Analistas destacam importância das notícias falsas no resultado das eleições

Segunda volta das eleições vai decorrer no domingo.

Analistas brasileiros consideram que as notícias falsas e o uso de plataformas como o Whatsapp para mobilizar grandes grupos de eleitores foram decisivas para o resultado das eleições presidenciais brasileiras de domingo.

O professor da Fundação Getúlio Vargas (PGV) Francisco Fonseca considerou, em declarações à Lusa, que as notícias falsas "tiveram um papel essencial, principalmente no final da primeira volta", que permitiu a passagem de Jair Bolsonaro (Partido Social Liberal, PSL) e Fernando Haddad (Partido dos Trabalhadores, PT).

"O WhatsApp é um universo sem controlo, que está na mão de uma empresa privada" e é "um terreno de ninguém em que Bolsonaro e seus amigos empresários usaram caixa 2 [dinheiro não declarado à Justiça] para cometer crime eleitoral", afirmou, numa referência ao facto de a candidatura do PSL ter pago milhões de dólares para financiar campanhas de notícias falsas e angariação de membros para grupos fechados.

Depois dos Estados Unidos, o Brasil é o novo palco de disseminação em massa de notícias falsas. Bolsonaro, que defendeu na sua campanha temas morais como religião ou sexualidade e a defesa do neoliberalismo, terá sido beneficiado por notícias falsas que acusavam Haddad de incentivar a homossexualidade entre crianças, o desrespeito aos valores cristãos e teorias da conspiração sobre supostos planos para transformar o Brasil numa ditadura comunista.

A favor da candidatura de Haddad circulam notícias falsas sobre supostos planos de Bolsonaro para acabar com o apoio social aos mais pobres, declarações não comprovadas sobre a promoção de cortes no sistema de saúde e o confisco das poupanças bancárias de trabalhadores brasileiros.

"O WhatsApp teve um papel definidor para a formação de opinião da parcela mais pobre da população" e "circulou uma montagem de uma mamadeira no formato do órgão sexual masculino como se o PT fosse distribuir isto para as crianças", afirmou.

Este tipo de "conteúdo falso teve milhares de visualizações criando um temor que não foi barrado pelas instituições [judiciais]. Na minha perceção as eleições brasileiras já foram fraudadas", acrescentou Francisco Fonseca.

O especialista da FGV alertou para denúncias publicadas pelo jornal brasileiro Folha de S. Paulo sobre um suposto esquema de envio de mensagens falsas em massa contra o PT através do WhatsApp que teria sido encomendado por empresários apoiantes de Bolsonaro.

O caso começou a ser investigado pela polícia brasileira e, se a denúncia for comprovada, configura a prática de um crime de abuso do poder económico na eleição, cuja punição pode gerar a desqualificação da candidatura.

Já Edson Nunes da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) entende que as notícias falsas não mudam a convicção dos eleitores.

"Minha hipótese a respeito da notícia falsa é que elas não interpelam a razão do eleitor. Ela interpela fundamentalmente os valores do eleitor de maneira que toda notícia se equivale enquanto narrativa seja ela falsa ou verdadeira", defendeu.

Na sua opinião, "nas redes sociais é mais importante a perceção da criação de laços, a perceção de que o eu não está mais sozinho no mundo, do que o conteúdo de uma informação trocada".

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