Alvo de críticas, May dá milhões para as vítimas do incêndio

Primeira-ministra foi vaiada à saída de encontro com sobreviventes da torre. Há 30 mortos confirmados, mas podem chegar a 70

"Cobarde" e "não te queremos aqui" foram algumas das palavras que a primeira-ministra britânica, Theresa May, ouviu enquanto estava a ser escoltada pela polícia para longe de uma igreja londrina, onde se encontrou com sobreviventes do incêndio de terça-feira na torre Grenfell, assim como voluntários e líderes da comunidade local. May, cujo governo é acusado de não ter respondido da melhor forma à tragédia, anunciou um fundo de cinco milhões de libras (5,7 milhões de euros) para ajudar as famílias afetadas.

A primeira-ministra foi alvo de críticas porque, na primeira visita ao local, esteve com os bombeiros mas não se encontrou com as vítimas - alegou depois motivos de segurança, mas ontem a rainha Isabel II e o neto, William, estiveram com elas na rua. Por seu lado, o líder da oposição, Jeremy Corbyn, foi fotografado a abraçá-las logo na quinta-feira.

No seu editorial, o jornal The Guardian disse que este era o furacão Katrina de Theresa May, comparando a falta de ação governamental da primeira-ministra com a do então presidente norte-americano, George W. Bush, que em 2005 se limitou a sobrevoar a zona afetada pela tempestade. A sua fotografia a olhar para as inundações a partir das janelas do avião tornou-se símbolo de uma administração desligada da realidade.

Para reverter a situação, May começou ontem por visitar os sobreviventes no hospital (24 pessoas ainda estão internadas, 12 delas em estado crítico), antes de uma reunião de emergência com vários dos seus ministros. Na véspera, tinha deixado o caso nas mãos de secretários de Estado que só assumiram o cargo esta semana, após a remodelação governamental desencadeada pela perda da maioria nas eleições da semana passada.

Após visitar o hospital, May falou das "histórias individuais horríveis" que ouviu e de como falou com pessoas que "fugiram do fogo só com as roupas que estavam a usar". Lembrando que ficaram sem nada, "sem cartões multibanco, dinheiro ou meios para cuidar dos seus filhos ou familiares", prometeu dar-lhes "apoio imediato caso precisem de ajuda". O governo também prometeu realojar todas as pessoas no espaço de três semanas, o mais próximo das suas antigas casas para garantir que os filhos continuam nas mesmas escolas. "Toda a gente afetada por esta tragédia precisa de garantias de que o governo está cá para elas neste momento terrível. E é isso que estou determinada em garantir", afirmou.

Depois de se encontrar com famílias desalojadas e outros membros da comunidade local na igreja, May teve que ser escoltada pela polícia com vários populares a correrem atrás do carro. Mais cedo, várias centenas de manifestantes tinham gritado "queremos justiça" e "tenham vergonha", chegando a invadir o edifício das autoridades administrativas do bairro de Kensington e Chelsea (responsáveis pela gestão da torre de casas sociais), na esperança de confrontar os vereadores locais. Ao final do dia, o protesto alastrou para o centro de Londres, em direção a Downing Street.

Os manifestantes acusam as autoridades de esconder o número real de vítimas - há 30 mortos confirmados, mas imprensa estima que esse número possa chegar aos 70 - e de os manterem na ignorância. Também criticam as autoridades locais por não terem ouvido os seus alertas de segurança em relação ao edifício de 24 andares. A polícia, que já abriu uma investigação criminal, está a estudar a hipótese de ter sido o revestimento da fachada do prédio, acrescentado no ano passado para tornar o edifício construído nos anos 1970, o responsável pela rápida propagação do fogo.

Segundo o The Times, este tipo de revestimento é proibido nos EUA em edifícios com mais de 12 metros de altura (até onde chegam as escadas dos bombeiros). Já o The Guardian revelou que o material era o mais inflamável das duas opções propostas para a obra, sendo duas libras por metro quadrado mais barato que o de qualidade superior.

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