Atibaia, o último episódio do pesadelo de Lula da Silva

Desde que saiu do Palácio do Planalto em 2010, com mais de 80% de aprovação popular, o antigo presidente enfrentou a perda do poder, a derrocada dos amigos, um cancro, a morte da mulher e de um irmão, além da prisão.

A condenação de Lula da Silva, por corrupção e lavagem de dinheiro, a uma pena de prisão de 12 anos e 11 meses pela juíza Gabriela Hardt no caso conhecido como "Sítio de Atibaia", desdobramento da Operação Lava Jato, é apenas mais um episódio do inferno que o antigo presidente do Brasil vem enfrentando desde que deixou o Palácio do Planalto, em 2010. Mortes na família, doença grave, amigos com a carreira destruída, derrotas políticas e condenações na justiça acumulam-se desde 2011, o período mais difícil da biografia do outrora anónimo metalúrgico, sindicalista de sucesso e popularíssimo chefe de estado dentro e fora do seu país.

"Este é o tipo mais popular à face da terra, este é o homem, amo este tipo", exclamava Barack Obama, então presidente dos Estados Unidos, ao deparar-se com o homólogo brasileiro, quase em fim de mandato, numa reunião de líderes na ONU. O caso não era para menos: após dois triunfos eleitorais categóricos e com mais de 80% de aprovação, ecoavam pelo mundo os sucessos da sua gestão, começando pelos programas sociais que levaram 50 milhões de brasileiros, antes abaixo do limiar da pobreza, à sociedade de consumo, e terminando no crescimento sustentado do PIB de um dos BRIC mais promissores à época. Lula, na esteira dessa popularidade, ainda conseguiu eleger Dilma Rousseff, até então uma burocrata meio desconhecida como sucessora. Estava no auge da carreira. E da vida.

Meses depois de sair do poder, no entanto, o velho sindicalista que alimentou ódios quase na mesma proporção com que gerou devoção, foi diagnosticado com um cancro na laringe, após 40 anos de vício em tabaco. O tratamento de radio e quimioterapia correu bem, a doença foi debelada mas fez desaparecer por uns meses, além do cabelo, a principal imagem de marca do rosto do carismático político: as barbas.

No ano seguinte, assistiu, irritado, ao julgamento do escândalo do Mensalão, marco zero da nova forma de agir da justiça brasileira: mesmo pertencendo ao todo poderoso PT, o partido no poder, José Dirceu, companheiro de luta íntimo de Lula, acabou condenado, passando de preso político, como era chamado em ditadura, a político preso, como se tornou conhecido em democracia. Após a prisão de Dirceu, a saturação causada pelos governos de Dilma Rousseff e o advento da Lava-Jato criaram uma pergunta ensurdecedora e repetitiva no Brasil: e o Lula, quando será a vez do Lula?

Antes ainda das condenações, que tiveram na noite de quarta-feira mais um episódio, o antigo presidente enfrentou a morte repentina de Marisa Letícia, sua mulher por 43 anos, e mãe de três dos seus quatro filhos.

Seguiu-se a condenação pela posse do apartamento tríplex, decretada em primeira instância por Sergio Moro, atual ministro da justiça de Jair Bolsonaro, e agravada na instância imediatamente superior. A prisão, entretanto, foi decretada mesmo a tempo de Lula ser impedido de concorrer à eleição presidencial de 2018, cujas sondagens liderava, e de fazer campanha por Fernando Haddad, escolhido como substituto. A derrota de Haddad para Bolsonaro somou-se ao impeachment de Dilma e ao desaire monumental do PT nas municipais de 2016, outros golpes duros no ego do campeão eleitoral da primeira década do milénio.

"Lula está preso, babaca"

A sentença de Gabriela Hardt, conhecida uma semana e meia depois da morte do irmão mais velho de Lula, é por isso apenas mais um episódio do longo inferno do político nascido em outubro de 1945, em Caetés, região miserável do sertão de Pernambuco, no nordeste do país.

A juíza que substituiu interinamente Moro no caso considerou "facto" que a família do ex-presidente era "frequentadora assídua" do Sítio de Atibaia, bem como que "usufruiu dele como se dona fosse". Revelado pelo jornal Folha de S. Paulo há dois anos, o caso refere-se ao pagamento de obras no imóvel pelas construtoras Odebrecht e OAS e pelo empresário José Carlos Bumlai, com recursos desviados da Petrobrás e, supostamente, como pagamento de favores a Lula. A defesa do antigo presidente, que vai recorrer, argumenta que a propriedade não estava no nome dele e que a sentença tem "fundamentação retórica". "Ela reforça o uso perverso das leis e dos procedimentos jurídicos para fins de perseguição política", disse Cristiano Zanin, advogado de Lula.

A prisão de Lula foi decretada mesmo a tempo de ser impedido de concorrer à eleição presidencial de 2018, cujas sondagens liderava

Na Câmara dos Deputados, o parlamentar do PT Paulo Pimenta acrescentou que "é um processo viciado e contaminado por conduta ideológica". Gleisi Hoffmann, presidente do partido, perguntou-se "porquê tanta maldade com o Lula".

Já Eduardo Bolsonaro, deputado do PSL e filho do presidente da República, gritou aos microfones do plenário "o Lula está preso, babaca". Governador de São Paulo, João Doria comemorou nas redes sociais e concluiu que "a Lava Jato continua em boas mãos".

Mais seis processos

Além das condenações a 12 anos e um mês pelo caso do apartamento tríplex, que o levou para a prisão em Curitiba, e do da propriedade em Atibaia, cuja sentença foi agora conhecida, Lula enfrenta ainda mais seis processos. Os mais recentes são o do "quadrilhão do PT", em que Lula e Dilma são acusados de integrar organização criminosa, e o do "Instituto Lula", em que o antigo presidente enfrenta acusação de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por meio da compra de um terreno para construção do seu instituto pela Odebrecht.

Lula é alvo também por corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e organização criminosa da "Operação Zelotes", que investiga esquema para beneficiar uma empresa na compra de caças, e da "Zelotes 2", por ajudar companhia do setor automóvel através de emendas provisórias.

Na "Operação Janus" é acusado de beneficiar a Odebrecht em negócios em Angola e noutro proceso de interferir em negócios na Guiné Equatorial.

O inferno está, pois, longe de acabar.

Em São Paulo

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