Beata Szydlo, a "dama de carvão" que vai liderar o governo polaco

O Partido Direito e Justiça (conservador, católico e eurocético) regressa ao poder pela mão da filha de um mineiro e logo com maioria absoluta. Será uma marioneta de Kaczynski?

"O nome é Szydlo, Beata Szydlo." Foi ao estilo de James Bond que a quase desconhecida deputada polaca se apresentou no congresso do Partido Direito e Justiça, em junho, depois de ter sido escolhida pelo líder partidário, Jaroslaw Kaczynski, para ser candidata a primeira-ministra. Mais tarde disse que se tinha apresentado assim porque queria "conseguir o impossível" como a personagem de Ian Fleming. E conseguiu. Há uma semana derrotou não só a atual primeira-ministra, Ewa Kopacz, como conseguiu uma maioria absoluta inédita desde a queda do regime comunista, em 1989.

A nova primeira-ministra, de 52 anos, nasceu em Osswieecim (mais conhecida pelo nome alemão de Auschwitz, onde ficava o campo de concentração nazi) e cresceu próximo da cidade mineira de Brzeszcze, no Sul da Polónia. "Recordo com carinho o calor da minha casa. Não havia falta de apoio ou disciplina. Os meus pais trabalhavam no duro. O papá era mineiro", escreveu Beata Maria Szydlo na sua página da internet, com alguns a chamarem-lhe "dama de carvão". Em relação à mãe, destaca que foi ela que lhe passou a paixão pelos livros.

No texto biográfico, a nova primeira-ministra revela também que gosta de desporto, tendo jogado andebol quando estudava Etnografia e Filosofia na Universidade Jaguelónica, em Cracóvia. Foi durante os tempos de estudante universitária que conheceu Edward, que atualmente é professor, e com quem se casou em 1987. O casal tem dois filhos, Tymoteusz (que está a terminar o seminário) e Blazej.

A nível profissional, Szydlo começou por trabalhar no departamento de Folclore no Museu de História de Cracóvia e ajudou a criar o centro cultural da cidade de Libiaz, antes de entrar na política. Em 1998, com apenas 35 anos, foi eleita presidente da câmara de Brzeszcze, sendo a mais jovem autarca da província de Malopolska (Pequena Polónia). Ocupou esse cargo até 2005, quando foi eleita deputada.

Apesar de estar há uma década no Parlamento, Szydlo só saltou para a ribalta no início do ano, depois de ter sido a diretora de campanha de Andrzej Duda. O advogado de Cracóvia era eurodeputado quando Jaroslaw Kaczynski o escolheu como candidato do Partido Direito e Justiça à presidência da Polónia. Duda venceu de forma surpreendente o então presidente Bronislaw Komorowski, catapultando Szydlo para a fama. Na noite da vitória, era o nome dela que os apoiantes gritavam.

Marioneta?

O perfil discreto de Szydlo tornou-a a candidata perfeita para o partido conservador, católico e eurocético, que queria afastar-se da imagem polémica do seu líder, Jaroslaw Kaczynski. Este manteve-se na sombra, tendo apenas chamado a atenção na campanha quando acusou os refugiados de trazerem doenças para a Europa. Irmão gémeo do presidente Lech Kaczynski, que morreu num acidente de avião em 2010, Jaroslaw chefiou o governo entre 2006 e 2007.

Com os irmãos no poder, a Polónia adotou uma retórica beligerante para com a União Europeia e com a Alemanha - queriam que Berlim garantisse a Varsóvia mais votos em Bruxelas para compensar o número de polacos mortos durante a II Guerra Mundial pelos nazis. Depois da morte do irmão gémeo no acidente de avião em Smolensk, a Rússia também passou a ser alvo dos ataques de Jaroslaw Kaczynski.

Apesar de o ex-primeiro-ministro ter ficado na sombra na campanha, há quem defenda que Szydlo é uma mera marioneta de Kaczynski, que a qualquer momento poderá obrigá-la a demitir-se para assumir o cargo. Depois da última vitória do Partido Direito e Justiça, em setembro de 2005, Kaczynski abdicou de ser primeiro-ministro porque isso poderia prejudicar as hipóteses de o irmão chegar à presidência nas eleições de outubro desse mesmo ano. O escolhido para assumir o cargo foi Kazimierz Marcinkiewicz, que só durou oito meses no cargo. Demitiu-se depois de surgirem rumores de desentendimento com Kaczyn-ski, que foi nomeado pelo irmão para assumir a chefia do governo. Há quem diga que agora poderá repetir a jogada, já que aos 66 anos vê nesta a última oportunidade para poder regressar ao poder.

"Esta é a primeira vez na história da democracia polaca que um único partido conseguiu uma maioria", congratulou-se o ex-primeiro-ministro na noite da vitória eleitoral. O Direito e Justiça obteve 37,5% dos votos e elegeu 235 em 460 deputados. Kaczynski também recordou o falecido irmão. "Sem ele, não estaríamos aqui. O seu espírito é mais forte do que o seu corpo. Temos de manter viva a sua memória."

Já a vencedora, Beata Szydlo, agradeceu aos eleitores. "Ganhámos porque temos sido consistentes na forma como enfrentamos os desafios e seguimos os passos do falecido presidente. Não teríamos ganho se não fosse o povo polaco, que nos disse o que deseja e precisa e que, no final, votou em nós." Em relação às dúvidas sobre se vai ser ou não uma marioneta do líder partidário, Szydlo já dissera antes: "Não deixo que ninguém me dê ordens e o meu marido sabe-o bem." Mas na noite da vitória, era o nome de Kaczynski que os apoiantes gritavam.

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