Brasil volta a manifestar-se contra Dilma e contra Temer

Com o impeachment da presidente suspensa como pano de fundo, duas centenas de cidades e milhares de cidadãos brasileiros mobilizaram-se ontem nas ruas. Votação no Senado deve ser dia 29, segundo o Supremo Tribunal

Milhares de brasileiros foram ontem às ruas manifestar-se tanto a favor do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), como contra o governo do presidente interino Michel Temer, do Partido do Movimento da Democracia Brasileira (PMDB), em mais de 200 cidades do país e do estrangeiro.

Enquanto nos corredores de Brasília, as cúpulas dos dois grupos medem palmo a palmo as suas forças para o julgamento no Senado de Dilma, marcado para dia 29, ontem foi dia de nas ruas a população ensaiar o confronto político: as palavras de ordem de uns eram "fim da corrupção", "Lula na cadeia" e "tchau querida" e de outros "fora Temer" e "abaixo golpistas". Não faltaram os já habituais pixulekos - bonecos insufláveis a caricaturar os principais protagonistas da vida pública - e elogios a Sérgio Moro, o coordenador da Lava-Jato.

As duas maiores cidades do país registaram atos nos dois sentidos. No Rio de Janeiro, a maioria dos protestos em Copacabana tinha faixas em inglês, uma vez que os holofotes do mundo inteiro se viraram para a cidade por causa dos Jogos Olímpicos. Em São Paulo, os pró-impeachment juntaram-se na Avenida Paulista, com menos adesão que em manifestações anteriores, e os opositores do governo interino no Largo da Batata, a cerca de 30 minutos a pé da concentração rival.

Movimentos que tradicionalmente se organizam desde março de 2015 para protestar contra Dilma, optaram desta vez por não ir para as ruas, pelo menos, de forma organizada. Alegaram membros das chefias do Movimento Brasil Livre e do Nas Ruas que agir durante os Jogos Olímpicos, que começam no final desta semana, e em datas mais próximas do dia da votação da destituição da presidente afastada no Senado será mais mobilizador. Presente, o grupo Vem Para Rua incluiu na sua agenda, o apoio à Lava-Jato, a aprovação de dez medidas anticorrupção solicitadas pelo ministério público, o fim do foro privilegiado para políticos e, claro, o afastamento definitivo de Dilma.

A data do julgamento da presidente afastada, a propósito, será ao que tudo indica o dia 29, devendo prolongar-se até setembro. Foram os próprios presidentes do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, e do Senado, Renan Calheiros, quem, em nota conjunta, avançaram com a data no sábado à noite. Acrescentando, porém, que "são estimativas feitas pelos técnicos" das duas casas "de acordo com a orientação estrita dos dois líderes de cumprir os prazos legais". Embora se realize no Senado e seja votado pelos 81 membros da câmara alta, é a Lewandowski, segundo a Constituição, que caberá presidir ao julgamento.

A estimativa da data indica que, portanto, Michel Temer viajará para a cúpula dos chefes do Estado do G20, no início de Setembro, na China, sem estar ainda formalmente efetivado nas novas funções - ou pode mesmo viajar para Pequim, com Dilma de volta à presidência. O calendário da fase final da votação do impeachment, entretanto, começa já amanhã com a apresentação do parecer do relator do caso, o senador Antonio Anastasia, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), à comissão especial de 21 senadores que o apreciará previamente. No dia seguinte, os membros dessa comissão discutem o relatório e na quinta-feira votam-no. Se aprovado, é lido no plenário Senado na sexta-feira. Dia 9, já sob a presidência de Lewandowski, os 81 senadores analisarão se se justifica o julgamento final. Serão necessários 41 votos de 81 senadores para o processo prosseguir.

À partida, o impeachment de Dilma é inevitável. Ontem, o jornal O Globo escreveu em manchete que até o PT já admite a derrota. Toda a imprensa relatara que os últimos desenvolvimentos da Operação Lava-Jato, nomeadamente a confissão de João Santana, marqueteiro das duas campanhas de Dilma, de que recebeu pagamentos dos seus serviços através de "caixa 2", equivalente a saco azul, afastaram de vez a presidente do partido. Dilma sublinhou que se houve "caixa 2" é assunto do PT e não dela.

No campo de Temer, por outro lado, a discussão é se presidente interino será o nome ideal da sua atual base de apoio - larga coligação entre PMDB, PSDB e partidos do chamado "centrão", ou seja, que trocaram de lado durante o processo de impeachment - em 2018. Temer negou ontem novamente intenção de se candidatar mesmo que o seu governo seja bem sucedido mas Rodrigo Maia, do Democratas, novo presidente da Câmara dos Deputados, considera a candidatura inevitável. "Se o Michel for confirmado presidente e o governo chegar a 50 por cento de "ótimo e bom" nas sondagens ele será o candidato do nosso campo, quer queira, quer não", disse ao jornal O Estado de S. Paulo.

A declaração deve agitar a tal base de apoio porque o PSDB vinculou o seu apoio ao governo Temer sob a condição de o PMDB não apresentar candidato em 2018. Entre os tucanos, o senador Aécio Neves, derrotado por Dilma em 2014, o governador de São Paulo Geraldo Alckmin, derrotado por Lula em 2006, e o ministro dos Negócios Estrangeiros José Serra, derrotado por Lula em 2002 e Dilma em 2010, são pré-candidatos. O ministro das Finanças Henrique Meirelles, do PSD, também é visto como um nome forte da mesma área. Marina Silva, do Rede, e, claro, Lula da Silva, do PT, são apontados também como presidenciáveis.

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