América dividida: os debates mais controversos da Politicon

Convenção reuniu 10 mil pessoas em Los Angeles e foi palco de debates aguerridos, com gritaria na audiência e acusações de parte a parte

Num dos semáforos ao lado do centro de convenções de Pasadena, alguém pendurou um cartaz a dizer "Fuck Zuck 2020." É uma referência à possível candidatura do CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, às eleições presidenciais dentro de três anos. Um dos bilionários mais jovens do mundo, Zuckerberg é uma escolha atrativa para muitos dentro do partido Democrata, que até ao momento não faz a mínima ideia de como irá enfrentar Donald Trump quando o seu primeiro mandato terminar.

O nome de Mark Zuckerberg foi atirado para o ar em vários painéis da Politicon este fim de semana. Tal como o de Howard Schultz, CEO da Starbucks, a senadora Kamala Harris, o senador Corey Booker, e basicamente qualquer pessoa cujo primeiro nome não seja Hillary e o sobrenome não seja Sanders.
"A mensagem mais poderosa numa democracia é dizer "eu sou um de vocês"", analisou Paul Begala, antigo conselheiro de Bill Clinton. "Trump, que ia para a escola de limousine, conseguiu fazer isso. A Hillary não."
"Não estamos numa situação em que aqueles que votaram em Trump vão desaparecer", disse o consultor político Bill Burton, falando da necessidade de os Democratas afinarem a sua mensagem. Nesta convenção política muito pouco convencional, ficou claro que os conservadores estão furiosos com o Partido Republicano pela sua incapacidade de passar legislação relevante, mesmo controlando as duas casas do congresso, e os democratas estão perdidos à procura de uma mensagem unificadora. Aquilo que os divide é muito mais que o que os aproxima. Na grande maioria dos painéis, por onde passaram congressistas, analistas políticos, ex-governantes, ex-membros de agências de inteligência, ex-conselheiros de presidentes e comentadores, ficou espelhada a atual situação do país: ninguém concorda com ninguém e toda a gente tem uma ideia diferente do que é melhor para o país.

Apesar do ativismo que "acordou" com a eleição de Trump, o partido Democrata ainda não conseguiu encontrar uma mensagem unificadora que lhe permita capitalizar no enorme descontentamento da população com a administração Trump, salvo os seus apoiantes. E nesta convenção política, que juntou pessoas de todos os partidos e ideologias, houve muitos. Quando não passeavam pelo centro de convenções com bonés a dizer "Make America Great Again", vestidos feitos da bandeira americana ou t-shirts com o nome de Trump em tamanho garrafal, enchiam painéis estratégicos para apupar oradores de esquerda ou aplaudir com ferocidade os seus conservadores favoritos.

O Breitbart da esquerda contra a estrela de direita
Foi isso mesmo que aconteceu durante o debate mais surpreendente de toda a convenção, entre o co-fundador do canal online The Young Turks, Cenk Uygur, e o editor do site conservador The Daily Wire, Ben Shapiro. A fila para assistir ao embate começou muito antes da hora marcada e quando ultrapassou um milhar de pessoas os organizadores tiveram de passar o painel para o grande auditório. O ambiente que se viveu lá dentro foi muito diferente dos outros painéis: aqui, os conservadores e apoiantes de Trump estavam em grande maioria.

"O maior aliado que os Republicanos têm é a incompetência e estupidez do partido Democrata", atirou Shapiro, para gáudio da audiência de direita que se fez ouvir durante todo o debate. Ao contrário do resto da Politicon, aqui praticamente não se falou de Trump. Discutiu-se a visão sobre o sistema de saúde, a reforma fiscal, a educação. Ben Shapiro acha que o governo tem de ser muito limitado, deixar o capitalismo resolver os problemas no mercado de seguros de saúde e educação, e baixar os impostos a empresas e cidadãos. Também não concorda com restrições aos donativos a campanhas e políticos. "Isto é a América, gasto o meu dinheiro onde eu quiser."

Uygur, que fala numa voz gutural e mais pausada que Shapiro, desferiu vários ataques sobre o que considera ser a hipocrisia da direita. "Não querem um governo grande, mas quiseram um que invadisse o Iraque. Falam de um governo limitado, mas querem meter-se dentro dos úteros!", apontou, galvanizando a porção da audiência que se identifica com a esquerda e o direito ao aborto.

Um elefante chamado Rússia
A comoção gerada por esta discussão, que entrou pela doutrina económica de Keynes e passou pela "política identitária" dos democratas, pareceu estar ligada a uma certa "star quality" dos intervenientes e a lealdade pura dos seguidores. De resto, foi algo que se notou noutros debates, embora tenha havido discussões em que o tema transcendeu partidos e alianças.

O caso mais flagrante foi o do painel "From Russia with Trump", cujo elenco de oradores foi um dos melhores da convenção: Ted Lieu, veterano do exército, licenciado em engenharia informática e agora congressista pelos Democratas; Malcolm Nance, que foi especialista em inteligência e criptologia na marinha dos EUA; Dana Rohrabacher, assistente do presidente Ronald Reagan e agora congressista pelos Republicanos; e Ana Navarro, que serviu várias administrações republicanas, de Jeb Bush m 1998 a John McCain em 2008.

"O presidente da Rússia é um ex-oficial do KGB", lembrou Malcolm Nance, que trabalhou em inteligência durante vinte anos. "Eles decidiram atirar ao melhor arqueiro. Esta é, possivelmente, a maior operação de inteligência do mundo." Nance foi o primeiro especialista, em julho do ano passado, a declarar que os EUA estavam a ser atacados numa operação de larga escala perpetrada pelos russos. "Os chineses aspiram os dados e analisam. São piratas defensivos", explicou, falando dos vários ataques perpetrados nos últimos anos por Pequim. "A Rússia tornou-os numa arma: primeiro, para dividir o partido Democrata. Depois, eles piratearam as vossas mentes em relação à Hillary Clinton."

Rohrabacher não podia discordar mais, apesar de ter tido dificuldade em falar - os apupos da audiência eram tão fortes que chegou a desistir de algumas explicações. "Há muita gente má na Rússia, mas também temos maus na América", afirmou. Na audiência, mais um grito: "Sim, estão na Casa Branca!"

O republicano defendeu que a Rússia pode ser um bom aliado para os Estados Unidos na luta contra o ISIS e contra outros inimigos, como a Coreia do Norte. "Não confiem nas agências de inteligência americanas antes de verificarem", avisou, deitando muitos queixos abaixo. Ted Lieu sublinhou que existe um email, divulgado por Donald Trump Jr, onde está escrito "a preto e branco" que a Rússia tinha uma operação para ajudar Trump a ser eleito. "Onde estão as provas?", perguntava Rohrabacher. Malcolm Nance retorquiu que os dados recolhidos pela inteligência só se transformam em provas quando chegam às mãos do sistema de justiça. Que é precisamente o que está a acontecer com a investigação de Bob Mueller, procurador especial encarregado da investigação Trump-Rússia.

"É crucial que os republicanos no Congresso façam tudo o que puderem para protegerem a integridade de Bob Mueller", avisou Ana Navarro, dados os rumores de que Trump quer despedir o procurador especial. "Em que pés está Mueller a pisar?" questionou, lamentando que o procurador-geral Jeff Sessions tenha sido transformado numa "piñata humana" depois das sucessivas humilhações públicas a que foi sujeito pelo presidente. "Tenho 45, sou tão velha que ainda me lembro de quando os republicanos eram contra os espiões soviéticos e pró-família", ironizou. "Agora temos um presidente que é pró-Rússia, contra as agências de inteligência e um agarrador de vaginas."

Ted Lieu, que foi também procurador, explicou que não é necessário "completar o crime" para incorrer nele. "Olhei para o relatório, que ainda está classificado. O presidente mente quando diz que não foi a Rússia a lançar este ataque."

No entanto, entre os apoiantes de Trump são poucos os que sequer acreditam que tenha havido um ataque. "Obstrução de justiça? Absolutamente não", disse ao DN Jason Watson, um dos que foi a Pasadena envergando o seu boné "Make America Great Again." "O nosso governo tem estado envolvido na política de todos os países do mundo nos últimos 70 anos", acusou. "Ainda não vi provas nenhumas de nada." E arriscou: "eu aposto a minha reforma em como Trump não será destituído e ainda vai ser reeleito em 2020."
Não se Mark Zuckerberg puder evitá-lo, Jason. Ou assim esperam os democratas.

Em Los Angeles

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