Câmara dos Representantes dos EUA reconhece genocídio arménio e irrita Turquia

Voto inédito dos congressistas norte-americanos suscita a cólera da Turquia, que já convocou o embaixador dos Estados Unidos em Ancara para protestar.

A Câmara dos Representantes dos EUA reconheceu formalmente o "genocídio arménio", com um voto simbólico e inédito, que suscitou a cólera da Turquia numa altura em que as relações entre os dois países estão sob forte pressão. Em protesto contra o que dizem ser uma decisão "desprovida de base jurídica ou histórica", as autoridades turcas já convocaram, esta quarta-feira, o embaixador dos Estados Unidos em Ancara.

Em sentido contrário, o primeiro-ministro da Arménia aplaudiu o "voto histórico" da Câmara dos Representantes. "A resolução 296 é um passo corajoso no caminho para a verdade e para a justiça histórica que também oferece conforto a milhões de descendentes dos sobreviventes do genocídio arménio", afirmou Nikol Pashinián, numa mensagem divulgada na rede social Twitter.

Embora não tenha caráter vinculativo, é a primeira vez que esta resolução é aprovada em sessão plenária de uma das câmaras do Congresso dos EUA.

Apelando a que seja assinalado "o genocídio arménio", que sejam rejeitadas as "tentativas (...) de associar o governo norte-americano à negação do genocídio arménio" e a que estes factos sejam ensinados, o texto foi aprovado por uma maioria esmagadora de 405 votos em 435, com uma rara união entre democratas e republicanos, e apenas 11 votos contra.

O genocídio arménio é reconhecido por uma trintena de países e a comunidade dos historiadores. As estimativas apontam para entre 1,2 milhões e 1,5 milhões de arménios mortos durante a I Guerra Mundial pelas tropas do Império Otomano, então aliado da Alemanha e da Áustria-Hungria.

Mas a Turquia tem recusado a utilização do termo "genocídio", evocando massacres recíprocos, em contexto de guerra civil e fomes que teriam feito centenas de milhares de mortos nos dois campos.

"Muito frequentemente, de maneira trágica, a realidade deste crime abominável tem sido negada. Hoje, dizemos claramente, neste hemiciclo, para que fique gravado no mármore dos anais do Congresso: os atos bárbaros cometidos contra o povo arménio constituem genocídio", afirmou a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi.

Estima-se que nos EUA vivam entre 500 mil e 1,5 milhões de pessoas com origens arménias, caso de Kim Kardashian.

A votação foi feita no dia em que a Turquia celebra a sua festa nacional.

Ancara já reagiu. Durante a noite de terça-feira, qualificou o reconhecimento pelos EUA do "genocídio arménio" como um ato "desprovido de sentido", em contexto de política interna e que arrisca prejudicar as relações entre os dois países.

Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros turco refere que "este ato político, desprovido de sentido, tem por únicos destinatários o 'lobby' arménio e os grupos anti-turcos".

O reconhecimento do genocídio arménio aconteceu no mesmo dia que a Câmara dos Representantes aprovou mais sanções contra a Turquia por causa ofensiva dos militares turcos no noroeste da Síria, no início de outubro.

A medida foi aprovada por uma expressiva maioria de 403 votos a favor, incluindo 176 republicanos, e 16 contra, mas ainda terá de passar no Senado.

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