Vaiado, Boris Johnson anula conferência de imprensa no Luxemburgo

Primeiro-ministro britânico e presidente da Comissão Europeia reuniram-se no Luxemburgo. A Comissão Europeia diz continuar a aguardar propostas de Boris Johnson. Downing Street reafirma determinação em acabar com o backstop.

Um ser que simboliza a lentidão, o caracol, e outro que nada contra a corrente, o salmão. Foi esta a escolha da ementa para o almoço de trabalho do chefe do governo britânico Boris Johnson com o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, num restaurante no centro da cidade do Luxemburgo. À mesa estiveram também os negociadores do Brexit Michel Barnier (UE) e Stephen Barclay (Reino Unido). No final da refeição, um comunicado da Comissão esclareceu que continua a aguardar pelas propostas do governo britânico.

A reunião tinha como finalidade analisar as conversações em curso e falar sobre as próximas etapas.

"O presidente Juncker recordou que é da responsabilidade do Reino Unido apresentar soluções juridicamente exequíveis que sejam compatíveis com o acordo de retirada. O presidente Juncker sublinhou que a Comissão continua disposta e aberta a examinar se essas propostas cumprem os objetivos do mecanismo de salvaguarda [backstop]. Tais propostas ainda não foram apresentadas", lê-se no comunicado da Comissão, que esclarece ainda que o luxemburguês irá falar sobre o tema na quarta-feira de manhã em Estrasburgo.

Boris Johnson foi recebido com vaias e protestos de cidadãos britânicos que vivem no grão-ducado. O homem que comparou o Reino Unido com o super-herói de BD Hulk e disse que se registavam "grandes progressos" antes da viagem não fez qualquer declaração no final.

Em entrevista que deu que falar ao Mail on Sunday , Johnson comparou o país que governa à personagem Bruce Banner que, enraivecida, se torna num monstro verde. "Quanto mais o Hulk fica enraivecido, mais forte o Hulk se torna, e acaba sempre por escapar, mesmo que pareça bem amarrado, e é esse o caso deste país."

"O primeiro-ministro e o presidente Juncker tiveram uma reunião construtiva durante o almoço. O primeiro-ministro confirmou novamente o seu compromisso com o Acordo de Sexta-Feira Santa/Belfast e a sua determinação em chegar a um acordo com a eliminação do mecanismo de salvaguarda, o que os deputados do Reino Unido poderiam apoiar", disse um porta-voz do governo britânico. Este voltou a dizer que Boris Johnson não vai solicitar uma extensão e que vai retirar o Reino Unido da UE em 31 de Outubro.

"Os líderes concordaram que as discussões precisavam de ser intensificadas e que as reuniões vão passar a realizar-se em breve numa base diária", concluiu.

A primeira reação ao encontro foi do Partido Nacionalista Escocês (SNP). "Após a reunião com Boris Johnson, a UE deixa claro que o ónus de apresentar propostas é do Reino Unido. Johnson não conseguiu propor nada de significativo. É só ilusões", escreveu o líder parlamentar Ian Blackford.

Conferência anulada

Boris Johnson reuniu-se depois com o homólogo luxemburguês, Xavier Bettel. No final, o britânico anulou a sua participação na conferência de imprensa conjunta. Bettel, apontando para o estrado vazio com a bandeira britânica por trás, afirmou: "Agora é com o senhor Johnson. Tem nas mãos o futuro dos cidadãos britânicos e de todos os europeus no Reino Unido nas mãos. É da sua responsabilidade. O seu povo e o nosso povo contam consigo. Mas o tempo está a passar. Use o tempo sabiamente", afirmou, tendo ouvido aplausos dos manifestantes.

Bettel relembrou que o acordo de retirada foi celebrado entre o anterior governo e Bruxelas. "Não façam da UE o mau da fita. Não é da minha responsabilidade. Não ponham a culpa em nós só porque não sabem sair desta situação". afirmou.

A extensão até janeiro de 2020 que os deputados britânicos aprovaram antes de o Parlamento ficar suspenso não é solução por si só, disse ainda o luxemburguês. "Uma extensão só é opção se servir um propósito", pelo que já anunciou que está contra um adiamento do Brexit sem um motivo claro.

Disse ainda rejeitar um acordo que ponha em causa quer o mercado único quer o Acordo de Sexta-feira Santa, e mostrou-se solidário para com o primeiro-ministro irlandês Leo Varadkar. "Não vamos abandonar a Irlanda", declarou.

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