"A tecnologia é a nova escravatura"

O escritor Pankaj Mishra fala ao DN sobre o seu novo livro Tempo de Raiva.

O nome Pankaj Mishra indica que o autor deve ser originário da Índia, portanto pergunta-se-lhe logo se não tivesse nascido nesse país teria escrito este livro? A resposta é: "Nunca". Explica: "Este é um livro escrito na perspetiva de um outsider que conhece bem a história e a literatura europeias mas não é europeu, daí que observe tudo de um ângulo diferente". Avisa: "Há pessoas que não gostam deste meu livro, Tempo de Raiva, porque não querem a participação de gente de fora." Nada que tenha evitado o seu sucesso, demonstrado por um grande número de traduções, como a portuguesa. Mishra veio de férias a Portugal, país onde já esteve várias vezes: "Sempre fui interessado no país devido às suas ligações com a Índia. Quem vai a Goa não fica indiferente à longa relação com Portugal, uma presença que se encontra por toda a Ásia. Agora ainda se torna mais interessante porque é um case study para perceber como é que um governo pode resolver situações que outros países europeus são incapazes". Nascido em 1969, licenciou-se em Comércio antes de se dedicar a um mestrado em Literatura Inglesa. Em 1992, dá início a uma produção de ensaios para a The Indian Review of Books e outras publicações indianas. Escreve um primeiro livro de viagens que se foca nos choques sociais no seu país no contexto da globalização.

Portugal iniciou a globalização. É responsável pela situação do mundo?

Não conheço o suficiente da vossa história, mas posso dizer que Portugal foi afetado pela globalização e pela reação política de contestação que está a acontecer no planeta com o despertar de movimentos de extrema-direita e novos fascismos. Não é evidente cá porque tiveram a própria experiência de fascismo e, como Espanha, sabe o que é e está vacinado para as próximas décadas.

Dá como exemplo o regresso das séries de TV com zombies para as comparar às pessoas que andam pelas ruas agarradas aos telemóveis. É um paralelo?

É muito perturbador ver como os telemóveis e os smartphones tomaram conta da vida das pessoas e tornaram-se a primeira ligação com o mundo. Há qualquer coisa que encoraja o isolamento e cria a ilusão da autossuficiência porque não é necessário encontrar-se com ninguém e evita o frente-a-frente. Aliás, nem é preciso estar-se ligado ao mundo, o que reconfigura o pensamento e o cérebro - uma realidade que ainda não percebemos bem. A nova geração está a crescer a pensar que esta situação é normal e o resultado será uma visão muito diferente do que é o mundo.

A palavra liberdade era uma bandeira. Agora, os jovens nem pensam nisso!

É um enorme problema porque as novas gerações não compreendem que estão a ficar escravos da tecnologia contemporânea através de uma variedade de aparelhos e pela manipulação de dados digitais que estão a cercar a individualidade e o direito à privacidade. A tecnologia é a nova escravatura! Todos os valores anteriores estão a ser dispensados, promovendo uma mudança tão grande que se aceita deitar fora a liberdade pelo direito a uma noção fantástica de si. Pode dizer-se que têm uma ideia deles como a de um holograma.

Quando dá exemplos de pessoas insatisfeitas em ser hologramas aponta Timothy McVeigh. É o exemplo?

Estamos a chegar ao fim de um ciclo em que muitas pessoas estão fartas de ser enganadas e desapontadas, mesmo que muitos milhões estejam satisfeitos com a ilusão em que vivem. Os muito zangados porque as suas condições materiais se deterioram acabam por apoiar movimentos de extrema-direita e esquerda.

Como alterar a situação?

Só se pode mudar através da pressão das pessoas e das instituições num movimentos de dimensão mundial.

Acabou o livro aquando do brexit e publicou-o durante a eleição de Trump. Hoje escreveria de forma diferente?

Provavelmente não. O que questiono é um problema que observamos numa grande parte do mundo. Quando os problemas surgirem nos EUA e na Inglaterra, então a minha explicação estará ainda mais certa e ver-se-á que são ideias estúpidas ser o islão ou a Rússia os culpados pelas revoltas em todo o mundo.

O islão é uma distração?

Completamente, e até tem sido contraproducente o que se tem feito. Havia outras respostas (após o 11 de Setembro), como conduzir uma caça ao homem e levá-los à justiça em vez de invadir e ocupar países e abrir novas frentes de conflito. Foi catastrófico e fez que chegássemos aos atentados que estão a acontecer em países da Europa.

Terrorismo foi sempre a resposta?

Historicamente, o terrorismo emerge com movimentos de extrema-direita e demasiadas vezes para se ignorar.

Usa muito os escritores como suporte para as suas teses. A literatura é tão explicativa como a história?

No século XIX a descrição da sociedade era feita por romancistas, que desvendavam a alma das pessoas e as alterações políticas. Balzac foi importante para Marx e Dostoievski para quem queria saber o que se passava na Rússia.

A literatura atual tem o mesmo papel?

Já não é uma radiografia das vidas das pessoas mesmo que explique as contradições irracionais do processo histórico.

Só chega a Fukuyama e ao Fim da História na pág. 51. É incontornável?

No Ocidente, as pessoas gostam dele porque tem um grande poder cultural e é americano. Os seus livros são publicados em todo o lado e poucos têm esse poder, portanto Fukuyama está ligado ao maior poder militar do mundo. O Fim da História é uma parvoíce que se tornou mais importante do que merecia.

Diz que terceira guerra mundial está em curso. Através da guerra civil?

Várias sociedades estão muito extremadas e profundamente divididas. Não sendo uma guerra civil como aquelas a que estamos a costumados, nota-se a falta de consenso e uma grande fragmentação. Basta ver os exemplos da Catalunha, da Escócia ou da Índia.

Isso facilita o populismo?

O populismo e os seus líderes são uma falsa resposta. São oportunistas que usam estes momentos como se fossem salvadores mas pouco podem alterar a situação. Trump sim, tem esse poder. A América não recuperará desta liderança porque o seu poder consiste na perceção que o mundo tem dele, e foi tão afetada que será difícil recuperar o prestígio.

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