Akihito vai abdicar mas não é por isso que a família imperial está em crise

Casa Imperial tem 19 membros e só cinco são do sexo masculino. Mulheres têm de renunciar ao título quando casam com plebeus e isso significa que o futuro está nas mãos de um rapaz que só tem dez anos. A não ser que a lei mude.

A primeira crise na família imperial japonesa foi evitada em setembro de 2006, quando a princesa Kiko, casada com o filho mais novo do imperador Akihito, foi mãe de um rapaz. Todo o debate que tinha sido lançado sobre a possível abertura do trono do Crisântemo às mulheres, pelo facto de Akihito só ter netas, foi logo posto de parte pelo nascimento de Hisahito, que é atualmente o terceiro na linha de sucessão. Mas uma nova crise aproxima-se, pondo em risco o futuro da monarquia mais velha do mundo.

O governo aprovou a 19 de maio um projeto de lei que autoriza o imperador, de 83 anos, a abdicar. Akihito será o primeiro a fazê-lo em 200 anos - o último foi Kokaku, em 1817, apesar de isso anteriormente ser bastante comum. Mas a crise não está na passagem do trono para o príncipe herdeiro Naruhito, educado em Oxford e preparado para desempenhar o cargo cerimonial.

O problema está no facto de haver cada vez menos membros na família imperial, por causa das regras aprovadas em 1947. Estas ditam que as princesas que casem com plebeus têm de renunciar à Casa Imperial. E é isso que se prepara para fazer a neta mais velha de Akihito, Mako, cujo noivado com o assistente legal Kei Komuro deverá ser anunciado no verão. Com um mestrado em Arte pela Universidade de Leicester, Mako está a fazer o doutoramento em Tóquio e trabalha num museu. Rosto de duas organizações, a princesa viaja para o estrangeiro e representa a família imperial em vários eventos. Funções que terão depois de ser garantidas pelos restantes 18 elementos da família.

Além de Naruhito e do irmão Akishino, assim como as suas mulheres e descendentes, a família é formada por um irmão do imperador e a mulher (que não tiveram filhos) e pela viúva de outro irmão, cujos filhos também já morreram, restando apenas duas noras, cada uma com duas filhas. Isso significa que, fora o imperador, existem só quatro homens na família: Naruhito, o herdeiro, Akishino, o segundo na linha de sucessão, o seu filho Hisahito, e o irmão de Akihito, Hitachi (na prática o quarto na linha de sucessão, apesar dos seus 81 anos).

Em 1947, durante a ocupação norte-americana no pós-II Guerra Mundial, 11 dos 12 ramos da família imperial perderam os privilégios. O que implica que também não há elementos de "sangue azul" do sexo masculino para casar com as netas ou sobrinhas-netas do imperador. Caberá então a Hisahito - e à futura mulher - a continuidade da família imperial, sabendo-se que foi a pressão para ter um filho varão que esteve por detrás da depressão da atual princesa herdeira, Masako, que raramente aparece em público.

A solução poderá passar por uma mudança na lei. Muitos defendem que deve voltar a ser permitido às mulheres herdarem o trono - até à restauração Meiji, em 1866, isso era possível e houve mesmo oito imperatrizes (a última foi Go-Sakuramachi, no século XVIII). O tema foi debatido seriamente em 2005, sendo o então primeiro-ministro, Junichiro Koizumi, favorável à mudança. O nascimento de Hisahito pôs um ponto final no assunto.

O atual chefe do governo, Shinzo Abe, é uma figura mais à direita, conservador e contrário à ideia de ter uma mulher no trono. Uma sondagem recente da Kyodo News mostrou contudo que 86% dos inquiridos apoiavam a ideia de voltar a ter uma imperatriz. E 59% um imperador oriundo de uma das linhas femininas da família. Isso passaria por permitir que as princesas casassem com plebeus sem deixar a Casa Imperial. Outra solução seria restaurar o estatuto real aos ramos da família que o perderam em 1947.

Mas qualquer mudança enfrentará a resistência dos conservadores, que não quiseram incluir o tema no projeto de lei que permitirá a renúncia de Akihito. Este deverá ser aprovado em junho pelo Parlamento, estando a legislação feita apenas para o caso do atual imperador - ao contrário do que defendia o Partido Democrático, na oposição.

Foi o próprio Akihito que, num pronunciamento ao país (o segundo do seu reinado) falando na sua idade e saúde (já recebeu tratamento para um cancro na próstata e foi operado ao coração) expressou preocupação de já não ser capaz de continuar a desempenhar o seu papel. A abdicação tem de ocorrer no prazo de três anos após a entrada em vigor da lei - os media apontam para que ocorra no final de 2018, depois de o imperador fazer 85 anos.

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