Brexit. "A saída de Theresa May certamente complica as coisas"

O analista político Dominic Walsh, do think thank Open Europe, não tem dúvidas de que as eleições europeias no Reino Unido serão um voto de protesto, mas não crê que ameace o futuro dos principais partidos, apesar da incógnita chamada Brexit.

Como é que os britânicos encaram as eleições europeias? Será uma espécie de referendo entre os campos pró e anti-Brexit?
As eleições europeias no Reino Unido são vistas por muitos como uma espécie de referendo suave - daí a onda de apoio ao Partido do Brexit, por um lado, e a vários partidos anti-Brexit, por outro. Os trabalhistas e os conservadores estão a perder terreno, pois nenhum deles é visto como tendo uma mensagem clara sobre o Brexit. Os partidos a favor da permanência na UE estão a ver as eleições como uma oportunidade para testar as suas mensagens no caso de haver um segundo referendo sobre o Brexit. Por outro lado, outras questões provavelmente têm um papel a desempenhar - por exemplo, os recentes protestos contra as alterações climáticas podem ter ajudado a impulsionar o crescente apoio aos Verdes. Além disso, será provavelmente uma eleição com baixa afluência às urnas. Muitos britânicos não irão votar, ao contrário do referendo de 2016, que teve uma participação muito elevada.

As eleições locais parciais também foram afetadas pela questão do Brexit?
Sim, mas menos do que as eleições europeias. Alguns eleitores tratam as eleições locais como uma oportunidade para assinalar um protesto sobre questões de política nacional, mas muitos outros realmente fazem as suas escolhas com base em quem querem que dirija a autarquia. O chavão que diz que as eleições locais são sobre "contentores do lixo e não sobre o Brexit" soa verdadeiro para muitos. Por exemplo, os liberais-democratas, que são anti-Brexit, conseguiram ganhar lugares em áreas pró-Brexit. Isso não é necessariamente porque os eleitores estão a mudar de opinião sobre o Brexit, mas sim porque os liberais-democratas são muito bons em fazer campanhas sobre questões locais contra as impopulares autarquias conservadoras ou trabalhistas.

Dadas as intenções de voto nos dois principais partidos, até que ponto o Brexit pode afetar a paisagem política britânica?
O declínio no apoio aos dois principais partidos não será necessariamente um elemento permanente da paisagem política - as eleições europeias estão a ser vistas como um voto de protesto. O sistema eleitoral britânico prejudica os pequenos partidos e isso pode significar que os eleitores acabam por regressar aos principais partidos nas eleições gerais. No entanto, é certamente claro que o Brexit é potencialmente uma enorme ameaça eleitoral tanto para os conservadores como para os trabalhistas. Muitos eleitores definem-se cada vez mais através do seu voto no referendo de 2016, em vez de serem de esquerda ou de direita.

Com a saída anunciada de Theresa May da chefia do governo, como espera que se rompa o impasse?
A sua provável saída certamente complica as coisas. Se ela dá a impressão de que vai desistir mesmo que o acordo do Brexit não passe [na Câmara dos Comuns], isso dá aos críticos do partido ainda menos incentivo para votar a favor do acordo. Qualquer futuro líder conservador também estará menos inclinado a fazer qualquer acordo com o Partido Trabalhista. Em última análise, um novo líder não mudará a aritmética parlamentar. Os deputados votaram contra todas as opções concebíveis do Brexit, e contra parar o Brexit. A menos que muitos deles mudem de opinião, a única saída pode ser uma eleição geral. E não há garantia de que quebrará o impasse também.

E Jeremy Corbyn será capaz de ficar à frente do Partido Trabalhista depois de não capitalizar com a crise?
A liderança de Corbyn é muito impopular junto dos seus deputados e do público em geral. No entanto, os militantes trabalhistas de base apoiam-no fortemente e, por agora, a sua posição é segura. Se Corbyn facilitasse o Brexit de alguma forma, isto iria aprofundar as divisões no partido. É possível que muitos dos seus deputados deixassem o partido. O problema é que Corbyn não se comprometeu nem a concluir o Brexit nem a detê-lo. Portanto, alienou quer os eleitores pela saída quer os eleitores pela permanência.

Os liberais-democratas são um epifenómeno ou estão de volta de vez?
As recentes sondagens para as eleições europeias são certamente encorajadoras, com algumas a colocá-los em segundo lugar, à frente tanto dos trabalhistas como dos conservadores. Também se saíram muito bem nas eleições locais, o que os coloca numa posição forte para uma futura eleição nacional. Se puderem tirar partido de tudo isto e se se identificarem como o partido pela permanência na UE, que tentaram e não conseguiram fazer durante três anos, há claramente votos a ganhar, especialmente com a impopularidade dos dois principais partidos. Além disso, se o novo partido ​​​​​​​Change UK se sair tão mal nas eleições europeias como as sondagens sugerem, estará sob pressão significativa para formar uma aliança com os liberais-democratas ou mesmo fundirem-se num único partido. Uma questão importante é a da liderança do partido. Espera-se que Vince Cable se demita após as eleições europeias - será que o seu substituto será capaz de levar o partido a outros níveis?

Dominic Walsh, perito em assuntos como o Brexit, o parlamento e os partidos britânicos, é analista político do Open Europe, think thank que se afirma independente e apartidário, mas que é visto como eurocético. No mais recente relatório sobre as eleições europeias, escrito por Walsh e Zoe Alipranti, conclui que o "projeto europeu está preso às rotinas" devido à "falta de consenso entre os principais líderes dos governos sobres os avanços importantes ou as reformas radicais no processo de integração europeia".

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