As teorias da conspiração que ligam Bill Gates à covid-19

O multimilionário está empenhado em financiar o combate à covid-19 e acredita que é possível ter uma vacina daqui a um ano. Nas redes sociais, há quem o acuse de ter sido ele a criar o coronavírus para depois poder lucrar com os seus negócios.

O vídeo é de 2015 mas nas últimas semanas aumentou o seu número de visualizações (já mais de 27 milhões). Tudo graças à sua gritante atualidade: nele, Bill Gates diz-nos que o maior risco para a humanidade não será uma guerra nuclear mas antes o aparecimento de vírus altamente contagioso que poderá acabar com a vida de milhões de pessoas.

O vídeo com a palestra de Bill Gates é este:

Como poderia ele saber?

O vídeo está na origem de uma série de teorias da conspiração, surgidas na internet, que ligam o milionário Bill Gates, de 64 anos, fundador da Microsoft, ao surgimento da covid-19. Dizem que ele foi o responsável pela criação vírus, de maneira a depois lucrar com a vacina que o vai erradicar e também com os benefícios da implementação de softwares de controlo e vigilância do vírus (e da população mundial).

Segundo o The New York Times, um estudo da empresa de análise de media Zignal Labs descobriu que as publicações nas redes sociais que alegam falsamente que o fundador da Microsoft criou o vírus têm vindo a aumentar desde o início deste ano.

O jornal afirma que nesse estudo foram identificadas mais de 16 mil publicações no Facebook sobre Gates e covid-19, as quais obtiveram cerca de 900 mil reações positivas ("like") e comentários. Além disso, em abril e março os 10 vídeos mais populares do YouTube que divulgavam informações erradas sobre Gates atraíram cinco milhões de visualizações.

A primeira vez que esta ligação entre Bill Gates e o coronavírus foi mencionada terá sido, segundo o jornal, num tweet publicado no final de janeiro que alegava que Gates estava ciente da pandemia de antemão, uma vez que havia uma patente de vacina registada por um grupo britânico chamado Instituto Pirbright que tinha recebido fundos da The Gates Foundation. Essas informações foram usadas dois dias depois pela Infowars, site norte-americano americana de extrema-direita e divulgador de fake news.

No final de janeiro, o portal de verificação de dados Full Fact negou os rumores que circulavam nas redes sociais de que o Instituto Pirbright havia solicitado uma patente relacionada com a covid-19. A vacina em causa estava ligada a um coronavírus diferente que afeta as aves.

Entretanto as teorias da conspiração culpando Gates pelo coronavírus encontraram o seu alto-falante em figuras de extrema-direita e perfis de pessoas anti-vacinas. Por exemplo, Roger Stone, um ex-conselheiro de Trump condenado a 40 meses de prisão por crimes relacionados com a campanha do presidente de 2016: "Ele e os outros estão a usar o vírus para promover a obrigatoriedade das vacinas e a implementação de microchips nas pessoas para se saber se elas já estão imunes. Só depois de morto! Vacinas obrigatórias? No way, José!"

Outra das pessoas que tem alimentado as teorias da conspiração sobre Bill Gates é Robert F. Kennedy Jr, filho do senador Robert F. Kennedy, que faz campanha contra vacinas como diretor da Rede de Defesa da Saúde da Criança. Na sua conta no Instagram, Robert F. Kennedy Jr. disse que Gates é a favor de vacinas para alimentar seus outros interesses comerciais. A 14 de abril, Robert F. Kennedy Jr. publicou um desenho animado de um sorridente Sr. Gates com uma seringa e uma legenda: "O seu corpo, a minha escolha".

Vacina poderá estar pronta dentro de 12 meses

Criada em 2006, a Fundação Bill e Melinda Gates é a maior fundação de caridade privada do mundo, dedicando-se, por exemplo, a apoiar projetos de distribuição de vacinas nos países em desenvolvimento, promover o planeamento familiar ou financiar o desenvolvimento de culturas geneticamente modificadas.

Em janeiro, quando a disseminação do coronavírus começou, a fundação doou 10 milhões de dólares (pouco mais de nove milhões de euros) para ajudar os profissionais de saúde na China e na África. Em abril, Gates anunciou que a fundação financiaria os laboratórios das sete vacinas mais promissoras. Há uma semana, aumentou a sua doação para combater a propagação da doença para 250 milhões de dólares (cerca de 230 milhões de euros).

Agora, segundo o Financial Times, a fundação vai aplicar todo o seu investimento nas várias frentes do combate ao corinavírus. "Pegámos numa organização focada no HIV e na erradicação da malária e da poliomielite e mudámo-la quase completamente para trabalhar nisto", disse Bill Gates ao Financial Times, aproveitando ainda para defender a Organização Mundial da Saúde contra as acusações do presidente dos EUA, Donald Trump.

O milionário acredita que, se tudo correr bem, a vacina para a covid-19 poderá estar pronta dentro de um ano. Mas, porque o mais provável é que haja contratempos, Bill Gates tem uma expectativa "mais realista" de poder contar com uma vacina daqui a 18 meses.

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