Bancadas do Boi, da Bíblia e da Bala com Bolsonaro
Caso seja eleito presidente da República, Jair Bolsonaro já tem do seu lado três das bancadas supra-partidárias mais poderosas do Congresso Nacional para o ajudarem a aprovar projetos-lei e a governar. Além da Bancada da Bala, constituída maioritariamente por deputados militares e polícias, de que o capitão na reserva faz parte por inerência, também a Bancada da Bíblia, ao longo da campanha, e a Bancada do Boi, nas últimas horas, declararam o seu apoio ao candidato de extrema-direita do PSL.
A divulgação do apoio da Bancada do Boi, como é conhecida a Frente Parlamentar Agro-Pecuária, cujos principais pontos da agenda são o combate às entidades que regulam o trabalho escravo e às medidas que criam obstáculos aos desmatamentos, foi um momento traumático da campanha: os representantes parlamentares dos interesses dos grandes latifundiários e criadores de gado decidiram passar para o lado de Bolsonaro sem avisar Geraldo Alckmin, o candidato a quem haviam jurado apoio há cerca de um mês. Tereza Cristina, deputada do DEM, partido que faz parte da coligação em torno de Alckmin, fez-se fotografar ao lado do líder nas sondagens. Alckmin achou "desrespeitosa" a atitude dos ruralistas, cuja bancada, somadas as suas câmaras do Congresso, excede os 260 deputados.
No início da semana, fora a vez de Edir Macedo, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), declarar apoio a Bolsonaro, dando mais um sinal de que a Bancada da Bíblia, como é vulgarmente chamada a Frente Parlamentar Evangélica, independentemente dos partidos dos seus membros, está ao lado do capitão na reserva. Estima-se que perto de 100 deputados e senadores façam parte dessa bancada, cuja principal atividade no Congresso é lutar contra a descriminalização do aborto, a igualdade de género, a eutanásia e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
A Bancada da Bala, por sua vez, tem como cavalo de batalha rediscutir o Estatuto do Desarmamento, lei aprovada após referendo à população pelo governo de Lula da Silva (PT), em 2005, que prevê a proibição de venda de armas. Além de Bolsonaro, hoje o seu integrante mais célebre, estima-se que outros 250 parlamentares fazem parte do grupo.
Os termos "boi, bíblia e bala" foram cunhados pela deputada Érica Kokay, do PT, inicialmente em sentido pejorativo, durante uma sessão parlamentar em que defendia o aliado Jean Wyllys, do PSOL, partido de extrema-esquerda. Wyllys foi acusado por adversários de ser o "deputado BBB", numa alusão ao programa da TV Globo "Big Brother Brasil", em que participou. Kokay disse então que "BBB são as bancadas do boi, da bíblia e da bala", termo que se instituiu, entretanto.
Noutro plano, os mercados também parecem animados com a perspetiva de Bolsonaro chegar ao Palácio do Planalto. Ontem, na sequência das sondagens dos institutos Ibope e Datafolha que deram conta da subida do candidato do PSL nas intenções de voto, o dólar recuou para o valor mais baixo em mês e meio. E a Bolsa de Valores de São Paulo superou os 81,6 mil pontos, o maior valor desde maio.
O entusiasmo dos donos do dinheiro locais não encontra porém eco internacionalmente. A agência de risco Standard & Poor's disse que Bolsonaro representava um risco maior à agenda económica do que Fernando Haddad, candidato do PT que segue em segundo nas sondagens. A opinião junta-se à da revista britânica The Economist para quem um governo liderado pelo deputado e capitão "seria um desastre".