Banir os muçulmanos: a ideia que pôs (quase) todos contra Trump

Favorito republicano defendeu proposta que comparou à decisão de Roosevelt na II Guerra de enviar pessoas de origem japonesa para campos nos EUA

Os primeiros-ministros britânico e francês, o alto-comissariado da ONU para os Refugiados, a comunidade muçulmana, democratas, alguns republicanos e até a escritora J.K. Rowling. Todos foram unânimes nas críticas à proposta de Donald Trump para banir a entrada de muçulmanos nos EUA. Um discurso de ódio por parte do favorito à nomeação republicana para as presidenciais de 2016 que surge na sequência dos ataques de Paris e de San Bernardino na Califórnia, perpetrados por muçulmanos, e que revela a crescente islamofobia nos EUA.

"O senhor Trump, como outros, atiça o ódio e a confusão: o nosso ÚNICO inimigo é o islão radical", escreveu Manuel Valls no Twitter. Já David Cameron fez saber através da porta-voz que "discorda completamente" das declarações de Trump que disse serem "divisivas e erradas". Tanto o chefe do governo francês como o britânico defenderam que para lutar contra o extremismo islâmico é preciso unir a comunidade.

A retórica incendiária usada pelo milionário republicano deixou a comunidade muçulmana irritada, mas também assustada. Apesar de os Census nos EUA não terem dados sobre religião, os muçulmanos não devem chegar a 1% dos 320 milhões de americanos. Segundo a CNN, 63% destes serão imigrantes.

Depois de um casal de muçulmanos que prestara vassalagem ao grupo jihadista Estado Islâmico ter matado 14 pessoas e ferido 21 outras num tiroteio em San Bernardino, houve relatos de vários ataques contra muçulmanos. Em Nova Iorque, por exemplo, um comerciante muçulmano foi espancado num aparente crime de ódio. "Ele está a dar o direito às pessoas de nos magoarem", afirmou à AFP Ahmed Shedeed, um egípcio que vive nos EUA desde 1980. Diretor do Centro Islâmico de Jersey, Shedeed só deixou um pedido ao candidato republicano: "Pare com estas acusações."

No partido republicano também se ouviram críticas. O presidente da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, garantiu que a proposta de Trump "viola a Constituição". E entre os adversários do magnata na corrida à nomeação do partido, Jeb Bush ou Lindsey Graham condenaram as declarações, enquanto a ala mais à direita manteve o silêncio. Para a Casa Branca, as palavras de Trump "desclassificam-no para ser presidente". Já a favorita democrata, Hillary Clinton, reagiu através da sua secretária pessoal, Huma Abedin. Muçulmana, Abedin escreveu um e-mail aos apoiantes da ex-secretária de Estado a acusar Trump de "querer literalmente inscrever o racismo nos livros de Direito".

Pior que Voldemort

E se dúvidas houvesse de que a indignação causada pelas palavras de Trump é transversal, a escritor britânica J.K. Rowling escreveu no Twitter: "Terrível. Nem Voldemort era tão mau", comparando o republicano ao vilão de Harry Potter.

Diante de uma multidão exultante em Charleston, Carolina do Sul, Trump sublinhou na segunda-feira a necessidade de "banir total e completamente os muçulmanos de entrar nos EUA até os responsáveis do nosso país perceberem o que se passa". Entre gritos de "Trump! Trump!" e "EUA! EUA!", o milionário e estrela de reality shows garantiu: "Não temos outra hipótese!" E admitiu que as suas palavras não eram politicamente corretas, mas "quero lá saber!"

E se alguém pensava que as críticas iriam fazer mudar de ideias o candidato que na campanha já atacou mulheres, imigrantes mexicanos ou deficientes sem nunca perder o primeiro lugar nas sondagens republicanas, desengane-se. Ontem no programa Good Morning America, da ABC, Trump garantiu que o que está a fazer "não é muito diferente do que fez Franklin Roosevelt" na II Guerra Mundial, quando o presidente tomou medidas contra cidadãos de origem japonesa. Depois do ataque japonês a Pearl Harbor, no Havai, em 1941, que ditou a entrada dos EUA na guerra, mais de cem mil pessoas de ascendência japonesa foram deportadas da costa oeste dos EUA e colocadas em campos de detenção no interior do país.

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