Atirador de Dallas era veterano do Afeganistão e ativista negro

Hillary e Trump suspenderam as campanhas depois de um ataque em Dallas que matou cinco polícias e feriu seis num protesto contra as mortes de dois afro-americanos pela polícia.

Pouco antes de ser morto pela polícia, Micah Xavier Johnson garantiu aos negociadores estar a "agir sozinho" e não ter "ligações a qualquer grupo", querendo apenas matar mais brancos, de preferência polícias. Mas o veterano da guerra do Afeganistão, que pouco antes fora um dos envolvidos no ataque a 11 agentes que garantiam a segurança num protesto contra a morte de dois jovens afro-americanos por polícias, matando cinco e ferindo sete, tem várias referências na sua página do Facebook ao "Black Power", além de seguir grupos supremacistas negros como as Novas Panteras Negras e a Liga de Defesa Afro-Americana.

Pouco depois do ataque de Dallas, este último grupo publicou no Facebook a mensagem: "Ataca tudo o que estiver vestido de azul, exceto o carteiro, a menos que este traga mais do que o correio". Um exemplo da tensão entre agentes da segurança e jovens negros.

Segundo a polícia, Johnson foi responsável por alguns dos disparos, daquele que foi descrito pelo presidente Barack Obama como um ataque "calculado e desprezível", mas as autoridades não descartam ter havido outros atiradores.

Black Lives Matter

Uma sequência de mortes de negros por polícias brancos em locais tão diversos como Ferguson, Missouri, Nova Iorque, Baltimore e Chicago, além da Louisiana e do Minnessota (estes dois na última semana) resultaram na criação do movimento Black Lives Matter, que faz campanha contra a violência policial excessiva contra os afro-americanos. Foram eles os organizadores do protesto de quinta-feira à noite em Dallas, que se seguiu a muitos outros, por norma pacíficos. Mas se antes já tinha havido tensão e até alguns confrontos com a polícia, o ataque de ontem foi de uma natureza completamente diferente.

Quando começaram os disparos, os manifestantes correram em pânico em busca de abrigo, enquanto os polícias procuravam perceber de onde vinha os disparos contra eles. O(s) atirador(es) estariam escondidos no solo e nos telhados e terão usado espingardas de assalto. O ataque só terminou horas depois, quando a polícia usou um robô para colocar uma bomba na garagem onde Johnson se barricara. Durante as negociações, o veterano de guerra, de 25 anos e sem cadastro, que esteve destacado no Afeganistão entre novembro de 2013 e julho de 2014, disse estar perturbado com as recentes mortes de jovens negros pela polícia, sublinhando estar empenhado em matar brancos, especialmente polícias. Johnson, que no exército se especializara em carpintaria, recusou dizer quantas pessoas participaram no ataque. Os três suspeitos, dois homens e uma mulher, estavam ontem a ser ouvidos pela polícia, apara apurar o seu papel.

Dia mortífero

"Quando ouvi os disparos, olhei em frente e vi dois polícias no chão. Não sabia o que fazer", explicou à Reuters o reverendo Jeff Hood, um dos organizadores do protesto que estava a conversar com um agente quando o tiroteio começou. O religioso garantiu ainda que "se continuarmos a recorrer à violência, vamos continuar a assistir à mágoa e devastação". Após o ataque, o Black Lives Matter reagiu no Twitter com uma mensagem a garantir que "defendemos a dignidade, justiça e liberdade. Não o crime". Só este ano já foram mortos nos EUA 26 polícias, segundo dados oficiais. Uma subida de 44% em relação ao mesmo período do ano passado.

Este foi o ataque mais mortífero para a polícia americana desde o 11 de setembro de 2001, quando morreram 72 agentes da lei. Duas das vítimas de ontem foram identificadas como Brent Thompson, de 43 anos, que casara há apenas duas semanas, e Patrick Zamarripa, um pai de dois filhos de 32 anos.

Campanha suspensa

Depois do ataque de ontem multiplicaram-se os apelos à calma - como o da procuradora-geral Loretta Lynch - e as homenagens - como a da cantora Beyoncé. Hillary Clinton e Donald Trump, os candidatos às presidenciais de novembro, cancelaram as suas ações de campanha. A democrata garantiu no Twitter estar "de luto pelos agentes abatidos quando cumpriam o dever sagrado de proteger os manifestantes". Já o republicano, depois de apresentar as condolências às famílias das vítimas, acrescentou em comunicado: "A nossa nação está muito dividida. Muitos americanos sentem que perderam a esperança. [...] As tensões raciais estão piores e não melhores. Este não é o sonho americano que queremos para as nossas crianças".

As mortes de Philando Castile, de 32 anos, em St. Paul, no Minnesota, após ser mandado parar pela polícia de trânsito, e a de Altin Sterling, de 37, morto por agentes em Baton Rouge após uma denúncia de estar a ameaçar alguém com uma arma, deram novos argumentos aos que denunciam a violência policial contra os negros. O descontentamento cresceu depois de os agentes que foram a julgamento em casos anteriores terem sido absolvidos ou nem terem chegado à justiça.

Em Varsóvia, onde participava na Cimeira da NATO, Obama relacionou a violência deste ataque á facilidade de acesso a armas mortíferas, relançando um velho debate. No Texas, há mais de um milhão de pessoas com armas.

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