As sete vidas de Cristina Kirchner, que volta às campanhas eleitorais

Apesar dos vários processos judiciais, a ex-presidente anunciou que é novamente candidata a senadora. Num escrutínio que mede o pulso para o regresso à Casa Rosada em 2019

Em 2015, quando o candidato apoiado por Cristina Kirchner perdeu as presidenciais para Mauricio Macri, muitos deram-na como politicamente morta. Depois de dois mandatos na Casa Rosada, outro como primeira-dama e uma carreira que tinha começado em 1989 com a eleição como deputada provincial em Santa Cruz, refugiava-se a sul sem conseguir evitar o apertar das malhas da justiça. Mas, com um comício para 30 mil pessoas num estádio de Buenos Aires, Kirchner demonstrou agora que não está morta e com o anúncio da candidatura a senadora provou que é uma ameaça para Macri.

Advogada, deputada, senadora, primeira-dama, presidente, arguida e agora feroz opositora: as sete vidas de Kirchner, que, aos 64 anos, lançou a sua nova coligação política, a Frente Unidade Cidadã, no dia 20. Quatro dias depois, a três horas do fim do prazo, anunciava que seria candidata a senadora pela província de Buenos Aires. A única boa notícia para Macri é que, dessa forma, divide o campo peronista - que é a principal força na Câmara dos Deputados, mas dividida em correntes que vão da esquerda à direita. Além de Kirchner, vão a votos o seu ex-ministro do Interior e dos Transportes, Florencio Randazzo, e o seu ex-chefe de gabinete tornado opositor, Daniel Scioli. Em agosto haverá primárias obrigatórias, uma espécie de primeira volta do escrutínio de outubro (quando se renova metade da Câmara de Deputados e um terço do Senado).

"Se ganhar, algo exequível pelo apoio que conserva na periferia de Buenos Aires, a zona mais afetada pela crise [económica], Macri sofrerá. Até se for segunda, entrará no Senado e será a grande protagonista, apesar de o golpe moral para o governo ser menor. Tudo gira em torno dela, até a economia. Os investidores estão muito pendentes do seu regresso", escreveu o correspondente do El País na Argentina, lembrando que na província de Buenos Aires vive 40% do eleitorado da Argentina. "Se perde, será um "cadáver" político", escreveu por seu lado o correspondente do El Mundo.

Do lado do governo, o adversário de Kirchner será o ministro da Educação, Esteban Bullrich - mas espera-se que Macri se envolva na campanha. A situação económica é o principal problema para o presidente, que espera que o seu partido continue a ser a segunda força na Câmara. Apesar do crescimento do PIB de 1% no último trimestre, isso não se traduz para os cidadãos, que enfrentam a inflação e o desemprego (9,2% no primeiro trimestre).

No estádio onde apresentou a nova coligação, o presidente foi o principal alvo do discurso de Kirchner - que testará nas legislativas a força para um eventual regresso à Casa Rosada, em 2019. "É preciso pôr um limite ao governo", disse a ex-presidente no comício. Quando os apoiantes gritavam "Cristina senadora", ela respondeu que teve "todas as honras e todos os cargos" graças aos seus seguidores e que agora será "uma mais" porque também lhe afeta a "indignação e tristeza" que atinge a sociedade argentina.

A popularidade de Macri, no poder desde dezembro de 2015, caiu cerca de 20 pontos percentuais desde então (ronda os 45%). Cristina tem entre 20% e 30% de apoiantes, que nem as suspeitas de corrupção afastam. Mas poderá continuar a contar com o eleitorado antikirchnerista - o mesmo que lhe deu a vitória farto de 12 anos dos Kirchner no poder (antes de Cristina, Néstor).

O casal conheceu-se no curso de Direito na universidade de La Plata, em 1974, e casaram-se um ano depois. Mudaram-se para Río Gallegos, fundaram um escritório de advogados e tiveram dois filhos. Em 1989, Cristina foi eleita deputada provincial, quando Néstor era presidente da câmara. Ela seria depois eleita senadora e ele governador de Santa Cruz, antes de chegar à presidência em 2003. Cristina foi mais do que uma primeira-dama e, quatro anos depois, ele abdicou do segundo mandato para ela ser candidata. Néstor morreu em 2010.

Processos judiciais

Dólar futuro

› O juiz Claudio Bonadio decidiu, a 23 de março, levar a ex-presidente a julgamento por causa do crime de fraude contra a administração pública. Para a acusação, o Banco Central perdeu 26 mil milhões de euros nas manobras financeiras de compra de dólares no mercado futuro a um preço muito abaixo do preço de mercado. Algo que só poderia ser feito com o conhecimento da presidente, alega a acusação.

Obras públicas

› Cristina Kirchner está também acusada de associação ilícita na adjudicação de contratos para a construção de estradas, tendo 485 milhões de euros da sua fortuna embargados. Nas 52 licitações outorgadas ao empresário Lázaro Báez (preso há 14 meses), estima-se que tenha havido um prejuízo de 22 mil milhões de euros.

LOS SAUCES S.A.

› A imobiliária de Kirchner e dos filhos, Máximo e Florencia, é investigada por lavagem de dinheiro e, neste processo, a ex--presidente tem outros 6,8 milhões da fortuna embargados e está proibida de sair do país.

HOTESUR S.A.

› Há um inquérito aberto em relação à empresa que é dona do hotel Alto Calafate, suspeita de irregularidades de contabilidade e lavagem de dinheiro. Também se investigam os contratos que a empresa assinou com a companhia aérea argentina, que custaram ao Estado 132 mil euros.

Rasto do dinheiro-K

› O procurador Guillermo Marijuan pediu para se investigar a ex-presidente por lavagem de dinheiro, considerando provado que ela e o falecido marido, Néstor Kirchner, eram sócios do empresário Lázaro Báez. Este é acusado de desvio de dinheiro destinado a obras públicas para paraísos fiscais.

Acusação de Nisman

› O procurador Alberto Nisman, que foi encontrado morto em casa em janeiro de 2015, acusou a ex-presidente de "encobrimento" na investigação ao atentado na sede da associação judaica AMIA, que fez 85 mortos. Em causa a assinatura do memorando de entendimento entre a Argentina e o Irão, que, entre outras coisas, criava mecanismos para interrogar naquele país os suspeitos iranianos do ataque.

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