Bispos reforçam posição "contra discriminação e violência sexual"

Documento final do sínodo reforça que jovens devem ser prioridade na Igreja, mulheres mais valorizadas e reconhecidas, e que todos, sem exceção, são amados por Deus. Na homilia na missa que terminou o encontro, o Papa Francisco usou três verbos: escutar, acompanhar e testemunhar.

Foi escrito apenas numa única língua, a italiana, e ainda não há traduções. Mas já se sabe que se trata de um documento de 60 páginas, dividido em três capítulos e com 166 artigos. Um documento que "será um grande desafio para a Igreja e que precisará de ser lido, relido e rezado", disse ao DN o padre Nuno Branco, da Companhia de Jesus, que assistiu em Roma à missa de encerramento do sínodo pelo Papa Francisco neste domingo, na Basílica de São Pedro.

E sem ainda se saber o que constava do documento, debatido, votado e aprovado pelos mais de 140 bispos sinodais, o Papa desvendou algum do seu conteúdo na homilia que fez perante mais de 140 bispos e milhares de jovens de todo o mundo, ao usar três verbos que repetiu insistentemente: escutar, acompanhar e testemunhar. "O Papa, como já vem sendo hábito, fez questão de relembrar que a Igreja tem de escutar a pessoa, a juventude, a realidade e a própria história. Escutar antes de falar. E esta escuta tem de ser empática, em que o outro se sinta de facto ouvido, reconhecido e integrado", explicou o padre Nuno Branco, que liderava um grupo de mais de 20 jovens dos centros universitários jesuítas de Lisboa, Coimbra, Porto e Braga.

O mesmo referiu ainda ao DN que o segundo verbo usado surge da ideia que Francisco tem tentado consolidar na Igreja, "tornar-se próximo, estar presente e atento a quem de nós se aproxima. Só me consigo tornar próximo do outro se escutar e se tiver um olhar purificado do próximo. No fundo, aquilo que o Papa fez foi responder a uma das perguntas das palavras deste dia: que queres que faça por ti? Ou seja, quis fazer perceber que da escuta surge o acompanhamento", continua o jesuíta.

Testemunhar aparece na homilia da manhã como o terceiro verbo. "Quando se é escutado e acompanhado, depois também se dá testemunho. Com isto o Papa quis dizer que os jovens, a juventude que ele diz ser quase profética, deve ser ouvida e acompanhada para dar o seu testemunho, deve ser trazida ao discernimento e às decisões", sublinha Nuno Branco.

Jovens como prioridade

Mas o traço comum da homilia do Papa e das orientações que agora constam no documento deste sínodo é que "os jovens e a juventude devem ser prioridade numa igreja que se quer mais aberta e menos receosa, numa igreja que deve dar voz aos que não a têm, numa igreja que se quer mais personalizada, em que a pessoa, e cada pessoa, é que importa".

De acordo com o que noticia a Rádio Renascença, há dez temas que sobressaem do documento. O primeiro, sobre a sexualidade, reforça a posição de que "Deus ama cada pessoa" e assim deve fazer a Igreja, "renovando o seu compromisso contra qualquer discriminação e violência sexual". A afirmação surge sem, no entanto, os bispos usarem alguma vez a sigla LGBT, mas não deixando dúvidas.

Segue-se o tema do diálogo, e os bispos passam a mensagem de que "não querem iludir os jovens com propostas minimalistas ou sufocá-los com um conjunto de regras que dão do Cristianismo uma imagem redutora e moralista". Ou seja, uma Igreja mais aberta e voltada para a realidade. Outro ponto sensível era o dos abusos sexuais. Neste, os bispos assumem "um sério compromisso" de adotar medidas rigorosas de prevenção, a partir da seleção e formação" dos que têm responsabilidades educativas na Igreja.

De acordo com o que apurou o DN, todos os temas foram debatidos e votados, uns mais do que outros e nem todas as decisões reuniram a unanimidade dos bispos.

O papel das mulheres esteve também em destaque e o documento acaba por sublinhar a vontade de Francisco e dos mais jovens de que as mulheres devem ter "um reconhecimento e valorização maior". Sobre a confiança, o próprio Papa disse hoje na sua homilia que pedia desculpa aos jovens por nem sempre serem ouvidos. As migrações e as perseguições foram outros temas discutidos como sendo uma preocupação para a Igreja. No final, vem a vocação, um termo que é referido mais de cem vezes no documento final dos bispos, refere a RR, e que implica "paixão e tempo".

No final, e como diz o padre jesuíta Nuno Branco, o traço comum de todos os conceitos abordados está no "Deus Misericordioso, aquele que faz que cada um de nós se aproxime da pessoa, que a acolha e a integre". No final, e como no início desta reunião magna, dizia ao DN Tomás Virtuoso, que participou em março na assembleia preparatória de onde saiu o documento que os bispos discutiram, "aquilo que os jovens querem é uma igreja mais personalizada e mais próxima".