Bebianno. O braço-direito de Bolsonaro que o próprio presidente "cortou"

Membro do círculo íntimo do chefe de Estado cai após escândalo de candidaturas fantasma nas últimas eleições e braço-de-ferro com Carlos Bolsonaro. O governo pode ter ganho um poderoso inimigo

Após a facada no abdómen de Jair Bolsonaro em setembro do ano passado, só quatro colaboradores podiam entrar a qualquer hora no quarto do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, onde o então candidato à presidência estava internado. E apenas um não tinha o apelido do paciente: era Gustavo Bebianno, advogado que presidiu ao partido, o PSL, em 2018, e geriu, ao lado de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, o filho do presidente com quem chocou agora, a agenda da campanha vitoriosa.

Na noite de segunda-feira, Bebianno foi oficialmente exonerado do cargo de ministro da secretaria-geral da presidência, uma das funções mais próximas do gabinete do chefe de estado, em nota seca no Diário Oficial e depois de curta comunicação do porta-voz do governo a agradecer os serviços prestados.

Em causa a revelação pelo jornal Folha de S. Paulo de um esquema de candidaturas falsas do PSL nas últimas eleições, com a intenção de desviar verbas públicas.

A candidatura a deputada de Maria de Lourdes Paixão, para cumprir a quota feminina prevista na lei, é emblemático: ela recebeu o equivalente a 100 mil euros de um fundo público eleitoral para nem sequer participar em ações de campanha e obter apenas 274 votos. Outro exemplo é o da candidatura de uma ex-assessora de Bebianno, que alcançou pouco mais de 1000 votos mas recebeu cerca de 60 mil euros em verbas públicas gastos em empresas gráficas de fachada. Expediente semelhante, mas protagonizado pelo ex-presidente distrital de Minas Gerais o PSL e hoje ministro do turismo Marcelo Antônio, já havia sido noticiado. Antônio, porém, continua em funções, o que foi notado pelo próprio Bebianno, com indignação.

A saída de Bebianno do governo apenas 49 dias depois da tomada de posse tornou-se a segunda mais rápida da redemocratização, em 1985, batida só pela de Romero Jucá, ministro do planeamento de Michel Temer, demitido com 12 dias no executivo.

Além de rápida, a maioria dos analistas considera-a perigosa para o governo: espera-se a qualquer momento um contra-ataque do ex-ministro a Carlos Bolsonaro, que o chamou de "mentiroso" ao longo do processo de demissão, com a anuência do próprio presidente.

Pelas redes sociais, Bebianno já publicou uma mensagem endereçada aos ex-aliados - "o desleal, coitado, viverá sempre esperando o mundo desabar na sua cabeça". E, segundo blogue de jornalista da TV Globo, teria acrescentado a amigos pessoais que pediria desculpas ao Brasil "por ter viabilizado a candidatura de Bolsonaro". "Nunca pensei que ele fosse um presidente tão fraco", concluía.

No verão passado - inverno no Brasil - nada faria supor este desfecho. Devoto de Bolsonaro, o então presidente do PSL chegou a dizer que nutria por "um amor heterossexual", em plena convenção do partido, em julho, dois meses antes da facada e três antes da eleição.

Bebianno, a quem durante a campanha eleitoral foi atribuída a presidência do PSL, além do controle da arrecadação e dos gastos, as estratégias jurídicas e os contatos do partido com a imprensa, não se sentia inibido por ser um político amador. "O Titanic foi construído por profissionais, a Arca de Noé por amadores", dizia.

Sócio de um dos principais escritório de advogados do Rio de Janeiro, o cinturão preto de jiu-jitsu aproximou-se de Bolsonaro por pura paixão e comunhão de ideais, oferecendo-se a defendê-lo, pro bono, nos casos que corriam em tribunal contra si, ainda em 2017. Ganharia ascendente sobre o hoje presidente nos meses seguintes, ao ponto de lhe ser atribuída a liderança do PSL e o privilégio de entrar e sair no quarto dele durante o tratamento da facada no abdómen como se de mais um elemento da família se tratasse.

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