ANC dividido vota sucessor de Zuma em clima de tensão

Reunião decorre num momento vital para o partido no poder há 23 anos. Está em queda no plano eleitoral e nome do presidente tem sido associado a casos de corrupção.

Um atraso de várias horas, duelo de canções e acusações de mais de cem delegados terem sido impedidos de participarem no congresso do ANC, marcaram o primeiro dia de trabalhos da reunião que decorre em Joanesburgo, nos arredores de Soweto, e de onde sairá o nome do novo dirigente do partido e candidato à sucessão de Jacob Zuma na presidência da África do Sul.

O ANC (Congresso Nacional Africano, no poder desde o fim do apartheid em 1994) vive neste congresso, que se prolonga até quarta-feira, o momento mais importante dos últimos 23 anos, com as decisões que aqui forem tomadas a definir o seu futuro enquanto partido. O anúncio do sucessor de Zuma, que deve ser conhecido hoje, pode levar inclusive a uma divisão no ANC. Os dois candidatos centrais, o atual vice-presidente, Cyril Ramaphosa, e uma ex-mulher de Jacob, antiga ministra e ex-presidente da União Africana, Nkosazana Dlamini-Zuma surgem como empatados na corrida da liderança e declarações suas e de seus apoiantes sugerem que nenhum está preparado para a derrota. Há ainda mais cinco candidatos e participam no congresso cerca de seis mil delegados.

O mandato de Zuma termina em 2019, e a figura agora escolhida será o candidato presidencial do partido a ser escolhido pela Assembleia Nacional eleita nas legislativas naquele ano.

Sintoma da atmosfera que se vive no ANC foi a batalha coral verificada antes do início dos trabalhos, com apoiantes de Ramaphosa e de Dlamini-Zuma a cantarem loas aos respetivos candidatos. Isto apesar de a presidência do congresso ter proibido essas manifestações.

Ambos os campos trocaram acusações de delegados eleitos por cada candidatura estarem impedidos de se apresentarem ao congresso ou, podendo fazê-lo, estarem impedidos de votar por decisão judicial, já que vários casos de alegadas irregularidades foram levados aos tribunais. Na questão dos delegados há ainda um outro aspeto a ter presente: embora Ramaphosa tenha conseguido mais representantes, estes não estão estatutariamente obrigados a votar por quem foram eleitos.

O momento é também grave para o ANC com a sua reputação seriamente afetada por escândalos de corrupção e más práticas por parte de Zuma, de amigos, familiares e de outras figuras do governo. O presidente foi alvo de várias tentativas de destituição na Assembleia, mas sem sucesso. Eleitoralmente, o partido saiu enfraquecido das municipais de 2016, devido aos bons resultados da Aliança Democrática (principal força da oposição) e dos Com- batentes pela Liberdade Económica (EFF, sigla em inglês), de Julius Malema, antigo líder da Liga da Juventude do ANC, expulso em 2011 por ter criticado Zuma. Nestas eleições ficou claro que o ANC deixou de ter a hegemonia política na África do Sul.

Zuma pronunciou-se pela escolha da sua ex-mulher, mas os escândalos em que se viu envolvido poderão ter reduzido o seu peso político, apesar de o presidente ter anunciado algumas medidas poucas horas antes do início do congresso, entendidas como uma tentativa de reforçar a sua posição - por exemplo, alargou a isenção de propinas no ensino superior. Posteriormente, falando no congresso, garantiu que todas as alegações de tráfico de influência e corrupção envolvendo o seu círculo próximo serão investigadas por uma comissão independente.

Principais candidatos

Cyril Ramaphosa Tem 65 anos. Licenciado em Direito. Antigo líder sindical, tornou-se um empresário de sucesso e das pessoas mais ricas da África do Sul. Bastante elogiado nalguns setores e criticado noutros, apresenta uma faceta controversa para muitos sul-africanos, que lembram ser Ramaphosa membro do conselho de administração da mina de Lonmin quando ocorreu o massacre de Marikana, em 2012, em que a polícia abriu fogo e matou 34 mineiros em greve. Atual número dois de Jacob Zuma, é um dos veteranos da luta contra o regime do apartheid. Foi, posteriormente, um dos protagonistas nas negociações da transição para a democracia. Apresenta uma imagem reformista, acentuando cada vez mais as críticas à atuação pessoal e política de Zuma. É o preferido dos meios empresariais.

Nkosazana Dlamini-Zuma Tem 68 anos. Estudou em Bristol (no Reino Unido), onde se formou em Medicina. Chegou a ministra da Saúde (1994-1999) antes de seguir para a pasta dos Negócios Estrangeiros (1999--2009) e, posteriormente, para a Administração Interna (2009-2012). Anteriormente a 1994, desempenhou papel relevante na luta do ANC contra o apartheid. Foi ainda a primeira mulher a liderar a Comissão da União Africana. Na campanha, defendeu as políticas económicas até agora seguidas e garantiu que pretende acabar com as profundas "desigualdades raciais" persistentes na África do Sul. Cultivou uma retórica vista como populista pelos seus adversários, criticando as grandes empresas estrangeiras no país. Terceira mulher de Jacob Zuma, de quem tem quatro filhos, divorciou-se em 1998.

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