Assad ausente da resolução unânime da ONU sobre Síria

Papel que o presidente deverá representar no futuro tem sido um motivo de discórdia entre EUA e Rússia

A resolução sobre a Síria aprovada no Conselho de Segurança das Nações Unidas é uma demonstração pouco usual de consenso por parte das grandes potências mundiais sobre o tema. Mas a unanimidade alcançada na sexta-feira à noite explica-se por uma ausência: no texto não há qualquer referência ao papel que o presidente sírio, Bashar al-Assad, deverá desempenhar no futuro. E esse tem sido um dos motivos da discórdia entre norte-americanos e russos.

Apesar de não referir Assad, o documento aprovado não deixa contudo de ser ambicioso: apela a um cessar-fogo paralelo às negociações políticas entre o governo sírio e a oposição e estabelece um prazo de 18 meses para a realização de eleições democráticas. Apesar do cessar-fogo, os ataques aéreos contra os grupos terroristas, nomeadamente o Estado Islâmico, são para continuar por parte da coligação liderada pelos EUA e a Rússia.

"A resolução é uma mensagem clara a todos os interessados de que é hora de acabar com a matança na Síria", afirmou o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, que presidiu à reunião do Conselho de Segurança. Mas deixou também claro que a comunidade internacional continua dividida em relação ao futuro do presidente Assad. "Não temos ilusões acerca dos obstáculos que existem", explicou. Os EUA têm pedido a saída de Assad, enquanto a Rússia (sua aliada) tem defendido que essa não deve ser uma condição prévia às negociações de paz. O secretário de Estado indicou que o presidente sírio "perdeu a capacidade de unir o país", mas também reconheceu que exigir a sua saída imediata era "prolongar a guerra".

O chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, disse que a resolução agora aprovada é "uma resposta clara às tentativas de impor uma solução externa " para a questão síria, "incluindo em relação ao presidente". No texto lê-se que a transição política deve ser liderada pelos sírios. Ontem, o presidente russo, Vladimir Putin, indicou que Moscovo consegue trabalhar facilmente com todos os lados envolvidos no esforço para chegar a uma solução para o conflito sírio. "Para nós é fácil trabalhar com o presidente Assad e com os norte-americanos", indicou, citado pelas agências russas.

Garantias

No debate prévio à aprovação da resolução, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Laurent Fabius, deixou claro que as negociações só terão sucesso se houver "garantias da saída" de Assad. "Como é que este homem pode unir um povo que massacrou? A ideia de que pode concorrer às eleições é inaceitável para nós", acrescentou.

O chefe da diplomacia britânica, Philip Hammond, insistiu que Assad só pode manter-se na presidência temporariamente, como parte de uma governo de transição, mas não pode ter um papel a longo prazo. "Este processo envolve necessariamente a saída de Assad, não apenas por razões morais, por causa da destruição que desencadeou sob o seu próprio povo, mas também por razões práticas - porque nunca será possível trazer paz e união à Síria enquanto ele estiver no poder".

Ontem, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, lembrou que ainda há muitas dificuldades a ultrapassa. "Nenhum de nós menospreza as dificuldades e obstáculos que ainda é necessário ultrapassar para acabar com a guerra civil."

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