A segunda mulher presidente na Europa de Leste é uma derrota para Putin

Os moldavos escolheram uma presidente pró-europeia. O adversário, o chefe de Estado cessante, era apoiado por Moscovo e queixou-se da ingerência do Ocidente.

Maia Sandu vai juntar-se à eslovaca Zuzana Caputová no grupo exclusivo de mulheres eleitas chefes de Estado na Europa de Leste. Sandu, de 48 anos, líder do partido europeísta Ação e Solidariedade (PAS), ganhou a segunda volta das eleições presidenciais na Moldávia com 57,7% dos votos.

A até agora líder da oposição é formada em Economia. Maia Sandu trabalhou para o Banco Mundial em Chisinau entre 1998 e 2005, e depois em Washington entre 2010 e 2012. Ministra da Educação entre 2012 e 2015, ela teve uma curta experiência como primeira-ministra em 2019, num país habituado à turbulência política e que se divide entre um bloco pró-ocidental e um bloco pró-russo.

Sandu tinha prometido tirar a Moldávia, o país mais pobre da Europa, do isolamento internacional e aproximá-la da UE. Agora, no momento da vitória, o discurso foi mais realista: "Vamos construir um verdadeiro equilíbrio na política externa da Moldávia", disse tendo apelado a "um diálogo pragmático com todos os países", incluindo com os vizinhos Roménia e Ucrânia, a UE, os Estados Unidos e a Rússia.

"Quero que a Moldávia deixe de estar associada à pobreza, à corrupção e à emigração", acrescentou.

Segundo os meios de comunicação locais, o voto dos emigrantes foi essencial na vitória de Sandu na primeira volta das presidenciais, no dia 1 de novembro, uma vez que 92% votou na candidata de centro-direita. A taxa de participação na segunda volta foi de 52% entre os 3,2 milhões de eleitores recenseados na antiga república soviética.

O candidato derrotado, Igor Dodon, obteve 42,2% dos votos. O atual presidente, que chegou ao poder em 2016 ao vencer Sandu na segunda volta, reconheceu a derrota no sufrágio, apesar de se ter queixado de um número "sem precedentes" de violações eleitorais e de uma "ingerência direta dos líderes ocidentais".

Ainda assim, Igor Dodon apelou à calma dos seus apoiantes. "Não precisamos de desestabilização", disse o atual presidente, que durante o seu mandato foi alvo de acusações de corrupção.

Antes das eleições, levantou-se a possibilidade de um cenário bielorrusso, onde a contestada reeleição em agosto do presidente Alexander Lukashenko, apoiado por Moscovo, está a causar um movimento de protesto histórico.

Dodon tinha prometido manter laços estreitos com o "parceiro estratégico" da Moldávia, a Rússia, e defendia a língua russa obrigatória nas escolas.

Regime subordinado ao Kremlin

Para o perito Valeriu Pasha, em declarações à AFP antes da primeira volta, os moldavos tinham à escolha o caminho da "integração europeia mais intensa", uma área onde a Moldávia está atrasada em muitos aspetos, e a manutenção do atual regime, que está "totalmente subordinado ao Kremlin".

A Rússia mantém uma esfera de influência na ex-república soviética. O exército russo está presente na Transnístria, um território secessionista pró-Rússia de facto independente da Moldávia desde 1991 após uma breve guerra.

O presidente russo, Vladimir Putin, que tinha apelado aos moldavos para apoiarem Dodon, felicitou Sandu na segunda-feira à tarde e desejou-lhe sucesso. "Espero que a sua atividade na chefia de Estado contribua para o desenvolvimento construtivo das relações entre os nossos países", declarou Putin num comunicado divulgado pelo Kremlin.

Chisinau assinou um acordo de associação com a UE em 2014, mas nos últimos anos os escândalos de corrupção entre as elites moldavas comprometeram a ajuda financeira vital do Ocidente. Em 2018, Dodon, em entrevista à Radio Free Europe dizia que o maior problema do país não é a corrupção, mas o despovoamento.

A pesar nas contas e no ambiente, uma fraude bancária de mil milhões de euros, o equivalente a 15% do PIB do país, ocorrida em 2014.

No ano passado, quando se deu uma breve aliança entre socialistas (de Dodon) e o partido liderada por Maia Sandu, o político e oligarca Vlad Plahotniuc, alegado cabecilha da fraude a três bancos, fugiu do país. Mas Sandu, que não transigiu de nomear um procurador-geral independente para lutar contra a corrupção, acabou por se demitir de chefe do executivo ao fim de cinco meses de um governo que prometia uma profunda reforma.

UE de braços abertos

Os líderes das instituições europeias felicitaram Maia Sandu, tendo dito que a UE "está pronta para apoiar a Moldávia".

"A sua vitória é uma chamada clara para combater a corrupção e restaurar o respeito pelo Estado de Direito, o caminho para um futuro próspero. A UE está pronta para apoiar a Moldávia", declarou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no Twitter.

Também no Twitter, Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, referiu que a "UE está pronta para intensificar a parceria estreita" com a Moldávia.

"Parabéns a Maia Sandu pela sua vitória nas eleições. O povo da Moldávia escolheu claramente um caminho que dá prioridade à justiça, à luta real contra a corrupção e a uma sociedade mais justa."

A Roménia, país membro da União Europeia com laços históricos e uma língua comum com a Moldávia, felicitou Maia Sandu, assim como a Ucrânia, o outro país vizinho.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG