Austrália quer matar dois milhões de gatos selvagens com salsichas envenenadas

O governo australiano quer matar dois milhões de gatos selvagens até 2020 para salvar espécies nativas ameaçadas. Política gera negócio, mas também críticas, até por parte dos conservadores da natureza

Em 2015 o governo australiano declarou os gatos selvagens como uma espécie de inimigo N.º 1 no país e estabeleceu a meta de eliminar dois milhões destes animais até 2020 como forma de preservar outras espécies nativas ameaçadas pelos mesmos. Quatro anos depois, várias reportagens mostram como a política originou negócio, por um lado, mas também críticas, por outro.

A mais recente, do New York Times, relata como foram desenvolvidas as salsichas envenenadas, lançadas por avião, destinadas a matar gatos selvagens. Os aviões distribuem os presentes envenenados, produzidos numa fábrica perto de Perth, deixando cair uma média de 50 salsichas por cada Km2 na zona onde se estima que vivam até seis milhões de gatos selvagens.

As salsichas são feitas de carne de outros animais, como canguru e galinha, levando uma mistura de ervas e especiarias, mais veneno 1080. Na reportagem deste jornal norte-americano, Dave Algar, a quem os funcionários chamam Dr. Morte, em tom de brincadeira, explica que testou o sabor das salsichas nos seus dois gatos, antes de lhes adicionar o veneno, para ver se eles gostavam do sabor. "Têm que saber bem, pois são a última refeição que estes gatos selvagens vão ter", declarou, segundo o artigo, datado de 25 de abril.

Além do envenenamento vindo do céu, há outras técnicas a ser praticadas para reduzir o número de gatos selvagens na Austrália, tais como ratoeiras, abate por arma de fogo ou outros tipos de envenenamento. Em novembro de 2018, a Vice publicou também uma reportagem em vídeo, com imagens sensíveis de chocar algumas pessoas, mostrando como operam os caçadores de gatos selvagens na ilha Kangaroo, a terceira maior ilha da Austrália depois da Tasmânia e da Ilha Melville.

Noutras zonas da Austrália, como no estado de Queensland, refere a CNN, há até um council que oferece 10 dólares australianos, ou seja, 6,30 euros por cada gato selvagem abatido. Uma política criticada pela ONG Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais (PETA), que segundo o site desta televisão norte-americana classificou a prática australiana como sendo cruel.

Segundo a atual comissária nacional para as espécies ameaçadas, Sally Box, "os gatos selvagens contribuíram para a extinção de 20 espécies de mamíferos desde que foram introduzidos pelos europeus e continuam a causar estragos na nossa fauna nativa única, como os nossos sapos, mamíferos e pássaros. Precisamos de novas ferramentas, abordagens e parcerias para limitar o seu impacto. Os métodos tradicionais de controlo dos gatos selvagens, tais como ratoeiras ou abate por arma de fogo, consomem muito tempo, dinheiro e mão-de-obra".

Além dos mamíferos, disse o porta-voz do Departamento do Ambiente e da Energia da Austrália à CNN, citando um estudo científico, estima-se que os gatos selvagens matam 1 milhão de pássaros e 1,7 milhões de répteis todos os dias. "Os gatos selvagens são uma ameaça real e uma ameaça significativa para a saúde dos nossos ecossistemas", disse, ao New York Times, o ex-ministro do Ambiente australiano Josh Frydenberg.

Entretanto, várias petições online foram lançadas, pedindo ao governo australiano que desiste deste plano contra os gatos selvagens. A ex-atriz Brigitte Bardot escreveu uma carta ao Executivo denunciando "um genocídio animal" e o cantor Morrissey classificou os políticos e dirigentes australianos como "idiotas que governam a Terra".

Tim Doherty, conservador da natureza da Universidade de Deakin, na Austrália, admitiu à CNN que, de facto, os gatos selvagens são um grande problema na Austrália mas que acredita que a perseguição aos animais tem pouca sustentação científica. "Na altura, em 2015, quando o objetivo foi estabelecido, não sabíamos, de forma rigorosa, quantos gatos selvagens havia na Austrália", afirmou, referindo que algumas estimativas feitas naquela épocas apontavam para 18 milhões, o que, em seu entender, "é uma estimativa inflacionada". O especialista conclui: "Não há uma estimativa fidedigna para todo o continente, por isso, se é para estabelecer um objetivo, e se é para ser a sério, é preciso ter a possibilidade de medir os progressos que vão sendo feitos ao longo do caminho".

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