Bannon arrendou mosteiro em Itália para sede de extrema direita, governo não quer

Ex-assessor de Trump quer criar uma universidade ligada à extrema-direita num mosteiro medieval que está a poucos quilómetros de Roma. Governo italiano quer revogar contrato com organização católica que detém a concessão, com base em procedimentos ilegais. Tudo mais difícil para o ex-estratega de Trump.

Steve Bannon deixou de ser estratega de Donald Trump, mas não perdeu tempo e veio para a Europa tentar criar um movimento ligado à extrema-direita. Escolheu Itália para sede - arrendou um mosteiro que já pertenceu à Ordem dos Beneditinos, em Collepardo, a poucos quilómetros de Roma - deste seu projeto que se traduz numa espécie de universidade do populismo, mas não está a conseguir.

O governo italiano prepara-se para revogar o contrato de arrendamento que foi feito com o Instituto para a Dignidade Humana, que detém a concessão do edifício, desde 2016, com base em questões processuais ilícitas.

De acordo com o que noticiam vários órgãos de comunicação social, o Ministério da Cultura italiano anunciou sexta-feira, dia 31, que o contrato de arrendamento concedido à entidade que alugou o espaço ao ex-assessor de Trump, seria revogado após denúncias de fraude no processo de licitação.

Na nota emitida, o ministério refere mesmo que o processo de revogação do contrato de arrendamento do mosteiro Certosa di Trisulti ao ultraconservador Instituto para a Dignidade Humana (DHI) foi aberto após a violação de várias obrigações contratuais por parte do inquilino.

Steve Bannon já terá pagado 100 mil euros por ano pelo arrendamento do mosteiro, que data do século XIII. O estado italiano permitiu que a organização católica conservadora Dignitatis Humanae Institute (DHI) utilizasse o edifício para fins de curadoria. Bannon é um dos curadores do instituto e conseguiu arrendar o espaço, situado a duas horas de carro a sudeste de Roma.

O objetivo era torná-lo numa universidade, "numa escola de gladiadores para guerreiros culturais", como chegou a referir, onde os alunos aprenderiam filosofia, teologia, história e economia, ao mesmo tempo que receberiam aulas de política e de estratégia política do próprio assessor de Trump.

Mas há dias o jornal italiano La Repubblica noticiou que "uma carta usada para garantir o arrendamento por licitação ao DHI foi forjada. A carta tinha a assinatura de um funcionário do banco dinamarquês Jyske, mas o banco disse que o funcionário não trabalhava lá há anos e considerou-a fraudulenta."

A revista The Economist divulgou também na semana passada que Benjamin Harnwell, o diretor do instituto, ficou surpreso quando soube desta situação, garantindo que a carta era "totalmente legítima". Bannon politizou o caso, referindo que "tudo isto é poeira lançada pela esquerda".

O DHI vai recorrer da decisão do banco norueguês em tribunal. "O DHI contestará esta manobra ilegítima com todos os recursos à sua disposição, não importa quantos anos leve. E vamos vencer ", disse Harnwell ao jornal digital Quartz, nesta sexta-feira. Harnwell prometeu que a universidade que Bannon quer criar iniciará as suas atividades ainda este ano, "e enquanto isso, teremos a oportunidade de lutar em tribunal".

Segundo os jornais italianos, o instituto terá cometido várias irregularidades na licitação. Uma delas teria tido a ver com o facto de no caderno de encargos ser exigido ao arrendatário que estava a licitar o edifício experiência em conservação de património histórico.

Ao que tudo indica, a organização terá referido ter aberto e administrado um museu monástico, o que se revelou mais tarde ter sido falso. Outros documentos apresentados pelo DHI no processo também poderão ter sido falsificados.

A ala esquerda de Itália tem criticado muito o projeto do ex-assessor de Trump. Denunciaram até que o imóvel seria apenas aproveitado para fins políticos. O líder do partido de esquerda Sinistra, Nicola Fratoianni, já comentou a decisão do Ministério da Cultura considerando que se trata de "uma vitória para a legalidade, bom senso e para a comunidade local".

Segundo o presidente e fundador do DHI, Benjamín Harnwell, que é um ex-assistente do parlamento britânico, a ideia de criar uma universidade para promover cursos de formação de "guerreiros culturais" da extrema-direita partiu de Bannon, um dos principais apoiantes do instituto e atual assessor da frente populista e ultra-direitista na Europa.

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