaginavam chegar ao poder", sublinha a jornalista de El Mundo. Entre as suas grandes promessas estava a de gerir de forma pública os serviços municipais, na sua grande maioria privatizados. Em setembro, por exemplo, vão constituir uma empresa 100% pública para os serviços funerários. "Mas não conseguiram fazer o mesmo com o serviço do lixo que vai voltar a ser privatizado." Outro caso concreto de promessa incumprida é o Banco Público, "porque era inviável".

A presidente da Câmara de Madrid "não passa despercebida, ou se gosta ou não se gosta dela". Tem defensores mas também muitos detratores. Pouco conhecida pelos madrilenos antes de chegar ao poder local, Carmena tem pela frente novos desafios no que resta de legislatura que estarão influenciados pelos resultados das novas eleições nacionais. Por um lado, ela gostava de ter o apoio do PSOE no governo local, "mas vai estar condicionado ao que aconteça a 26 de junho". E por outro, deve enfrentar agora uma auditoria à dívida de Madrid "e sem dúvida que vai trazer problemas".

Entre as vitórias da equipa de Manuela Carmena está a redução da dívida da capital, em 15,4%, baixando até os 4767 milhões de euros. A autarquia está a mediar nos casos de despejos através de um escritório de intermediação de empréstimos que está a ser menos eficaz do que esperado. Conta com um agressivo plano para reduzir a contaminação do ar e as medidas urgentes para melhorar a limpeza na cidade estão a dar resultados. Em menos de um ano reduziu a despesa da equipa do governo local em 30 por cento.

Ada Colau

"Ada Colau é hoje a referência da esquerda catalã, está a consolidar-se como líder regional", começa por sublinhar Álex Gubern, delegado do jornal ABC em Barcelona. No primeiro ano à frente da Câmara de Barcelona, Colau "jogou muito bem à política de gestos", acrescenta, "e agora deve provar que tem um projeto para a cidade, é o seu grande desafio". A antiga ativista optou por algumas medidas polémicas, como travar as licenças para novos hotéis em Barcelona. "Deixaram de entrar investimentos de milhões de euros mas é certo que os cidadãos exigiam medidas para moderar um turismo descontrolado", explica Gubern. O tema da segurança pública também criou mal-estar pela existência de anteriores abusos policiais. A intenção de Colau era acabar com a unidade antidistúrbios mas optou por mudar-lhe o nome. E tem sido muito permissiva com os vendedores ambulantes.

Barcelona, "uma cidade tradicionalmente de esquerda", está a presenciar a consolidação de Colau "ante o desabamento do partido socialista catalão". A presidente da Câmara Municipal está a criar muitas expectativas mas vai precisar de muito diálogo para levar avante algumas das suas ideias, como unir as linhas de elétrico pela Avenida Diagonal. Por vezes, apresentou as propostas como certas sem ter dialogado o suficiente com os seus parceiros, necessários para poder aprovar qualquer medida.

"A sorte de Ada Colau é que à sua esquerda está a CUP, com uma política muito mais radical. Por isso ela sempre parece muito mais moderada do que realmente é", esclarece o jornalista na sua análise política. "Em alguns temas, como o nacionalismo, é muito ambivalente, tal como o Podemos. Defende o direito a decidir, que hoje em dia é a ideia que junta mais pessoas."

E um ano depois de começar a sua gestão, as sondagens dizem que o partido de Colau, Barcelona en Comú, voltaria a ganhar as eleições se fossem hoje.

Madrid

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG