Atirador de Christchurch: "Sou apenas um homem branco normal"

Brenton Tarrant, australiano de 28 anos, escreveu um manifesto de 74 páginas em que explica porque decidiu realizar o atentado de Christchurch.

"Sou apenas um homem branco normal, de uma família normal, que decidiu tomar uma posição para assegurar o futuro do meu povo", diz Brenton Tarrant, de 28 anos, o homem que reivindicou o atentado em Christchurch e matou 49 pessoas esta sexta-feira. Numa conta de Twitter, que entretanto foi apagada a pedido das autoridades, este cidadão australiano não só transmitiu o momento em direto como publicou várias fotos de revistas sobre armamento e um link para o que foi descrito pela polícia como um manifesto, em que ele se define como "etno-nacionalista" e "fascista".

De acordo com o jornal The Guardian , o documento de 74 páginas, intitulado The Great Replacement (A grande substituição), começa por citar o poema mais conhecido de Dylan Thomas (poeta galês, 1914-1953): Do not go gentle into that good night, originalmente publicado em 1951.

Depois do poema, Brenton Tarrant fala um pouco de si e esclarece as suas motivações para realizar um atentado - incluindo "criar uma atmosfera de medo" e "incitar à violência" contra os muçulmanos. As vítimas, diz, são "um grupo de invasores" que "tentam ocupar as terras das minhas gentes e substituir etnicamente o meu povo".

Tarrant, que revela uma obsessão contra o Islão, diz que teve "um breve contacto" com Anders Bhering Breivik, o neonazi responsável pelo assassínio de 77 pessoas num atentado na Noruega a 22 de julho de 2011 e que atualmente tem 40 anos e se encontra detido a cumprir uma pena de 21 anos de prisão. O australiano afirma que Breivik lhe deu a "sua bênção" para este ataque que é, explica, uma "vingança" por todos os ataques terroristas perpetrados por muçulmanos contra os europeus.

Além de Breivik, ele cita ainda outros que "se posicionaram contra o genocídio cultural e étnico" do Ocidente, como Luca Traini (italiano de 28 anos que foi condenado a 12 anos de prisão em outubro passado pelo atentado em Macerata em que matou seis imigrantes africanos), Dylann Roof (supremacista americano de 24 anos responsável pelo tiroteio de Charleston, em 2015, em que matou nove pessoas), Anton Lundin Pettersson (que matou duas pessoas numa escola sueca em 2015) e Darren Osborne (autor do atropelamento de muçulmanos à porta de uma mesquita em Londres, em 2017)

Mas a personalidade histórica de que se sente mais próximo, diz, é Oswald Mosley (1896-1989), um dos principais líderes da extrema-direita fascista de Inglaterra.

"As origens da minha linguagem são europeias, a minha cultura é europeia, as minhas crenças políticas são europeias, as minhas crenças filosóficas são europeias e, mais importante de tudo, o meu sangue europeu", diz, justificando as suas ações.

Oriundo, ao que tudo indica, de Grafton, uma cidade de mais de 18 mil habitantes na região de Nova Gales do Sul, na Austrália, conta que cresceu numa família da classe trabalhadora, com poucos rendimentos. "Os meus pais são de raízes escocesa, irlandesa e inglesa. Tive uma infância normal, sem grandes problemas", escreve no manifesto. Define-se como "uma pessoa reservada e muito introvertida".

Brenton Tarrant conta que nunca se interessou muito pela escola, conseguindo a custo completar o liceu e não chegou a frequentar a universidade. De acordo com a ABC, Tarrant trabalhou como personal trainer num ginásio, entre 2009 e 2011. "Trabalhei por pouco tempo antes de ganhar algum dinheiro investindo na Bitconnect [operadora de criptomoedas] e depois usei esse dinheiro para viajar", escreve, no manifesto. Foi conhecer a Ásia (entre outros locais, esteve na Coreia do Norte) e a Europa.

O homem explica que planeou o atentado durante dois anos e que, apesar de a Nova Zelândia não ter sido a sua primeira escolha, há já três meses que tinha escolhido a cidade de Christchurch como alvo. "Eu só vim para a Nova Zelândia para viver temporariamente enquanto planeava [o ataque] e treinava, mas rapidamente descobri que a Nova Zelândia era um alvo tão bom como qualquer outro lugar no Ocidente." Segundo o manifesto, Tarrant queria transmitir ao mundo a mensagem de que "nenhum lugar no mundo é seguro".

E decidiu usar armas de fogo porque sabia que assim teria mais publicidade: "Escolhi armas de fogo por causa do efeito que teria no discurso social, a cobertura extra dos media que elas proporcionaria e o efeito que isso poderia ter na política dos Estados Unidos e, por isso, na situação política do mundo", esclarece.

Apesar disso, esclarece The Independent, Terrant não é um admirador a 100% de Trump: "Como símbolo de uma renovada identidade branca e objetivo comum? Claro. Mas como político e líder? Não, pelo amor de deus."

A polícia ainda não confirmou que Brenton Tarrant é um dos suspeitos detidos pelo atentado na Nova Zelândia.

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