Autor de relatório sobre guerra do Iraque defende "cuidadosa análise" antes de intervenções

Relatório que hoje será publicado contém "críticas" contra pessoas e instituições

John Chilcot, autor do relatório sobre a guerra do Iraque, pediu hoje que futuros conflitos armados ao nível da intervenção de 2003 sejam autorizados unicamente após "cuidadosas análises" e de uma "decisão política".

Numa entrevista transmitida hoje na BBC, Chilcot disse que o relatório que hoje será publicado, elaborado a partir de milhares de documentos e de centenas de entrevistas a militares e políticos britânicos, entre os quais o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, um dos responsáveis pela invasão do Iraque em 2003, em aliança com os Estados Unidos, contém "críticas" contra pessoas e instituições.

A invasão do Iraque contou, em 2003, com o apoio político dos governos de Portugal, liderado por Durão Barroso, e de Espanha, chefiado por José Maria Aznar.

"A principal expetativa que tenho é a de que não será possível no futuro participar numa campanha militar e diplomática com níveis semelhantes e com tal gravidade sem aplicar uma verdadeira e cuidadosa análise, assim como uma avaliação e um julgamento político coletivo", afirmou Chilcot, na entrevista transmitida hoje na BBC.

O antigo funcionário do ministério britânico para o Assuntos da Irlanda do Norte acrescentou que o relatório questiona as decisões que foram tomadas e que levaram o Reino Unido a intervir militarmente no Iraque, o que levou à queda do regime de Sadam Hussein.

Chilcot sublinhou que, ao redigir o documento, teve em conta o sofrimento das famílias dos militares britânicos que perderam a vida e que pretendeu "conhecer toda a verdade" sobre a guerra. "Esperemos que eles sintam, quando virem o relatório, que as perguntas que tinham na cabeça (...) tenham respostas", acrescentou.

Sobre as críticas aos responsáveis pela decisão em participar na guerra, Chilcot disse que o objetivo do relatório não é processar ninguém, porque a investigação não foi um tribunal.

"Deixei muito claro, desde o princípio, quando iniciei a investigação, que se nos deparássemos com coisas que merecem críticas a indivíduos e a instituições não fugiríamos a tais críticas e, aliás, foi o que fizemos", afirmou.

Tony Blair, interrogado duas vezes por Chilcot, já pediu desculpa pela polémica informação dos serviços secretos acerca de armas de destruição que serviram de justificação para a invasão contra o Iraque e que acabou por se provar falsa e sem fundamento.

Os familiares dos militares britânicos mortos na guerra e alguns políticos do Reino Unido acreditam que o extenso documento venha a servir de base para um processo jurídico contra o antigo chefe do executivo trabalhista.

A investigação foi autorizada pelo antigo primeiro-ministro trabalhista Gordon Brown, no poder entre 2007 e 2010, e depois de fortes pressões políticas e das famílias de 179 militares que perderam a vida na campanha do Iraque.

Estima-se que o documento tem mais de dois milhões e meio de palavras e é quatro vezes mais extenso do que livros como a "Guerra e Paz", sendo que vai ser distribuído em 12 volumes.

Mais de 150 pessoas prestaram declarações, entre as quais Tony Blair e políticos que detinham o poder na altura da campanha militar, como o ex-ministro trabalhista dos Negócios Estrangeiros Jack Straw e o antigo ministro da Defesa, Geoff Hoon, além de vários militares.

Calcula-se que os custos da investigação atingiram os 11 milhões de euros.

Por outro lado, os familiares dos militares britânicos mortos acreditam que o relatório possa vir a dar início a um processo jurídico contra os responsáveis pelo envolvimento do Reino Unido na Guerra do Golfo.

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