A condenação de Lula da Silva, por corrupção e lavagem de dinheiro, a uma pena de prisão de 12 anos e 11 meses pela juíza Gabriela Hardt no caso conhecido como "Sítio de Atibaia", desdobramento da Operação Lava Jato, é apenas mais um episódio do inferno que o antigo presidente do Brasil vem enfrentando desde que deixou o Palácio do Planalto, em 2010. Mortes na família, doença grave, amigos com a carreira destruída, derrotas políticas e condenações na justiça acumulam-se desde 2011, o período mais difícil da biografia do outrora anónimo metalúrgico, sindicalista de sucesso e popularíssimo chefe de estado dentro e fora do seu país.."Este é o tipo mais popular à face da terra, este é o homem, amo este tipo", exclamava Barack Obama, então presidente dos Estados Unidos, ao deparar-se com o homólogo brasileiro, quase em fim de mandato, numa reunião de líderes na ONU. O caso não era para menos: após dois triunfos eleitorais categóricos e com mais de 80% de aprovação, ecoavam pelo mundo os sucessos da sua gestão, começando pelos programas sociais que levaram 50 milhões de brasileiros, antes abaixo do limiar da pobreza, à sociedade de consumo, e terminando no crescimento sustentado do PIB de um dos BRIC mais promissores à época. Lula, na esteira dessa popularidade, ainda conseguiu eleger Dilma Rousseff, até então uma burocrata meio desconhecida como sucessora. Estava no auge da carreira. E da vida..Meses depois de sair do poder, no entanto, o velho sindicalista que alimentou ódios quase na mesma proporção com que gerou devoção, foi diagnosticado com um cancro na laringe, após 40 anos de vício em tabaco. O tratamento de radio e quimioterapia correu bem, a doença foi debelada mas fez desaparecer por uns meses, além do cabelo, a principal imagem de marca do rosto do carismático político: as barbas..No ano seguinte, assistiu, irritado, ao julgamento do escândalo do Mensalão, marco zero da nova forma de agir da justiça brasileira: mesmo pertencendo ao todo poderoso PT, o partido no poder, José Dirceu, companheiro de luta íntimo de Lula, acabou condenado, passando de preso político, como era chamado em ditadura, a político preso, como se tornou conhecido em democracia. Após a prisão de Dirceu, a saturação causada pelos governos de Dilma Rousseff e o advento da Lava-Jato criaram uma pergunta ensurdecedora e repetitiva no Brasil: e o Lula, quando será a vez do Lula?.Antes ainda das condenações, que tiveram na noite de quarta-feira mais um episódio, o antigo presidente enfrentou a morte repentina de Marisa Letícia, sua mulher por 43 anos, e mãe de três dos seus quatro filhos..Seguiu-se a condenação pela posse do apartamento tríplex, decretada em primeira instância por Sergio Moro, atual ministro da justiça de Jair Bolsonaro, e agravada na instância imediatamente superior. A prisão, entretanto, foi decretada mesmo a tempo de Lula ser impedido de concorrer à eleição presidencial de 2018, cujas sondagens liderava, e de fazer campanha por Fernando Haddad, escolhido como substituto. A derrota de Haddad para Bolsonaro somou-se ao impeachment de Dilma e ao desaire monumental do PT nas municipais de 2016, outros golpes duros no ego do campeão eleitoral da primeira década do milénio.."Lula está preso, babaca".A sentença de Gabriela Hardt, conhecida uma semana e meia depois da morte do irmão mais velho de Lula, é por isso apenas mais um episódio do longo inferno do político nascido em outubro de 1945, em Caetés, região miserável do sertão de Pernambuco, no nordeste do país..A juíza que substituiu interinamente Moro no caso considerou "facto" que a família do ex-presidente era "frequentadora assídua" do Sítio de Atibaia, bem como que "usufruiu dele como se dona fosse". Revelado pelo jornal Folha de S. Paulo há dois anos, o caso refere-se ao pagamento de obras no imóvel pelas construtoras Odebrecht e OAS e pelo empresário José Carlos Bumlai, com recursos desviados da Petrobrás e, supostamente, como pagamento de favores a Lula. A defesa do antigo presidente, que vai recorrer, argumenta que a propriedade não estava no nome dele e que a sentença tem "fundamentação retórica". "Ela reforça o uso perverso das leis e dos procedimentos jurídicos para fins de perseguição política", disse Cristiano Zanin, advogado de Lula..Na Câmara dos Deputados, o parlamentar do PT Paulo Pimenta acrescentou que "é um processo viciado e contaminado por conduta ideológica". Gleisi Hoffmann, presidente do partido, perguntou-se "porquê tanta maldade com o Lula"..Já Eduardo Bolsonaro, deputado do PSL e filho do presidente da República, gritou aos microfones do plenário "o Lula está preso, babaca". Governador de São Paulo, João Doria comemorou nas redes sociais e concluiu que "a Lava Jato continua em boas mãos"..Mais seis processos.Além das condenações a 12 anos e um mês pelo caso do apartamento tríplex, que o levou para a prisão em Curitiba, e do da propriedade em Atibaia, cuja sentença foi agora conhecida, Lula enfrenta ainda mais seis processos. Os mais recentes são o do "quadrilhão do PT", em que Lula e Dilma são acusados de integrar organização criminosa, e o do "Instituto Lula", em que o antigo presidente enfrenta acusação de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por meio da compra de um terreno para construção do seu instituto pela Odebrecht..Lula é alvo também por corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e organização criminosa da "Operação Zelotes", que investiga esquema para beneficiar uma empresa na compra de caças, e da "Zelotes 2", por ajudar companhia do setor automóvel através de emendas provisórias..Na "Operação Janus" é acusado de beneficiar a Odebrecht em negócios em Angola e noutro proceso de interferir em negócios na Guiné Equatorial..O inferno está, pois, longe de acabar..Em São Paulo