Cameron demite-se. Boris põe água na fervura. É possível repetir o referendo?

Nem o atual primeiro-ministro nem o seu possível sucessor têm pressa em ativar artigo 50.º do Tratado de Lisboa para sair da UE

#WhatHaveWeDone (mas o que é que nós fomos fazer) era ontem uma das hashtags mais populares na rede social Twitter. E a avaliar pelos acontecimentos e declarações dos vários políticos britânicos, tanto vencedores como vencidos, parece que não são os internautas que publicaram esta hashtag os únicos a ter dúvidas.

David Cameron anunciou logo pela manhã que se demite de primeiro-ministro e que será o seu sucessor, em outubro, a acionar o artigo 50.º do Tratado de Lisboa, que prevê a saída de um Estado membro da União Europeia. O líder conservador, que foi o ideólogo do referendo mas defendeu a permanência dos britânicos na União Europeia após negociar um acordo a 28, não quer esse papel para si.

"O Reino Unido votou a favor da saída da União Europeia e a sua vontade deve ser respeitada", declarou Cameron em frente ao n.º 10 de Downing Street, residência oficial do primeiro-ministro britânico, na cidade de Londres. A seu lado, a mulher Samantha Cameron. Esforçando-se por conter a emoção, o atual chefe do governo sublinhou: "Sempre acreditei que é preciso enfrentar as decisões e não fugir delas. Continuo a acreditar que o Reino Unido estaria mais seguro, mais forte e próspero dentro da UE, mas os britânicos decidiram seguir por outro caminho e precisamos de um novo primeiro-ministro. Deve ser ele a decidir sobre quando acionar o artigo 50.º e começar o processo formal de saída da UE."

David Cameron, reeleito em maio de 2015 com maioria absoluta para os conservadores, continuará no poder até à conferência do partido, que irá escolher um novo nome para o cargo de primeiro-ministro. Na quinta-feira à noite ainda circulou nos media britânicos uma carta assinada por vários conservadores, entre os quais o ex-mayor de Londres Boris Johnson, um dos principais rostos da campanha do brexit, pedindo a Cameron que se mantivesse no poder qualquer que fosse o desfecho da consulta popular. Porém, o apelo caiu em saco roto.

Mas se Cameron ficou mal na fotografia, o líder do Labour, Jeremy Corbyn, muito pouco ativo na campanha pela defesa da permanência na UE, não fica atrás. Acusado de contribuir para a vitória do brexit, Corbyn foi ameaçado com uma moção de censura por deputados do Partido Trabalhista, que se reúnem na segunda-feira para discutir a ideia. Agora que a corrida para a sucessão de Cameron está aberta, o ex-presidente da Câmara de Londres é precisamente o nome mais falado. Eurocético assumido desde os tempos em que, como jornalista, trabalhava em Bruxelas, Boris fez campanha pela saída da UE. Contudo, ontem confrontado com a realidade do resultado do referendo e as pressões dos vários dirigentes europeus a exigir um divórcio rápido, tentou pôr alguma água na fervura. "Não é preciso apressar" a saída do Reino Unido da UE, declarou o ex-mayor de Londres, concordando que não há necessidade de invocar já o artigo 50.º do tratado.

"Não podemos virar as costas à Europa, nós somos parte da Europa [só que] simplesmente não é necessário fazer parte de um sistema federal" que tem a sua sede em Bruxelas, sublinhou Boris Johnson, que saiu de casa escoltado pela polícia e foi apupado por manifestantes. "Foi uma boa ideia no seu tempo, mas já não é necessária para este país", acrescentou ainda sobre o projeto de construção europeu.

"Acho quase impossível que se espere pelo próximo primeiro-ministro para ativar o artigo 50.º. A questão tem de ser resolvida agora. A incerteza é o pior que há nestas situações e quanto mais a incerteza se prolongar mais a City sangra e isso não interessa ao sistema financeiro inglês. A única pessoa a quem isso interessa é a Boris Johnson por razões políticas", disse ontem ao DN Paulo de Almeida Sande, ex-representante do Parlamento Europeu em Portugal e profundo conhecedor das questões europeias.

Mas perante tanta hesitação por parte dos políticos britânicos, há outra questão que se impõe: seria possível repetir o referendo? Uma petição online a pedir uma segunda consulta teve ontem tanta adesão que o site crashou. Quando isso aconteceu já ia nas 114 mil assinaturas, ou seja, mais 14 mil do que as necessárias para que uma petição seja debatida no Parlamento.

Em maio, ao jornal Daily Mirror, o líder do Ukip e um dos maiores entusiastas do brexit, Nigel Farage, tinha dito que se o resultado do referendo fosse 52% para o "ficar" e 48% para o "sair" deveria haver novo referendo. "Um resultado 52-48 seria uma questão inacabada." Na quinta-feira, o resultado foi 52%-48%, mas ao contrário. O que dirá agora Farage?

Com J.F.G

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