Cada vez mais vozes se juntam para gritar, e cantar, contra o racismo

Às vozes dos manifestantes antirracistas que protestam, nas ruas de inúmeras cidades norte-americanas e de todo o mundo, contra a violência policial que matou George Floyd, a 25 de maio de 2020, pela liberdade e pela igualdade, juntam-se as de cada vez mais músicos, de todas as cores, mas sobretudo negros, dos clássicos às novas gerações, para quem a música é também um manifesto. Pelo direito a respirar.

Encabeçada por Say It Loud - I´m Black and I'm Proud, de James Brown, a playlist do Spotify Black Lives Matter, criada em 2015, na sequência da morte de Sandra Bland numa prisão do Texas, viu aumentar o seu número de subscritores em 1000 por cento, segundo a segundo a revista Billboard.

Depois da morte brutal de George Floyd às mãos da polícia de Minneapolis e das manifestações que nos EUA e no resto do mundo encheram as ruas contra o racismo e em nome do movimento Black Live Matters, a playlist foi atualizada e no dia em que a indústria musical fez silêncio, a 2 de junho, no que ficou conhecido como "Blackout Tuesday", o Spotify destacou-a.

Nesse dia, os utilizadores chegaram aos seis milhões e os seguidores passaram de 40 mil para 450 mil, contando neste momento com mais de 800 mil.

A playlist, que continua a ser atualizada, tem agora 66 músicas, entre criações novas e clássicos, de James Brown a Beyoncé, de Nina Simone a Kendrick Lamar ou Childish Gambino, mas todas elas com o mesmo mote: Black Lives Matter.

Mjeema Pickett, responsável da Spotify pelo R&B and soul e criadora da playlist em 2015, disse à Billboard que foi terapêutico criá-la e como é importante que "as pessoas estejam finalmente a perceber e chegar lá".

Foi preciso um segundo "I can't breathe", repetido por George Floyd à polícia de Minneapolis como tinha sido por Eric Garner à polícia de Staten Island, em Nova Iorque, seis anos antes.

Quantos terão existido que não foram filmados e não chegaram às notícias para comoção de cada vez mais mundo não se sabe.

Mas sabe-se que a frase repetida e o silêncio que se lhe seguiu fez que as vozes se levantassem, em protesto, sob a forma de palavras de ordem ou canções, que também são, à sua maneira, palavras de ordem e formas de luta.

Como as do compositor Leon Bridges e do cantor Terrace Martin, que criaram Sweeter, uma reflexão sobre o racismo e explicaram que esta música não era para os ouvidos, mas para o coração.

Nas redes sociais, Bridges partilhou que a morte de George Floyd foi a gota de água que fez transbordar o copo. "Estava há muito tempo anestesiado, insensível, em relação às questões da brutalidade policial. Foi a primeira vez que chorei um homem que não conhecia. Eu sou George Floyd, os meus irmãos são George Floyd, as minhas irmãs são George Floyd. Não podemos continuar a suportar o silêncio", escreveu.

Kendrick Scott, baterista de jazz nova iorquino, também não ficou em silêncio. Compôs recentemente uma música instrumental em que se misturam o registo das últimas palavras George Floyd e a voz dos manifestantes que gritam o seu nome.

Apesar das dúvidas que a utilização destes elementos lhe suscitaram, o artista quis, de acordo com o jornal belga La Libre, "que os ouvintes tivessem uma reação visceral e sentissem verdadeiramente, em vez de apenas imaginar. Quis usar a minha bateria e a minha voz, o que tenho de melhor, para fazer mudar as coisas".

Todas as revoluções têm uma banda sonora. Há décadas que a da luta contra o racismo está a ser composta. Que todas as vozes e sons se juntem nela.

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