Se Lula da Silva quiser ser candidato à presidência do Brasil em 2018, sê-lo-á com o pleno apoio do Partido dos Trabalhadores (PT). Mas se por acaso não quiser ser candidato à presidência do Brasil em 2018, o PT obriga-lo-á a ser. O partido que desde o dia 1 de janeiro 2003 ocupa o Palácio do Planalto e 13 anos depois regressa à oposição não tem alternativas ao seu fundador e líder espiritual.."Não formamos quadros", lamentou-se o próprio Lula, quando em maio começou a ficar claro que a sua sucessora Dilma Rousseff iria ser deposta pelo Senado Federal. O político que no próximo dia 27 de outubro completará 71 anos e chegará a 2018 com 73 é o plano A, B e C do PT nas próximas presidenciais. "Só não será presidente se não quiser, estamos ao seu dispor como sempre estivemos", disse Rui Falcão, presidente nacional do partido e defensor da candidatura de Lula, em vez de Dilma, já nas eleições de há dois anos..Mas jogam contra o velho metalúrgico os fatores idade - na história do Brasil, só Michel Temer, aos 76, chegou à presidência mais velho - saúde - sobreviveu a um cancro em 2012 - e justiça - é acusado em operações policiais no contexto da Lava-Jato e não só. Assim sendo, dentro do PT a pergunta, por mais incómoda que seja, tem sentido: e se, por algum motivo, Lula não estiver disponível?.Até ao início do ano, nomes importantes do governo de Dilma Rousseff, como o ministro-chefe da Casa Civil Jaques Wagner, parceiro político antigo de Lula, ou o titular da Educação Aloízio Mercadante, homem de confiança da presidente, eram apontados como alternativas. Mas, apeados do poder, perderam visibilidade e brilho. Ainda para mais com o carimbo de derrotados colado na testa desde a decisão do Senado Federal de ontem à tarde de pôr um ponto final no dilmismo..Nesse contexto, emerge o nome de José Eduardo Cardozo, que foi ministro da justiça da presidente deposta mas ganhou sobretudo notoriedade enquando advogado apaixonado e rigoroso da ex-chefe no processo de impeachment. E o de Fernando Haddad, o prefeito da maior cidade da América Latina, São Paulo, e ícone da chamada "esquerda caviar paulistana". Sucede que Cardozo perderá os holofotes a partir de agora e Haddad está num quarto e discretíssimo lugar na campanha de reeleição nas municipais de outubro, podendo perder o palanque e a aura vencedora que, eventualmente, foi ganhando nos últimos anos..E outros prefeitos do PT? Não há. Ou, por outra, há cada vez menos. Das municipais de 2012 para as de daqui a dois meses, a sigla perdeu quase metade dos candidatos a prefeito pelo país - de 1829 há quatro anos para 992 agora, de acordo com dados do Tribunal Eleitoral - fruto do desgaste de 13 anos no poder central e de fatores externos, como a Lava-Jato e outros..Anos duros.A situação pode não ser tão dramática para o PT como seria para outras forças porque o partido, nascido no sindicalismo e no ABC paulista, em alusão às iniciais dos três subúrbios de São Paulo de vocação industrial onde Lula e companheiros se forjaram - Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano -, cresce quando faz oposição. Os próximos dois anos serão duros para o PT, por estar fora do poder, na exata proporção em que serão duros também para o governo Temer, por ter de enfrentar a aguerrida oposição de Lula e companhia..Lula, que se queixa do partido não criar quadros, sonhou um dia que José Dirceu o sucedesse nas eleições de 2010, mas o seu alter ego político acabou manchado e detido no escândalo do Mensalão (e ainda na Lava-Jato). Depois, viu a técnica, séria e austera Dilma como contraponto ideal à sua personalidade política, alegre e flexível e levou-a às costas até ao Planalto, de onde ela, no entanto, acaba de escorregar e cair com estrondo. Concluirá Lula que o melhor sucessor de Lula é o próprio Lula. O PT reza para que ele, líder nas sondagens a dois anos do sufrágio, continue no gozo pleno da sua saúde e da sua liberdade até 2018..Em São Paulo