As tarefas mais urgentes de António Guterres na ONU

Síria e refugiados serão os dois maiores desafios. Novo líder, que hoje presta juramento, precisa que Trump não lhe vire as costas

O mundo não vai ser um lugar fácil para António Guterres. O ex-primeiro-ministro português - que presta hoje juramento como secretário-geral da ONU e que inicia funções no início do próximo mês - irá encontrar um panorama internacional com muitas nações desunidas.

No GPS das preocupações mais urgentes todas as coordenadas apontam no sentido da Síria e, em particular, de Aleppo. A guerra civil prolonga-se há quase cinco anos e, tendo em conta o complexo xadrez de alianças e antagonismos, não será fácil calar as armas e encontrar uma saída para a paz. "Estou certo de que Guterres tentará que a ONU tome posições fortes, mas EUA e Rússia podem bloquear qualquer tentativa de resolução", dizia ao DN Barah Mikhail, especialista em questões do Médio Oriente e membro do think thank FRIDE, em Madrid, no passado mês de outubro.

Outro dos desafios do novo líder das Nações Unidas chama-se Donald Trump. O presidente-eleito dos EUA toma posse a 20 de janeiro, mas ainda é grande a incerteza sobre qual será a linha da sua Administração em matéria de política externa. Os sinais que o então candidato republicano deixou escapar durante a campanha não são encorajadores. Desde as reticências levantadas sobre o comprometimento dos EUA em relação à NATO até ao relativo desprezo em relação aos acordos ambientais de Paris, foram vários os momentos em que Trump deu a entender que pretende uns EUA mais umbiguistas e menos virado para a diplomacia mundial. Esse cenário, a confirmar-se, dificultará a missão de António Guterres. "Terá dificuldade em propor reformas institucionais ou iniciativas políticas significativas até que a nova administração norte-americana entre em velocidade de cruzeiro", defende, citado por agências internacionais, Richard Gowan, especialista em assuntos da ONU do Conselho Europeu de Relações Externas.

Outra questão premente é a crise migratória, um tema que o ex-primeiro-ministro português conhece bem, depois de ter passado dez anos como Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Neste particular será preciso trabalhar para resolver os problemas nos países de origem e, ao mesmo tempo, sensibilizar a comunidade internacional para a necessidade de unir esforços. De acordo com Pedro Neto, diretor da Amnistia Internacional Portugal, dez dos 193 países da ONU recebem mais de 50% dos refugiados.

Marcelo e Costa na cerimónia

Hoje, depois de jurar sobre a Carta das Nações Unidas, é provável que o português toque em alguns destes temas quando se dirigir à Assembleia Geral. O início da cerimónia está marcado para as 10.00 de Nova Iorque (15.00 em Lisboa). Antes do juramento será prestada uma homenagem ao secretário-geral cessante, Ban Ki-moon. Em representação de Portugal, estarão presentes Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa.

Ainda não é certo que Guterres anuncie hoje quem será o seu vice-secretário-geral e quem ocupará o cargo de chefe de gabinete. A maioria dos analistas avança que os dois lugares deverão ser ocupados por mulheres, uma vez que o português já garantiu que irá dedicar especial atenção às questões da igualdade de género. Amina Mohammed, ministra do Ambiente da Nigéria, é tida como uma das possibilidades mais fortes para ser a número dois do novo líder da ONU.

Outro dos reptos de Guterres é o funcionamento interno das Nações Unidas. "Será mais produtivo se se concentrar em reformar o pântano burocrático", escreve no The Washington Post John Bolton, ex-embaixador dos EUA na ONU nos anos de George W. Bush. O mesmo diplomata acredita que "os burocratas das Nações Unidas precisam de um patrão e não de um sonhador".

Além de Trump e dos EUA, o ex-chefe do governo português terá também que saber lidar com Vladimir Putin e com uma Rússia que nos últimos anos tem vindo a assumir uma postura mais beligerante. Conciliar os interesses dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança - Rússia, EUA, França, Reino Unido e China -, todos com poder de veto em qualquer resolução, será, como sempre foi, um dos principais desafios do secretário-geral.

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