Aquele que "silenciou a homofobia com a liberdade". The Guardian lembra 36 anos sem Variações

O jornal britânico The Guardian lembra "o primeiro ícone gay em Portugal, que sacudiu o país do seu torpor pós-revolução após o reinado de 41 anos de fascismo", no mês em que se celebra o orgulho LGBTI+.

António Joaquim Rodrigues Ribeiro. O nome soaria estranho a qualquer um que não lhe fosse próximo suficiente para lhe conhecer o bilhete de identidade. Mas este homem dava ainda por outra denominação que ecoou não só pelo país como pelo mundo e continua a ganhar força 36 anos depois da sua morte (1984): António Variações. O cantor e compositor português é descrito, esta segunda-feira, num artigo do jornal britânico The Guardian, como o homem que "silenciou a homofobia com a liberdade de expressão", a propósito do mês do orgulho LGBTI+.

"Um hedonista amado pelo povo, um homem humilde por trás de uma postura dominante, Variações injetou cor em Portugal dos anos 80", recorda o jornal. De "menino do campo" passa a barbeiro, uma das suas paixões. Não forte o suficiente para ignorar "o som de uma guitarra ou violino", disse uma vez. "Adoro o som da tesoura, mas nada chega perto de uma guitarra ou violino." Ainda que Variações representasse (e ainda representa) muito mais do que as suas profissões.

O cantor e compositor português foi "o primeiro ícone gay em Portugal, que sacudiu o país do seu torpor pós-revolução após o reinado de 41 anos de fascismo". Não por acaso sempre se sentiu um homem fora do seu tempo. Em 1983 (um ano antes de morrer), numa entrevista, admitiu-o: "Sinto que nasci antes do meu tempo."

Um legado que trouxe de Amesterdão, na Holanda, lembra a historiadora Manuela Gonzaga, na biografia que escreveu sobre o artista "António Variações: Entre Braga e Nova Iorque". Nasceu em 1944, viveu três décadas sob o regime do Estado Novo, serviu as Forças Armadas, até procurar mais mundo além daquele que encontrava no seu país. Um dos pontos de referência, escreve a historiadora, foi a sua ida para Amesterdão, em meados dos anos 70. "A vida na cidade holandesa proporcionou a Variações uma liberdade política e sexual que ainda era embrionária em Portugal após o golpe pacífico de 1974. Os clubes gays e salas escuras em que ele se deleitava eram anátema numa nação que levaria até 1982 para legalizar a atividade homossexual", recorda o The Guardian.

Mas Variações trouxe a revolução consigo. Responsável pelo início de "uma consciência coletiva gay em Portugal", "qualquer comentário homofóbico - embora Variações nunca se tenha assumido publicamente - era esquecido assim que subia a palco". É ainda hoje um "sinónimo das comemorações do mês do Orgulho LGBT", que decorrem durante todo o mês de junho.

Acabaria por morrer em 1984, vítima de SIDA, um doença ainda misteriosa e um tabu na sociedade portuguesa. A história reza, aliás, que Variações terá sido "a primeira morte pública relacionada com a SIDA no país". Temeu-se um legado abalado pelo seu fim, mas a voz de Variações resiste ao passar do tempo.

No ano passado, tornou-se o mote do filme "Variações", até agora o maior sucesso de bilheteiras ao nível da produção nacional. E assim "recuperou seu lugar na cultura portuguesa", lê-se no jornal britânico.

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