Apaixonou-se pelos azulejos e nem pensa voltar aos EUA

A norte-americana Eileen McDonough chegou a Portugal em 1994 para dar aulas de inglês.

Quando lhe falaram em vir trabalhar para Lisboa, Eileen McDonough lembra-se de ter pensado: "Não conheço uma única alma na Europa e não falo uma palavra de português, mas porque não?" Foi assim que chegou a Portugal em 1994 para dar aulas de inglês numa escola de línguas, deixando para trás Washington e uma carreira na editora Macmillan Publisher. O contrato era de nove meses, mas já passaram mais de duas décadas. Ser professora não era mesmo a sua vocação. Essa surgiu quando começou a reparar nos passeios, a ver a calçada e os mosaicos. Hoje é o que faz para ganhar a vida.

"Fiquei cativada. E pensei: tenho de aprender a fazer isto. Hoje basta ver um vídeo no YouTube mas na altura acabei por aprender quase tudo sozinha", conta Eileen sentada no seu estúdio na Rua Santo António da Glória. A artista vive ali perto, a cem metros, mas é no estúdio, rodeada das suas obras, que gosta de passar a maior parte dos dias. Nas paredes há quadros com imagens de Fernando Pessoa, com elétricos, com sardinhas, mas também um manequim com um fato de banho com a bandeira de Portugal - "Essa é a Miss Portugal!" - ou uma cabeça de índia com as penas feitas em mosaicos chamada Vera.

Decidida a fazer dos mosaicos a sua vida, pouco depois de chegar a Portugal Eileen resolveu então mergulhar nas lojas de material de construção à procura do que precisava. "Na altura não havia o Leroy Merlin, onde podemos comprar tudo. E o meu português era tão básico que acho que nos entendíamos [com os vendedores] por telepatia", confessa a rir. Hoje o português de Eileen é muito melhor, mesmo se a artista confessa - em inglês, língua que prefere para uma conversa mais profunda e demorada - que a filha, Dorothy, de 15 anos, costuma gozar com os erros que ainda dá.

Nascida em Pittsburgh, na Pensilvânia, numa família de oito irmãos, Eileen estudou no Ohio, onde conheceu o primeiro marido. A relação terminou. E a americana pediu à empresa onde trabalhava para a mudar para outra cidade. Foi assim que acabou em Washington. "O divórcio foi como a carta de saída da prisão no Monopólio. Tinha chegado a altura de me divertir", lembra. Uma má experiência que hoje admite ter influenciado a sua vinda para Portugal.

A ideia foi-lhe apresentada por um amigo que trabalhava no Departamento de Estado. Esse amigo - que hoje tem 90 anos e ainda mantém o contacto com Eileen - tinha trabalhado em 17 países e passado por Lisboa nos anos 70, depois do 25 de Abril, sendo o responsável pela comunicação da Embaixada dos EUA quando Frank Carlucci era o embaixador. "Desses países todos, o seu preferido era Portugal. Ele adorava Lisboa. E quando o conheci, nos anos 90, ele disse-me: olha, se estás a pensar viver no estrangeiro, escolhe Lisboa. Na altura pensei: porque não?"

Convencida de que vinha por nove meses, Eileen recorda que só por isso a mudança para um país desconhecido "não foi assim tão assustadora". E depois fez amigos, conheceu o atual marido e acabou por ficar. Até hoje. Mas rapidamente percebeu que os seus trabalhos com mosaicos não eram um contributo suficiente para o orçamento lá de casa. A filha tinha feito 5 anos, ia para a primária e as contas continuavam a crescer. Foi assim que surgiu a ideia de criar a Mandamor, uma empresa de postais de boas-festas com mensagens para todas as ocasiões: do Natal ao Dia do Pai, dos casamentos ao Dia dos Namorados. Foi precisamente a 14 de fevereiro último que "passou o testemunho" ao marido, entregando-lhe a gestão da empresa. Até porque ele é "um génio dos negócios".

Empenhada em expandir o negócio dos mosaicos, Eileen foi bater à porta de lojas e galerias com os turistas na mira. Um quadro de 20x20 como os que tem na parede do estúdio custa cerca de 60 euros, mas uma obra como Vera pode chegar aos 400. Apostou nos workshops mas o que queria mesmo era mais comissões para dar o seu nome a conhecer.

Apesar de os sete irmãos viverem todos nos EUA - "de Boston a Miami, ao longo da costa leste" -, voltar para a América não está nos planos de Eileen. A nossa primeira conversa foi em novembro de 2016 antes das presidenciais que deram a vitória a Donald Trump.

E a artista não escondia o apoio à democrata Hillary Clinton. Agora, com o milionário na Casa Branca, diz-se mais feliz do que nunca por viver em Portugal. "Aqui as pessoas percebem o que é importante na vida. As prioridades são as certas. São os prazeres simples da vida." Com os sogros a viverem no Algarve, Eileen lamenta não conhecer melhor Portugal - "adoro o Norte e o Alentejo" - mas de uma coisa tem a certeza: "Esta é a minha casa!"

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