Após aproximação a Moon, Trump é o novo desafio de Kim

Presidente americano disse estar ansioso por cimeira ainda sem data mas prometeu "pressão máxima" para a desnuclearização.

"A GUERRA DA COREIA VAI ACABAR! Os EUA, e todo o seu grande povo, deviam estar muito orgulhosos do que está acontecer na Coreia", escreveu Donald Trump no Twitter pouco depois de Kim Jong-un e Moon Jae-in terem anunciado a assinatura até ao fim do ano de um tratado que vai pôr fim oficial à a um conflito que terminou há 65 anos apenas com um armistício. Mas se saudou o aparente sucesso da cimeira entre os líderes das duas Coreias, o presidente americano não deixou de se mostrar prudente antes do seu próprio encontro com Kim, previsto para maio ou junho: "Estão a acontecer coisas boas, mas só o tempo o dirá!", escreveu.

Num encontro ontem na Casa Branca com a chanceler alemã Angela Merkel, Trump garantiu estar ansioso por conhecer Kim, mas sublinhou que não vai repetir os erros das Administrações anteriores. E prometeu manter "pressão máxima até que a desnuclearização aconteça". Sem haver ainda uma data acertada para o encontro e estando ainda a ser negociado o local onde vai decorrer (ver caixa), na segunda-feira Trump deixara no ar a hipótese de não chegar a acontecer. Em declarações ao programa de televisão Fox and Friends, o presidente dos EUA explicou: "É possível que eu saia rapidamente, com respeito, mas é possível. É possível que o encontro nem sequer aconteça. Quem sabe?" E com dois líderes tão imprevisíveis com Trump e Kim é de facto tudo possível.

A 8 de março, Trump causou surpresa ao aceitar um convite de Kim para um encontro. A acontecer, será a primeira vez que um presidente americano se reúne com um líder norte-coreano. E a verdade é que há uns meses ninguém imaginaria juntar dois homens que trocavam insultos. Enquanto a Coreia do Norte multiplicava os disparos de mísseis balísticos, alguns com capacidade para atingir os EUA, Trump garantia em agosto que as ameaças de Pyongyang seriam recebidas com "o fogo e a fúria, como o mundo jamais viu". Pyongyang respondia com uma ameaça direta a Guam, a ilha americana e base militar no Pacífico, e a 3 de setembro fazia o seu sexto ensaio nuclear.

Trump garantia na ONU estar pronto para "destruir totalmente a Coreia do Norte, referindo-se a Kim como Rocket Man (homem foguete). Kim não se ficou atrás e acusou o presidente americano de ter um "comportamento de doente mental". Os dois compararam ainda o tamanho dos botões nucleares, com Trump a garantir que o americano é maior "e funciona!"

Mas num discurso de ano novo em que voltava a ameaçar os EUA, Kim também deixou a porta aberta para um diálogo com a Coreia do Sul e até com a América. O ponto de viragem definitivo deu-se no mês seguinte, quando as duas Coreias desfilaram juntas sob a mesma bandeira na cerimónia de abertura.

Se esta aproximação tem um artífice é Moon Jae-in. O presidente sul-coreano, no poder desde maio de 2017, nunca escondeu o desejo de seguir os passos de outros líderes liberais como Kim Dae-jung ou Roo Moo-hyun, que se encontraram com Kim Jong-il, pai do atual líder norte-coreano em 2000 e 2007.

Ontem, o próprio Moon fez história numa cimeira com Kim em que anunciaram o fim da guerra da Coreia e se comprometeram com a desnuclearização da península. A comunidade internacional apressou-se a saudar o encontro e o documento assinado pelos dois líderes - do Japão à Rússia, da China aos EUA, passando pelo secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg. Mas todos exigiram passos concretos, sobretudo quanto ao programa nuclear de Pyongyang.

O documento pouco esclarece sobre o que a Coreia do Norte tenciona fazer com o seu arsenal nuclear. O secretário-geral da ONU, António Guterres, aplaudiu uma "cimeira realmente histórica", mas apelou a que os líderes coreanos transformem os seus compromissos em ações concretas.

De conseguirem esclarecer quais os próximos passos pode depender não só o sucesso como a própria existência da cimeira entre Kim e Trump. Os EUA já deixaram claro que para eles a desnuclearização da Coreia do Norte passa pela entrega de todas as armas nucleares. Ora Kim nunca admitiu fazê-lo. Historicamente, Pyongyang exige que os americanos retirem as tropas que têm na Coreia do Sul e abdiquem de manter Seul sob o seu escudo de proteção anti-nuclear. Os EUA têm presença militar no país desde 1945 quando no final da II Guerra Mundial, que ditou o fim da ocupação japonesa da Península, se instalaram no Sul, ficando o Norte sob domínio soviético. Em 1950, quando o Norte invade o Sul, são os americanos que lideram a ajuda a Seul, com apoio da ONU, tendo estado na assinatura do armistício três anos depois. Hoje Washington continua a ser uma forte aliada de Seul. E ambas com certeza ganhariam com a normalização da relação com Pyongyang.

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