Boris Johnson recusa debate com Jeremy Hunt: "Está a ser um cobarde"

Sky News anuncia que debate entre os dois finalistas na corrida à liderança conservadora foi cancelado. Financiador dos Tories exige explicações de Boris Johnson, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e brexiteer radical que surgiu, até agora, como favorito à sucessão de Theresa May

A Sky News anunciou esta segunda-feira o cancelamento do frente-a-frente entre Boris Johnson e Jeremy Hunt, depois de o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros britânico ter recusado debater com o seu sucessor na pasta. O debate inscrevia-se no âmbito da corrida para a liderança do Partido Conservador e sucessão da primeira-ministra Theresa May.

"A nível dos debates está a ser um cobarde. É uma cobardia não ir a um frente-a-frente. As pessoas precisam saber o que é que vamos fazer e é preciso responder a essas perguntas. Eu prometi a Boris Johnson a batalha da sua vida, é isso que ele vai ter e vai perder", declarou Jeremy Hunt, de 52 anos, citado pela Reuters, depois de saber que o seu rival na corrida pela liderança dos Tories declinou o convite da Sky News para um debate a dois na terça-feira.

Boris Johnson, de 55 anos, está debaixo de fogo depois de o Guardian ter divulgado o conteúdo de uma discussão entre ele e a namorada, Carrie Symonds, no apartamento desta, em Londres. Depois de a polícia ter sido chamada ao apartamento nas primeiras horas da madrugada de sexta-feira, quando os vizinhos se queixaram de gritos e objetos a partir, Boris Johnson recusou comentar o caso. A polícia falou com os ocupantes do apartamento que disseram que estava tudo bem.

Como se isso não fosse suficiente, Boris depara-se agora com revelações sobre as suas eventuais ligações a Steve Bannon. mais uma vez feitas pelo mesmo media. O antigo diretor de campanha e estratega do presidente norte-americano, Donald Trump, terá dado conselhos a Boris Johnson em relação ao discurso que ele fez no Parlamento pouco tempo depois de se ter demitido em julho de 2018 da chefia da diplomacia britânica, em desacordo com a forma como a primeira-ministra, Theresa May, estava a negociar o Brexit. No passado, Boris Johnson negou que isso tenha acontecido.

O jornal britânico The Observer (a edição de domingo do Guardian) revelou um vídeo filmado a 16 de junho de 2018, em Londres, para um documentário sobre Bannon intitulado The Brink. No vídeo este fala dos conselhos que deu a Boris Johnson para o discurso que ele daria naquela tarde. "Tenho estado a falar com ele durante todo fim de semana sobre este discurso", diz Bannon à realizadora Alison Klayman, que lhe pergunta se eles têm falado ao telefone: "Andamos para trás e para a frente através de mensagens, é mais fácil", responde. Nas mãos tem o The Daily Telegraph, o jornal para o qual Boris tinha voltado naquele dia a escrever como colunista após deixar o governo britânico.

A lançar mais uma acha para a fogueira esteve também esta segunda-feira o líder do Partido do Brexit, o brexiteer radical Nigel Farage. "O Steve gosta de ser visto no centro da ação. Ele conhece o Boris, fala com o Boris. Steve fala virtualmente com toda a gente. Conheço o Steve Bannon desde 2012. Não há segredo nisso. O Boris, claro, conheceu Bannon quando era ministro dos Negócios Estrangeiros, numa visita a Washington, na West Wing (Ala Oeste), foi assim que eles se conheceram", declarou Nigel Farage, durante uma conferência de imprensa, citada pelo Guardian.

Esta segunda-feira o Guardian anunciou que John Griffin, o segundo maior financiador dos Tories, exigiu que Boris Johnson se explique. O magnata dos táxis, que doou 4 milhões de libras para os conservadores nos últimos anos, considera que o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros britânico deve esclarecer o que de facto se passou entre ele e a namorada naquele apartamento londrino.

"Merecemos uma explicação acerca dessa discussão e ele deve lidar com isto de forma apropriada. Não pode assumir que vamos continuar a apoiá-lo sem sequer dar nenhuma explicação. É provável que vá ser primeiro-ministro e a maioria dos membros querem apoiá-lo. Mas se uma pessoa não fez nada de errado, deve dizê-lo", declarou Griffin, citado por aquele jornal britânico.

Boris Johnson começou, entretanto, a cair nas sondagens. Um estudo de opinião divulgado neste domingo pelo Mail on Sunday revela o impacto das notícias sobre a chamada da polícia à casa que Boris Johnson partilha com a namorada, Carrie Symonds, em Londres. Na quinta-feira, antes de o Guardian revelar o caso, ele era apontado por 36% dos eleitores como o melhor primeiro-ministro face a 28% do adversário na corrida, Jeremy Hunt. Entre os eleitores conservadores (são os militantes do partido que vão fazer a escolha), Johnson surgia com 55% das intenções de voto face a 28% de Hunt.

Contudo, na sondagem posterior, feita no sábado, entre todos os eleitores, o atual chefe da diplomacia ultrapassa o antecessor: Johnson é considerado o melhor primeiro-ministro por 29% dos inquiridos, com Hunt a chegar aos 32%. Entre os eleitores conservadores, Johnson também dá um tombo, mas continua à frente de Hunt, com 45% face a 34%.

Apesar de este frente-a-frente na Sky News não se realizar, marcado está já, para julho, um outro debate entre Boris Johnson e Jeremy Hunt na ITV News, numa altura em que os boletins de voto já terão sido enviados pelo correio para os militantes do Partido Conservador. Falta ver se a esse o Boris comparece ou não. O sucessor de Theresa May no N.º 10 de Downing Street deverá ser conhecido a 22 de julho e a sucessão acontecer a 23 de julho. À sua espera, o novo chefe do governo britânico terá o explosivo dossiê do Brexit, o qual terá que acontecer até 31 de outubro.

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